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segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Será que a Gente Influencia o Caetano?


Irradia as frustrações presentes em duas vidas


Mário Bortolotto desenha, com sarcasmo e fidelidade, uma fração da juventude dos nascidos em 1980 que assume a configuração de egocêntricos, preguiçosos e narcisistas, em texto de sua autoria – “Será que a Gente Influencia o Caetano?” Intencionalmente ou não, o dramaturgo retrata esses jovens como os preocupantes adultos da atualidade – imersos em prepotência, acometidos pela falta de iniciativa e confiantes quanto à sua passiva entrega aos seus próprios sonhos.

A direção do espetáculo por Marcello Gonçalves é dinâmica e define uma linha dramática ao longo da apresentação, já que o fracasso se configura como marca registrada dos personagens. No entanto, sugere um comportamento para a dupla comicamente caricata, numa possível forma de amenizar o tom crítico-social do texto. Nesse processo, a direção de movimento de Márcia Vieira assume papel de extrema importância, inserindo uma linguagem quase pantomímica ao gestural de Andrey Lopes e Fábio Guará, no papel dos jovens protagonistas, que fazem com que o constante processo de decadência a que estão sujeitos, se torne o mote para risos e possível patamar de superação de muitos dos presentes na platéia. Contudo, nenhum texto de Bortolotto é o que parece ser e, após o espetáculo, a história contada deixa de ser uma comédia, correndo o risco de se tornar uma constatação da derrocada de membros de um conceito social conhecido como geração Y.

O desenho de luz de Felipe Lourenço segue coerentemente dramático, destacando os personagens e elementos cenográficos cuja disposição remete à desordem estacionária, pelo acúmulo de coisas inservíveis, em meio a um fundo infinito negro – expondo o espectador, de forma quase punitiva, a uma profunda ausência de cor além do palpável, numa possível alusão ao fato de que nem todos sonham colorido.


“Será que a Gente Influencia o Caetano?” irradia as frustrações presentes em duas vidas que, pouco a pouco, tomam formas e contornos, de acordo com cada receptor da mensagem presente nas entrelinhas do texto, carente de obviedade, de Bortolloto. Ao final do espetáculo, o espectador que se permite refletir sobre o tema, corre o risco de se identificar como protagonista no contexto da triste comédia e constatar – a partir da máxima de que sonhar é o combustível da vida – que só lhe resta voltar para casa e dormir. 

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