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sábado, 5 de setembro de 2015

Cock – Briga de Galo


O troféu é a indecisão crônica


A difícil arte da decisão é o fio condutor da história de John – o protagonista interpretado com jovialidade e rebeldia, por Felipe Lima – centro de uma disputa entre um homem divertidamente perverso – defendido por Luiz Henrique Nogueira – e uma mulher delicadamente ativa – por Débora Lamm. Tudo pronto para o início da rinha – a platéia em formato de arena acomoda os espectadores que assumem o papel de apostadores de uma briga que transcende o delito da contravenção e peca pela hesitação diante de um caminho bifurcado na trilha por um bom relacionamento.

Em meio ao breu sangrado pela platéia que se faz presente pela penumbra, o “rinhadeiro” é delineado por segmentos de luz projetados no piso e cujo preenchimento se dá tão logo os “rinheiros” se auto lançam no quadrilátero. Responsáveis pela emissão de toda a sorte de fachos de luz, projetores em zênite e nivelados definem um plano superior finito sobre a área de palco visível. A tal sistema de caráter técnico e simbiótico não cabe responsável único, mas uma parceria entre o projeto cenográfico de Flávio Graff e o desenho de luz de Renato Machado, endossando a capacidade de ambos no processo criativo e executivo cênico. Julia Marini assina autoria de um figurino básico, como se projetado após intensa pesquisa sobre biotipo e o perfil psicológico de cada um dos personagens. Os movimentos dos confrontos duplos, triplos e quádriplos dinamizam o jogo de cena, retratando cada avanço, recuo, acirramento e confronto, graças à direção de movimento por Dani Amorim.

O conflitante texto de Mike Bartlett se torna denso sob o processo de tradução de Eduardo Muniz e Ricardo Ventura, deixando claro que o combate não acontece somente como tábua de salvação de um relacionamento a dois, mas de uma disputa em meio a um triângulo amoroso, onde o troféu é a indecisão crônica personificada em John. Inez Viana, com a sua direção existencialmente independente da orientação sexual dos galos em questão, joga no ringue o pai, dramatizado por Hélio Ribeiro, de forma desafiante e vital ao filho, que almeja o grande prêmio - John.

“Cock – Briga de Galo” pode ser somente um passatempo para aqueles que se encontram na arquibancada, como reles torcedores que enxergam a vida pelos olhos dos outros, ou podem se enxergar no ringue e planejarem a briga por aquilo que desejam, mesmo que, para isso, se utilizem de persuasão como forma ilícita e única de se tornarem vencedores frente à inércia do fim da luta. 


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