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domingo, 11 de outubro de 2015

As lágrimas Quentes De Amor Que Só Meu Secador Sabe Enxugar

Eminentemente feminino


O mistério que envolve as crises do mundo feminino não é fascinante, muito menos divino; não encanta, mas carece ser ouvido. Embora os sentimentos contidos nas crises amorosas femininas possam ser amplamente identificados, esses sentimentos seguem um padrão não muito diversificado, conforme expostos ao longo do espetáculo “As lágrimas Quentes De Amor Que Só Meu Secador Sabe Enxugar”.

A partir dessa condição, o texto assinado por Pedro Granato delineia o psicológico de Elvira, que conquista, ao longo do espetáculo, o que a grande maioria das mulheres deseja de um homem – que sejam ouvidas. Ocupando a cadeira da direção do espetáculo, com todo charme e consistência, Granato introduz a interlocutora em seu projeto cenográfico, onde implanta a semente da carência por uma correspondência amorosa, sob a estética visual que não comporta a excentricidade masculina. Da mesma forma, sua trilha sonora transita das trevas à luz como por um passe de mágica, que só Ana Cañas, Bárbara Eugênia, Billy Idol, Irene Cara, Letuce e Tulipa Ruiz são capazes de realizar elegantemente, sem recorrer ao dramalhão estampado na figura de uma mulher abandonada por um homem. O desenho de luz de Karine Spuri lança mão da intensidade dramática dos desabafos de Elvira ao usar o secador de cabelo para enxugar suas lágrimas – símbolo que resume o espetáculo segundo seu ciclo evolutivo, diante da incapacidade da protagonista de manter um relacionamento e de suas reiterações emotivas.

“As lágrimas Quentes De Amor Que Só Meu Secador Sabe Enxugar” é um espetáculo eminentemente feminino e conta com o descolado desempenho de Paula Cohen no papel da despedaçada, ao se tornar parceira indissociável do texto subjetivamente sedutor e do figurino, desenhado pela própria monologuista, que nos mostra a pluralidade das aparências dos personagens com os quais interage com sucesso.

Mas se por um lado a história de Elvira orbita em torno dos impactos negativos provenientes do seu relacionamento com o mundo masculino, eventuais e ainda remanescentes lágrimas quentes de amor drenadas de seus olhos por suas reflexões, por ironia do destino, por opção própria, e pela força do título do espetáculo, serão sempre secas pelo dispositivo criado por Alexandre Godefoy – o homem que inventou o secador de cabelos.

Fotos - Circuito Geral

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