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domingo, 4 de outubro de 2015

As Meninas


Torpor dos pensamentos conturbados

O espetáculo “As Meninas” - uma adaptação do romance homônimo de Lygia Fagundes Telles, por Maria Adelaide Amaral, transporta os espectadores para o ano de 1973 - auge da ditadura militar - e conta a história de três amigas, dotadas de personalidades contrastantes, e que moram num pensionato dirigido por freiras, em São Paulo.

A expertise de Yara Novaes, no comando da direção do espetáculo, assume os diálogos e os desabafos contidos no texto como aliados fios condutores do drama, e confere às atrizes protagonistas, o compromisso na consolidação da sintonia entre palco e platéia, enquanto assimilação das figurações fortemente envoltas pelos dramas pessoais e pelo contexto do roteiro no tempo e no espaço – Clarissa Rockenbach, no papel da aristocrática e romântica Lorena, que consegue fluir, de maneira intensa, no complexo de Cinderela no qual a personagem encontra-se imersa; Luciana Brites,  interpretando Ana Clara, a bela modelo entregue às drogas; e Silvia Lourenço que personifica Lia, a idealista e guerrilheira que, em busca de liberdade, insere, voluntariamente, a rotina de torturas, greves e desencantos em sua vida. Ciente da interdependência entre todos os instrumentistas que compõem a orquestra dramatúrgica no palco, Novaes valoriza a participação dos personagens coadjuvantes, tornando-os a base fluídica do psicológico das meninas, acentuando a sua percepção pelo espectador – Max, o amante de Ana Clara, interpretado por Daniel Alvim – que também personifica o colega de faculdade de Lorena – o traficante Guga; Irmã Priscila, a freira que se faz perplexa diante da evolução dos costumes, vivida por Sandra Pêra; e a inominada “mãezinha” de Lorena, interpretada por Clarissa Abunjamra.

A percepção por parte do espectador é demandada pela atual montagem de “As Meninas” ao longo de todo o espetáculo – tempo exíguo para assimilação de tamanha carga simbólica subliminar presente – a começar pelo cenário concebido por André Cortez, que sugere dois mundos distintos e contrastantes. O primeiro, definido por uma superfície poligonal na cor branca, alusiva à aparente segurança do pensionato - localizada no centro e ao nível do piso do palco e humanizada por peças de mobiliário de quarto e por cadeiras igualmente alvas. Ao seu redor, a ausência de luz lançando seu véu sobre outras tantas peças de mobiliário negras, dispostas sem definição lógica, chamam a atenção para um número expressivo de cadeiras de estilos diversos. Em meio a todo o contrate entre claros e escuros, um aparelho telefônico na cor preta, inserido na porção branca do cenário, sugere ser o único elo entre esse território, pressuposto refúgio da paz, e o entorno negro, como um simbólico “lado de fora”, tomado pela ditadura. As vestes definidas pelo figurino de André Cortez e Fábio Namatame expõem, de forma nua e crua, o torpor dos pensamentos conturbados dos personagens, com contemporaneidade que não compromete a década definida pelo texto, cuja dramaticidade e melancolia são exacerbadas pelo desenho de luz de Juliana Santos.

Lançado contra o sombrio e opressor fundo infinito, um piano é dedilhado por Alvim, ao mesmo tempo que empresta a sua voz à interpretação da trilha sonora de Dr Morris, que promove uma sinergia entre o mundo dos sonhos das personagens e as frustrações do mundo real, culminando no surpreendente “grand finale” pelas palavras Bob Dyllan que definem o comportamento de cada uma daquelas três menininhas diante da vida, como se em – “Just Like a Woman”.

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