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sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Beatles num Céu de Diamantes


Deleite imaginativo

“Beatles num Céu de Diamantes” é um show musical comandado por onze cantores – dentre os quais, quatro acumulam a função de instrumentistas, responsáveis pela percussão, pelo violoncelo, pelo ukulete, pelos violões e pelo piano – promovendo uma deliciosa releitura de mais de cinquenta sucessos do grupo de Liverpool.

A precisa direção assinada a quatro mãos por Charles Möeller e Claudio Botelho define uma sequência musical contemplando abertura, sete capítulos e finale – contudo, sem compromisso com uma história ou enredo – como se isso devesse ficar por conta das lembranças daqueles que viveram a obra do grupo ou da fértil imaginação das gerações subsequentes que, com o seu conhecimento da língua inglesa, possam montar, cada um, o seu patchwork musical, de acordo com suas experiências de vida.

O Circuito Geral radiografa o show segundo um cenário propositalmente insípido, conjugado ao desenho de luz de Paulo Cesar Medeiros, sombriamente dramático – binômio esse que fomenta a imaginação dos espectadores, fazendo com que se enxerguem nos artistas Cássia Raquel, Estrela Blanco, Felipe Tavolaro, Jonas Hammar, Jules Vandystadt, Lui Coimbra, Marya Bravo, Pedro Sol, Rodrigo Cirne, Rodrigo de Marsillac e Tatih Köhler, cada um a seu modo – como personagens de um espetáculo teatral conduzido por uma trilha sonora personalizada. O figurino de Carol Lobato sugere uma viagem aos anos 60 – sob o efeito de uma droga tão forte quanto “Lucy in the Sky with Diamonds” – durante a qual, o espectador se transporta durante noventa minutos, voltando a si num estalar de dedos.

“Beatles num Céu de Diamantes” guarnece os elementos cênicos para os personagens que se encontram na platéia, com suas malas, guarda-chuvas, papeis picados e bolhas de sabão mesclados com lirismo – puro deleite imaginativo.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Nando Reis – Voz e Violão


O envolvimento simbiótico entre palco e platéia

Às vinte horas da noite de quinta-feira, dia 15 de outubro de 2015, a boca de cena do Theatro Municipal do Rio de Janeiro ainda observa, pacientemente, a chegada de uma seleta platéia que, pouco a pouco, preenche os assentos vazios da glamorosa sala de espetáculos. No palco, ainda sob a penumbra os últimos cuidados de uma zelosa equipe de apoio, observa-se um tapete presumivelmente persa, sobre o qual descansa uma cadeira, cujo design originário da Áustria, nada tem a ver com o de duas outras que as ladeiam, fora do artefato oriental e facilmente encontradas nos mercadões populares de cadeiras para escritórios. Como um reforço à demarcação do eixo da composição, uma mesa de centro Bauhausiana aguarda cumprir o seu propósito como mera superfície de apoio de partituras que jamais serão formalmente lidas. Trincando a simetria bilateral da despretensiosa instalação até então descrita, um Murano acolhe um farto arranjo de flores, popularmente conhecidas como ave do paraíso. Despojadamente posicionados próximos aos assentos, quatro instrumentos de corda aguardam solitariamente seus condutores, até que, ainda lançando seus fachos de luz com baixa intensidade, os refletores anunciam a entrada de Felipe Cambraia e de Walter Vilaça, de “Os Infernais”, dando início a “Voz e Violão”, num prólogo que prepara a platéia para a chegada de Nando Reis que, timidamente se faz presente sob a luz dos projetores – que a partir de então promovem um espetacular show de luz e cores – sem qualquer pretensão de transformar tudo aquilo num fervoroso espetáculo mas que, mesmo involuntariamente, Nando acaba por fazê-lo. 

A aparente desnecessária descrição dos elementos que compõem a cena concebida para o show não tem como objetivo ser crítica, tampouco elogiosa por parte do Circuito Geral, mas somente traçar um paralelo contemplando a coincidente simplicidade com que Nando Reis compõe suas obras, resultando em harmonia contagiante, independente da origem de seus elementos, mas da forma com que os elege e os ordena. Resultado inesperado, a já anunciada alteração no formato de “Voz e Violão” consagra o sucesso do suporte de Cambraia e de Villaça – músicos parceiros na atual circunstância, visando suprir as limitações do dedilhar das cordas pelas mãos de Nando Reis, em função de um acidente doméstico ocorrido em passado recente. Apesar de tal vicissitude, Reis se apresenta como artista romântico, como de fato o é, que degusta poesia e que desenha roupagens extremamente delicadas para músicas, como as que definiu para a abertura do show – “Lamento Realengo” e “As Coisas Tão Mais Lindas”.

Platéia entregue em suas mãos, Nando Reis se doa ao público delirante, anunciando mais uma apresentação de “Voz e Violão” no dia 30 de novembro de 2015 e introduz “O Que Eu Só Vejo em Você”. A essência do show se desvencilha da verve rockeira e provoca na platéia uma euforia incontrolável quando “N” é entoada, exponenciando o envolvimento simbiótico entre palco e platéia. A informalidade presente chega ao ponto de transformar uma súbita microfonia em alvo dos comentários de Reis que, de forma descontraída, mas não menos eficiente, pede que a interferência seja evitada nas canções seguintes – e manda ver “Cegos do Castelo”.

Dando sequência ao setlist com a bela “Prá Quem Não Vem”, Nando Reis declara se dar o direito ao seu momento “Maria Bethânia” e declama “O Mergulhador”, de Vinicius de Moraes. A sequencial quebra protocolar, sob o ponto de vista da formalidade que o espaço impõe, abre espaço para que Reis discorra sobre uma ocorrência entre ele e uma linda jornalista de olhos azuis, provocando a dispersão da entrevista que ele lhe concedia – dessa forma, “Luz dos Olhos” acontece debaixo de aplausos esfuziantes. Reis também divaga sobre as limitações impostas pelo acidente recém sofrido às coisas mais simples de serem realizadas no cotidiano – como amarrar um cadarço de seu All Star ou usar o fio dental para a sua higiene bucal – continuando com “Quem Vai Dizer Tchau?” seguida pela declamação de “O Amor Acaba” – de Paulo Mendes Campos.

Reis também conta sobre a sua primeira música após a sua saída dos Titãs – gravada por Marisa Monte e considerada por ele, como uma música “fofa” – “Diariamente”, recebida pela platéia sob chuva de aplausos. Dando seguimento às prosas sobre músicas que foram gravadas por outros colegas de carreira, Reis canta “Sutilmente” com letra de sua autoria e melodia de Samuel Rosa.

Ao som dos primeiros acordes de “Relicário”, o coral formado pela totalidade da platéia ecoa pelo Theatro Municipal, com todo o respeito à condução de Nando Reis, ao fundo. A partir de então, a contagiante ausência de Cássia Eller se faz presente e traz à baila a sua timidez e a sua falta de paciência com os “trâmites sociais” que a carreira exige – emoção à flor da pele com “All Star” e “Segundo Sol”.

Não fosse a insistência do público pelo consagrado bis, “Voz e Violão” teria findado naquele momento.  Porém, o carisma de Nando Reis, de seu filho Sebastião, de Cambraia, de Villaça os levam de volta ao palco e, como um artista totalmente agradecido ao encontrar o sentido de estar no Theatro Municipal, Nando Reis homenageia Gilberto Gil com “Expresso 2222” e fecha a noite com a dançante “Do Seu Lado”.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Mondo Machete


"Imagens que colam na retina"

Uma espiã em Cuba, ex-namorada de Elvis Presley, foi escrava sexual, traficou, passou por Alcatraz e passeou muito pelas ruas parisienses – um pequeno resumo do tresloucado musical “Mondo Machete”. 

Silvia Gabriela é o nome de batismo da protagonista que tomou para si o amor por sua pombinha – Paloma, que um dia voou para não mais voltar. Embora isso possa nos remeter à um dramalhão lacrimejante, o espetáculo “Mondo Machete” é uma grande diversão, durante o qual, com sua voz e personalidade marcantes, Silvia interpreta sucessos como “My Favorite Things” – do musical Noviça Rebelde; “Bang Bang (My Baby Shot Me Down) – flexionada na versão de Skylar Grey; Back to Black - de Amy Winehouse e de forma “subverSílvia”, desempenha como acrobata, dança bambolê enquanto aperta um cigarrinho “orgânico”, sapateia inspirada em Ginger Rogers e se denomina “Machete” - a partir da sua admiração pela artista.

Em “Mondo Machete”, a veia artística de Silvia pode ser traduzida enquanto passada à limpo – pelo criativo texto de Felipe Miguez; pela mosaica direção de Cesar Augusto; pela afinadíssima direção musical de Fabiano Krieger; no contexto de um cenário tropicalista assinado por Beli Araújo; ornamentada pelo transitório figurino de Marcelo Olinto; pincelada pela – hora espatulada, hora aquarelada – iluminação de Cesar de Ramires que transita entre a dramaticidade e a folia carnavalesca; pelo diversificado desenho de som de Fabiano França; e pelo inspirado e acentuado visagismo de Márcio Mello.

“Mondo Machete” é um espetáculo naturalmente teatral e uma excelente vitrine através da qual Sílvia nos apresenta sua discografia: “Bomb of Love - Música Safada para Corações Românticos”; “Eu Não Sou Nenhuma Santa”; “Extravaganza”; e “Souvenir” – disponibilizando seu CDs e DVDs à venda, subliminar e previamente avisado em meio à platéia, num dos momentos mais irreverentes e hilários desse seu musical.

Valendo-se de suas próprias palavras, ao se referir a eventuais “imagens que colam na retina”, Silvia ratifica a máxima que define que “a última impressão é a que fica”, interpretando “Trapézio” – fechando o espetáculo, ao mesmo tempo em que desempenha suas habilidades circenses no aparelho que deu origem ao nome da música - ciente da possibilidade de um dia falhar, e voar ao encontro das mãos que, da mesma forma, a aplaudirão e das vozes que a ovacionarão e pedirão bis.


quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Sicário – Terra de Ninguém


Um desenvolto e notável suspense

“Sicário - Terra de Ninguém”, abordando a violência que comanda a indústria do narcotráfico na fronteira entre os Estados Unidos da América e o México, se mostra um desenvolto e notável suspense, sob a direção orgânica e mutável de Denis Villeneuve.

Enquanto Josh Brolin e Benicio Del Toro constroem personagens tensos, que dialogam com o espectador através de sua dramaticidade cambaleante em meio à ironia e à falta de ética, Emily Blunt, com a sua policial honesta, é responsável pela transmissão da atmosfera de terror – base de todo o filme.

A fotografia de Roger Deakins ultrapassa o limite da banalização da barbárie estampada nos atos de um ser humano contra seu semelhante e, em muitas tomadas, transmite a familiaridade de cenários e de cenas, se comparadas com os de alguns centros urbanos brasileiros.

“Sicário – Terra de Ninguém” apresenta a rotina do narcotráfico ao comercializar a droga em âmbito mundial – em especial, nos países latino-americanos rendidos ao sistema, sem qualquer possibilidade de expurgo dessa contravenção, a curto ou a médio prazo.

Ponte dos Espiões

Inefável 


A mais recente obra de Steven Spielberg – o thriller de espionagem, “Ponte dos Espiões” – tem como astro maior, Tom Hanks. O longa, baseado em fatos reais, contempla a guerra fria entre os Estados Unidos da América e a Rússia, deflagrada em 1957 e que se estende por um período de quase cinco anos.

Coadjuvando, Mark Rylance desempenha o papel do solitário morador do Brooklin, Rudolf Abel – um espião britânico, identificado como tal, descoberto pelas autoridades americanas, julgado e condenado à pena de prisão perpétua, em alternativa à cadeira elétrica, graças ao advogado James Donovan (Hanks), escalado por um grande escritório particular de advocacia para defendê-lo.

A partir do roteiro forte e conciso, de cunho moral e político, Spielberg, habilmente cria uma composição que, mesmo diante dos absurdos da guerra, consegue tirar emoção de quem assiste a película.

“Ponte dos Espiões” torna-se inefável – talvez pelo fato de que, hoje em dia, o mundo ambivalente escuro e frio localizado do outro lado da ponte, com suas fronteiras ideológicas, que mais representam um estopim para conflitos violentos, não conta com a consciência civil do admirável personagem de Hanks. 


sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Os 33


Muito além de uma simples história baseada em fatos reais

“Os 33” – longa metragem baseado no livro do jornalista Jonathan Franklin – retrata dramáticos fatos reais sobre trinta e três mineradores que permaneceram soterrados a 688 metros abaixo do nível do mar, durante sessenta e nove dias na mina de São José, na cidade de Caiapó, no Chile, em 2010, numa luta sobre-humana pela sobrevivência.

Com base no argumento descrito, Patrícia Riggens trilha sua direção com capacidade ímpar de emocionar o espectador, que se permitirá refletir sobre o quanto somos fortes quando sobreviver passa a não ser opção, mas o sentido de toda uma vida. A fotografia de Checo Varese, que tira partido da paisagem e da cultura chilena e da fatalidade subliminarmente prenunciada, triangula por entre o encanto pela cultura, a angústia pela tragédia e a ânsia pela esperança. Antônio Bandera, Juliette Binoche e Rodrigo Santoro, com toda a segurança que a maturidade profissional lhes permitem, se diluem em meio aos demais personagens e atuam como se estrelas não fossem, agigantando a participação de todo o elenco.

“Os 33” vai muito além de uma simples história baseada em fatos reais, resgatando o significado de individualidade e de família, sem compromisso para com o núcleo familiar biológico, mas para com aquele que a vida escolhe para cada um de nós, durante toda uma jornada por asfixiantes e escuras minas, com escadas de emergência incompletas, saídas bloqueadas e suprimentos necessários insuficientes para uma fácil sobrevivência.


terça-feira, 13 de outubro de 2015

Nordestinos


Tem cheiro de carícia, tem gosto de rapadura, tem jeito de cabra da peste e encanto de moça faceira – um espetáculo que conta, em verso e em prosa, a história corrente em nossas veias.

Sentimentos genuínos e brasilidade regional configuram a essência do argumento do espetáculo “Nordestinos”, assinado pelo gravataense Alexandre Lino e dirigido, com garra e criatividade pelo igualmente pernambucano – o recifense Tuca Andrada.

 

“Nordestinos” enuncia a força da dramaturgia de Walter Daguerre estampada nas cenas que apresentam Ida, Josivânio, Zeca, Tuinho, Erlene, Joselito, Alba, Telson, Ribamar, Jamilton, Rosemeri e Idalenajara – personagens de uma vida real e severina, brotados de uma seleta coletânea de cartas escritas por conterrâneos regionais – dramatizados por Alexandre Lino, Erlene Melo, Paulo Roque e Rose Germano, com toda a força que o conhecimento de causa lhes proporcionou ao longo de suas trajetórias de vida.

 

O zelo para com a produção de “Nordestinos”, mais do que um simples mimo para o público apaixonado pelas artes cênicas, se faz presente desde os primeiros minutos que antecedem o início do espetáculo, com a introdução de um teatro de mamulengos – que interage com os personagens em carne e osso, ao longo de toda a apresentação – como forma de acolher o espectador e inseri-lo na atmosfera do cotidiano agreste concebida para o espetáculo. O projeto cenográfico de Karlla de Luca define a área de encenação no piso do palco e se projeta verticalmente como fundo finito através de uma superfície têxtil alusiva ao couro cru e curtido, típico das vestimentas dos vaqueiros nordestinos. Uma instalação central composta por planos opacos e translúcidos assumem funções diversas – de anteparo visual para a manipulação dos fantoches; de tela de projeção de sombras que remetem às inconfundíveis silhuetas dos desenhos da literatura de cordel; e de simples bastidores. A ornamentação, criteriosamente concebida em alusão à cultura gráfica nordestina, é graciosamente acompanhada da estamparia típica das chitas, como também presente nas vestes femininas, em composição com as rendas, os crochés, os bordados, e os tecidos em algodão, segundo o preciso e precioso figurino, igualmente assinado por de Luca. A direção musical de Alexandre Elias dramatiza alguns dos relatos apresentados com partituras de Nação Zumbi – “A Cidade”, de Michael Jackson – versão bem humorada da música “Ben” e de Geraldo Azevedo – “Dia Branco”, em franca composição com o desenho de luz de Renato Machado que, de mãos dadas, definem a intensidade e o cromatismo da incidência lumínica sol do agreste, em contraste com a luminosidade ofuscante presente nos corações sofridos de tantos retirantes, simbolizados tanto nos sonhos esperançosos quanto nas amarguras relatados diretamente da origem.

 

“Nordestinos” tem cheiro de carícia, tem gosto de rapadura, tem jeito de cabra da peste e encanto de moça faceira – um espetáculo que conta, em verso e em prosa, a história corrente em nossas veias – quer queiram, quer não – seduzindo o imaginário do espectador em prol da sua consciência étnica e da prática sócio-cidadã cotidiana.

 

Fotos - Circuito Geral

domingo, 11 de outubro de 2015

As lágrimas Quentes De Amor Que Só Meu Secador Sabe Enxugar

Eminentemente feminino


O mistério que envolve as crises do mundo feminino não é fascinante, muito menos divino; não encanta, mas carece ser ouvido. Embora os sentimentos contidos nas crises amorosas femininas possam ser amplamente identificados, esses sentimentos seguem um padrão não muito diversificado, conforme expostos ao longo do espetáculo “As lágrimas Quentes De Amor Que Só Meu Secador Sabe Enxugar”.

A partir dessa condição, o texto assinado por Pedro Granato delineia o psicológico de Elvira, que conquista, ao longo do espetáculo, o que a grande maioria das mulheres deseja de um homem – que sejam ouvidas. Ocupando a cadeira da direção do espetáculo, com todo charme e consistência, Granato introduz a interlocutora em seu projeto cenográfico, onde implanta a semente da carência por uma correspondência amorosa, sob a estética visual que não comporta a excentricidade masculina. Da mesma forma, sua trilha sonora transita das trevas à luz como por um passe de mágica, que só Ana Cañas, Bárbara Eugênia, Billy Idol, Irene Cara, Letuce e Tulipa Ruiz são capazes de realizar elegantemente, sem recorrer ao dramalhão estampado na figura de uma mulher abandonada por um homem. O desenho de luz de Karine Spuri lança mão da intensidade dramática dos desabafos de Elvira ao usar o secador de cabelo para enxugar suas lágrimas – símbolo que resume o espetáculo segundo seu ciclo evolutivo, diante da incapacidade da protagonista de manter um relacionamento e de suas reiterações emotivas.

“As lágrimas Quentes De Amor Que Só Meu Secador Sabe Enxugar” é um espetáculo eminentemente feminino e conta com o descolado desempenho de Paula Cohen no papel da despedaçada, ao se tornar parceira indissociável do texto subjetivamente sedutor e do figurino, desenhado pela própria monologuista, que nos mostra a pluralidade das aparências dos personagens com os quais interage com sucesso.

Mas se por um lado a história de Elvira orbita em torno dos impactos negativos provenientes do seu relacionamento com o mundo masculino, eventuais e ainda remanescentes lágrimas quentes de amor drenadas de seus olhos por suas reflexões, por ironia do destino, por opção própria, e pela força do título do espetáculo, serão sempre secas pelo dispositivo criado por Alexandre Godefoy – o homem que inventou o secador de cabelos.

Fotos - Circuito Geral

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Quero Ser Ziraldo


As cores diferentes sempre se encaixarão no arco-íris


Seis crianças amigas – cem por cento conectadas à internet, usuárias de smartphones e fanáticas por brinquedinhos geeks que só se validam com a parceria de uma banda larga ou de um sistema 4G que se prezem – são as protagonistas do descompromissado texto de Luiz Estellita Lins, que coloca em pauta a fragilidade do mundo infanto-juvenil desprovido de tal tecnologia, tão inserida na rotina diária de todos.

Mas como, de fato, essas crianças se divertem? – pergunta que se confunde com outros questionamentos do imaginário infantil com intensidade inimaginável – “O que eu quero ser quando crescer?”

A partir dessa premissa, Fernando Philbert lança a sua direção concreta e visionária no desabrochar de alguns personagens das obras de Ziraldo – Zélen, o menino da lua; Flicts; Super-Mãe; Super Vó; Astronauta; e Rosa, dentre outros. A ambientação para o desenrolar da história é ludicamente definida por Natália Lana, cujo projeto cenográfico é alusivo ao quintal de uma casinha ou, até mesmo, a uma pracinha com balanço, na qual os amigos se reúnem para brincar – um lugar mágico, onde a imaginação é desprovida de limites. O figurino de Alessandra Padilha contempla as cores e a leveza dos personagens, sem que com isso, apresente um trabalho rotulado pelo clichê infantil. O desenho de luz assinado por Vilmar Olos produz o “faz de conta” no palco e o transporta para a mente das crianças e de seus acompanhantes, que viajam com os seis amigos e vivenciam toda a história a cada facho de luz, com muita empolgação, como se aquele mundo fosse formado somente por luz e música, embalada pela contagiante e adequadamente pueril trilha sonora original, de autoria de Mart'nália e Maíra Freitas.


“Quero Ser Ziraldo” é uma grande brincadeira onde todos se divertem e saem do teatro com pelo menos uma lição: as cores diferentes sempre se encaixarão no arco-íris, pois, o respeito ao próximo é o mínimo que se pode esperar das pessoas que enxergam o mundo somente em preto e branco.

“Quero Ser Ziraldo” é uma grande brincadeira onde todos se divertem e saem do teatro com pelo menos uma lição: as cores diferentes sempre se encaixarão no arco-íris, pois, o respeito ao próximo é o mínimo que se pode esperar das pessoas que enxergam o mundo somente em preto e branco. 


domingo, 4 de outubro de 2015

As Meninas


Torpor dos pensamentos conturbados

O espetáculo “As Meninas” - uma adaptação do romance homônimo de Lygia Fagundes Telles, por Maria Adelaide Amaral, transporta os espectadores para o ano de 1973 - auge da ditadura militar - e conta a história de três amigas, dotadas de personalidades contrastantes, e que moram num pensionato dirigido por freiras, em São Paulo.

A expertise de Yara Novaes, no comando da direção do espetáculo, assume os diálogos e os desabafos contidos no texto como aliados fios condutores do drama, e confere às atrizes protagonistas, o compromisso na consolidação da sintonia entre palco e platéia, enquanto assimilação das figurações fortemente envoltas pelos dramas pessoais e pelo contexto do roteiro no tempo e no espaço – Clarissa Rockenbach, no papel da aristocrática e romântica Lorena, que consegue fluir, de maneira intensa, no complexo de Cinderela no qual a personagem encontra-se imersa; Luciana Brites,  interpretando Ana Clara, a bela modelo entregue às drogas; e Silvia Lourenço que personifica Lia, a idealista e guerrilheira que, em busca de liberdade, insere, voluntariamente, a rotina de torturas, greves e desencantos em sua vida. Ciente da interdependência entre todos os instrumentistas que compõem a orquestra dramatúrgica no palco, Novaes valoriza a participação dos personagens coadjuvantes, tornando-os a base fluídica do psicológico das meninas, acentuando a sua percepção pelo espectador – Max, o amante de Ana Clara, interpretado por Daniel Alvim – que também personifica o colega de faculdade de Lorena – o traficante Guga; Irmã Priscila, a freira que se faz perplexa diante da evolução dos costumes, vivida por Sandra Pêra; e a inominada “mãezinha” de Lorena, interpretada por Clarissa Abunjamra.

A percepção por parte do espectador é demandada pela atual montagem de “As Meninas” ao longo de todo o espetáculo – tempo exíguo para assimilação de tamanha carga simbólica subliminar presente – a começar pelo cenário concebido por André Cortez, que sugere dois mundos distintos e contrastantes. O primeiro, definido por uma superfície poligonal na cor branca, alusiva à aparente segurança do pensionato - localizada no centro e ao nível do piso do palco e humanizada por peças de mobiliário de quarto e por cadeiras igualmente alvas. Ao seu redor, a ausência de luz lançando seu véu sobre outras tantas peças de mobiliário negras, dispostas sem definição lógica, chamam a atenção para um número expressivo de cadeiras de estilos diversos. Em meio a todo o contrate entre claros e escuros, um aparelho telefônico na cor preta, inserido na porção branca do cenário, sugere ser o único elo entre esse território, pressuposto refúgio da paz, e o entorno negro, como um simbólico “lado de fora”, tomado pela ditadura. As vestes definidas pelo figurino de André Cortez e Fábio Namatame expõem, de forma nua e crua, o torpor dos pensamentos conturbados dos personagens, com contemporaneidade que não compromete a década definida pelo texto, cuja dramaticidade e melancolia são exacerbadas pelo desenho de luz de Juliana Santos.

Lançado contra o sombrio e opressor fundo infinito, um piano é dedilhado por Alvim, ao mesmo tempo que empresta a sua voz à interpretação da trilha sonora de Dr Morris, que promove uma sinergia entre o mundo dos sonhos das personagens e as frustrações do mundo real, culminando no surpreendente “grand finale” pelas palavras Bob Dyllan que definem o comportamento de cada uma daquelas três menininhas diante da vida, como se em – “Just Like a Woman”.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Vai que Cola - O Filme


Pode não agradar o espectador dotado de baixa estima

O sitcom “Vai que Cola” ganha as telas do cinema, a partir do formato “o filme” e que permite, ao espectador, compreensão total do roteiro, mesmo que não acompanhe o programa exibido pela TV por assinatura.

Pegando pesado no estereótipo, a direção de César Rodrigues qualifica o filme como uma comédia seletiva, que pode não agradar o espectador dotado de baixa estima, que possa vir a se identificar com algum personagem e que seja incapaz de rir de si mesmo – dessa forma, “Vai que Cola”, não vai colar.

Consciente de seu livre arbítrio, o espectador optará por assistir um festival de piadas deselegantes, provocativas e socialmente segregadoras. A história gira em torno de Valdomiro Lacerda – interpretado por Paulo Gustavo – que, após participar de uma falcatrua na empresa da qual era sócio, abandona temporariamente a ostentação do bairro do Leblon e vai morar numa pensão no Méier, a qual, por total falta de manutenção e por outros motivos adversos, é interditada pela Defesa Civil, fazendo com que Lacerda e os demais moradores da pensão se abriguem na sua cobertura do Leblon.

Composto por um elenco repleto de estrelas do humor – Cacau Protásio, Fernando Caruso, Marcus Majella e Samantha Schmutz contracenam, descontraidamente, com Catarina Abdala, Emilano D’Avilla e Fiorella Mattheis, permitindo que Paulo Gustavo transite confortavelmente na trama com seu personagem preconceituoso e egocentricamente inflado.

O humor de “Vai que Cola” é para ser amado ou odiado – sem meio termo. O motivo de tamanho sucesso do sitcom em TV por assinatura pode ser imputado à facilidade e a sinceridade que o filme transmite para o público.