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quarta-feira, 2 de setembro de 2015

BR - Trans


Grito, que ecoa e reverbera

O submundo da sociedade tradicional é exposto e questionado, de maneira impactante, pela dramaturgia de Silvero Pereira que, com muita integridade, contraria a visão parca daquela sociedade costumeira, que coloca à margem tudo que é diferente ao padrão pré-selecionado por aqueles que ditam normas, leis, modas, religiões, filosofias, políticas e, com base em tudo isso, inventam histórias.

A tal felicidade, apregoada como algo a ser conquistado ao longo de toda a vida, vem disfarçada na pele de indivíduos e moldada em pseudo liberdade, democraticamente ditatorial, religiosamente pecadora, politicamente incorreta no que lhe é peculiarmente correto e humanamente desumana. A atípica direção de Jezebel De Carli demonstra o grau de saturação provocado por esse tipo de gente e grita um por basta. “BR – Trans” insere o espectador como parte desse grito, que ecoa e reverbera – vez em quando de forma poética, outras vezes violentamente e noutras, beirando à revoltada, tamanhos são os absurdos proferidos contra aqueles que simplesmente desejam ser o que, de fato, os são – homens femininos, que não ferem o lado masculino de quem quer que seja. A personificação de Silvero Pereira em Gisele define a vida dupla do personagem que constrói, diante do espectador, o universo sofrido e difícil dos travestis, transexuais e transformistas, com auxílio de poemas e imagens projetadas de atos preconceituosos, incorporando a violência física e assassinatos de integrantes do universo trans.

O cenário, simples o suficiente com vistas a atender as necessidades básicas do monologuista, é de autoria do próprio Silvero Pereira em parceria com Marco Krug, contemplando movimentações no palco tão plausíveis de serem dirigidas quanto o gestual do protagonista, como a penteadeira sobre rodas equipada com luzes de camarim. Quando o milagroso desenho de luz de Lucca Simas não atende a dramaticidade em sua plenitude, spots portáteis satisfazem o desempenho desejado, movimentados pelas mãos de Silvero Pereira. De resto, o palco despojado de sofisticação, hora aparenta ares de cabeça de porco, hora de palco de boate e, até mesmo, do aconchego do lar, onde o desempenho de Silvero Pereira desabrocha como uma linda borboleta ao sair do casulo, para logo ser morta por um Narciso qualquer, que acha feio, o que não é espelho.

A trilha sonora é o esteio do processo de incorporação dos personagens, contemplando temas originais de Rodrigo Apolinário, com base na pesquisa de Silvero Pereira, que elege “Geni” - de Chico Buarque, “Shake It Out” - de Florence and the Machine e “Balada de Gisberta” - de Pedro Ambrunhosa, pela voz de Maria Bethânia, homenageando o transexual brasileiro que sofreu todo o tipo de violência física e verbal por mais de dois dias, antes de ser assassinado pelas “inocentes mãos” de um grupo de indivíduos inimputáveis, com idades entre 12 e 16 anos.

 

“BR – Trans” incomoda e as risadas resultantes das exposições de Gisele são pontuais e têm prazo de validade tão efêmero quanto os momentos de glória experimentados pelos que diminuem seu semelhante com base em diferenças que não têm a menor importância para a definição do status no quesito humanidade.


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