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domingo, 20 de setembro de 2015

Estamos Indo Embora


Crescei, multiplicai, subjugai, dominai

“Crescei, multiplicai, subjugai, dominai” - ordens expressas de Deus a Adão e Eva, segundo as Sagradas Escrituras em Gênesis. Trata-se de uma bela história, mas sem as perguntas que deveriam ser formuladas pelos convocados futuros progenitores em potencial ao Todo Poderoso – “Porque o homem surgiu nesse planeta? Uma vez nele radicado, como sobreviverá?” As respostas a esse par de questionamentos, até os dias de hoje, são transmitidas, por vias metafóricas, a todos os tementes a Deus - pobres criaturas que não conseguem processar a essência do conteúdo de suas palavras e, muito menos, perceber que, em função de sua fé acometida pela cegueira, muitos povos não conseguem conter o crescimento do número alarmante de seus habitantes.

A intolerância ortodoxa contra os meios contraceptivos com vistas ao controle da natalidade ainda é forte nos dias de hoje, levando um grande número de indivíduos ao sofrimento decorrente dos dogmas impostos pelas instituições religiosas. A esses, que fazem parte da estatística dos sete entre dez que nascem numa nação miserável ou no seio de uma família sem qualquer recurso, restam-lhes apenas o pedido de perdão por parte daqueles que pensam de forma distinta. A verdade dos fatos é que, o planeta encontra-se em estado de alarmante escassez de suas reservas naturais, devido ao aumento da sua população, que se dá em proporção geométrica.

Com base nesse quadro, Luiz Felipe Reis estréia como diretor teatral, com pompa de veterano, através de um projeto ousado e inquietante para quem dele participa ativamente ou, simplesmente, como espectador. Os protagonistas desempenhados por Julia Lund e Márcio Machado alcançam a meta da imparcialidade, num primeiro momento, incorporando dois cientistas: um alarmista e outro apaziguador – diante do estado da arte da vida no planeta em que vivemos – até que, num estágio mais avançado do espetáculo, se formaliza um dialogo entre um homem e uma mulher com visões diferentes sobre um assunto que se confunde entre a gravidez e a doença.

Trata-se de um espetáculo visual – com o indissociável recurso cênico de “back projection” que toma conta do fundo do palco, contemplando toda uma sorte de imagens alusivas às catástrofes que assolam o planeta – imagens que contam uma história em paralelo ao desempenho da dupla de atores, resultando num trabalho que consagra a competência da criação visual e técnica de projeção de Júlio Parente. A direção musical e sonora assinada por Luiz Felipe Reis e Thiago Vivas fomenta a tensão junto ao espectador, misturando-se às imagens e ao texto que se posiciona em riste contra a platéia, ora acusando-a como parcialmente culpada pela destruição, ora delegando-lhe a responsabilidade pela salvação do planeta. O figurino de Antônio Guedes encarcera todo e qualquer movimento natural dos atores, tornando-os, em muitos momentos, figuras futuristas e plasticamente belas aos olhos do espectador. A iluminação de Alessandro Boschini, de tão eficiente, pleiteia nada menos do que o futuro catastrófico e perverso, anunciado pelos protagonistas pelos fachos de luz que lhes são direcionados.

Reis prima pela engenharia desse momento de reflexão sobre o crescimento demográfico e pelas alterações ambientais que se processa natural e inevitavelmente por todo o planeta, que um dia poderá levá-lo a perecer. E pelo simples fato de permanecermos no passado, num presente sem futuro – “Estamos indo embora”.


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