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sexta-feira, 18 de setembro de 2015

War


Um jogo de estratégia

Vida - um jogo competitivo. Dessa forma, o Circuito Geral encara o espetáculo “War”, onde o vencedor é aquele que subjuga o derrotado, lançando mão de estratégias delineadas pela direção de Diego Molina, que dá conta da dicotomia presente no texto de Renata Mizrahi com grande maestria.

“War” acontece numa noite, quando três casais se encontram para um jogo circunstancial através do qual, ao invés de conquistarem territórios lúdicos, conforme as instruções do tabuleiro, os jogadores, incorporados por Ricardo Gonçalves – André; Natasha Corbelino – Marília; Verônica Reis – Roberta; Fabrício Polido – Gustavo; Camilo Pellegrini – Sergio e Clara Santhana – Laura, transferem o foco de atenção do fogo cruzado para desfazerem alianças, encontrarem culpados, protegerem segredos e formalizar ataques de acordo com as fraquezas e cumprimentos de promessas – dívidas impagáveis, que jamais serão quitadas.

O “mundo” inserido no contexto da cenografia de Lorena Lima fica afastado da cidade, cercado pela natureza, e cujo acesso é dificultado pela distância dos núcleos de conveniências. O interior da casa é despojado, simples e conservador, mobiliado com peças retrô, equipado com vitrola onde são reproduzidos discos de vinil e é considerado pelos jogadores como ambiente “clean”. Diante dos olhares apopléticos dos espectadores, a moradia do casal, figurativamente interpretada como um bunker familiar, pelo Circuiito Geral, vai se desfazendo aos pedaços, como se a cada jogada, todo o pseudo cenário montado pelos donos da casa, como uma dissimulação da instabilidade de suas próprias vidas, fosse bombardeado pelos exércitos de “inimigos”, descortinando a miopia da autoestima de cada um dos participantes. O desenho de luz de Anderson Ratto delimita o território da guerrilha, delineando o cenário de Lima como se fossem as células de uma batalha naval e explicita, através de uma luz difusa, todas as nuances de distúrbios psíquicos e sentimentalismo, definido por sintomas característicos de transtorno obsessivo compulsivo e de bipolaridade. A trilha sonora de Renata Mizrahi, ausente de pieguice, interage a cada jogada e coopera na apreciação da essência humana que, antes mesmo do início do jogo, já se encontrava blindada por todos os envolvidos na lúdica guerra. Patricia Muniz ousa combinar bermuda com camisa social mais gravata, calça saruel com sandálias de couro, e calça xadrez e dupla camisa, além de outras composições e estilos com objetivo único de marcar o seu figurino como lente de aumento da psique de cada personagem.

“War” é um espetáculo elaborado com base em teoria lúdica, como se a platéia estivesse contemplando um jogo de estratégia no qual, o fato de apenas haver um ganhador, não é necessariamente lesivo aos demais participantes - ao contrário da constante batalha da vida real, onde a subida de somente um vencedor ao pódio pode representar danos coletivos irreparáveis.


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