Counter

sábado, 19 de setembro de 2015

Blackbird


Mistura composta por desejo e atração

Cena contemporânea: uma criança vestida como adulto, assumindo agendas semi executivas, compromissadas com colégio, com aulas de lutas, de dança e de idiomas, com a prática de esportes, com os compromissos sociais festivos – um retrato da prole imitando seus progenitores, fato que estabelece uma linha tênue entre a infância e a maturidade e da eventual transferência dos anseios daqueles capazes de gerar vidas, naqueles que colocam no mundo.

A infância, muitas vezes comprometida com temáticas genuínas de um mundo adulto, tais como independência, competitividade e sexualidade, recebe uma carga além de sua capacidade, comprometendo a construção do indivíduo ao longo de seu desenvolvimento, contemplando aquela faixa etária. O amor é figurativamente transmitido como um sentimento a longo prazo e conceituado com base na incondicionalidade, a despeito do mundo adulto ser marcado pela sexualidade e pela atração, e, o pequeno mundo infantil, pela ternura e pela ingenuidade. Porém, quando da colisão entre esses dois mundos, os sentimentos de quer quem seja o seduzido ou o sedutor, tornam-se complexos diante do julgamento daqueles que não estão envolvidos nessa mistura composta por desejo e atração.

David Harrower, inspirado numa história real cujo argumento é baseado num fato julgado como crime sexual, assina o texto “Blackbird”, traduzido por Alexandre J. Negreiros e cuja atual montagem – no Espaço Tom Jobim, no Jardim Botânico, Rio de Janeiro – é dirigida por Bruce Gomlevsky. Una - mulher de 27 anos, vivida por Viviani Rayes – procura, obsessivamente, por Ray – de 56 anos, interpretado por Yashar Zambuzzi. Se reencontram quinze anos após a condenação de Ray pelo crime de pedofilia, por ter mantido um relacionamento com Una, ainda aos doze anos, enquanto ele com quarenta e um. Uma vez cumprida a sua pena privativa de liberdade, Ray se vê obrigado a mudar sua identidade para começar uma nova vida, como Peter.

O confronto entre Una e Ray acontece num cenário concebido por Pati Faedo, como um container de dimensões singulares, onde o lixo e outros resíduos inservíveis de escritório, em meio a destroços sentimentais, representam o descarte psíquico e do corpo a corpo travado por um amor não correspondido em sua totalidade. A instabilidade dos personagens é muito bem caracterizada por Ticiana Passos em seu figurino, que introduz Una como uma mulher sexualmente defasada que experimenta a vergonha imbuída de emoção no amarrotado Ray. O projeto de iluminação cênica de Elisa Tandeta não é amigável, mas dramático e soturno, uma vez que fere com luz, subjetivamente, os agentes dos sentimentos que carregam consigo a selvageria, a agressividade, o trauma e a doença definida como amor. A instabilidade emocional manifestada com requintes de agressividade verbal e física vem acompanhada pela trilha sonora de Marcelo Alonso Neves, ao longo do processo no qual a dupla de personagens, como pupas que, sem passarem pelo processo de metamorfose, simplesmente, se descartam de suas crisálidas emocionais.

O espetáculo não faz apologia a luxúria, não cria expectativas, não define o que é certo e o que é errado, nem mesmo identifica os sentimentos de seus protagonistas. “Blackbird” apenas sobrevoa em meio ao que pode ser tomado como o bem e o mal, com a inocência e ingenuidade de uma criança naturalmente comprometida com a sua sexualidade.


Nenhum comentário:

Postar um comentário