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quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Nando Reis – Voz e Violão


O envolvimento simbiótico entre palco e platéia

Às vinte horas da noite de quinta-feira, dia 15 de outubro de 2015, a boca de cena do Theatro Municipal do Rio de Janeiro ainda observa, pacientemente, a chegada de uma seleta platéia que, pouco a pouco, preenche os assentos vazios da glamorosa sala de espetáculos. No palco, ainda sob a penumbra os últimos cuidados de uma zelosa equipe de apoio, observa-se um tapete presumivelmente persa, sobre o qual descansa uma cadeira, cujo design originário da Áustria, nada tem a ver com o de duas outras que as ladeiam, fora do artefato oriental e facilmente encontradas nos mercadões populares de cadeiras para escritórios. Como um reforço à demarcação do eixo da composição, uma mesa de centro Bauhausiana aguarda cumprir o seu propósito como mera superfície de apoio de partituras que jamais serão formalmente lidas. Trincando a simetria bilateral da despretensiosa instalação até então descrita, um Murano acolhe um farto arranjo de flores, popularmente conhecidas como ave do paraíso. Despojadamente posicionados próximos aos assentos, quatro instrumentos de corda aguardam solitariamente seus condutores, até que, ainda lançando seus fachos de luz com baixa intensidade, os refletores anunciam a entrada de Felipe Cambraia e de Walter Vilaça, de “Os Infernais”, dando início a “Voz e Violão”, num prólogo que prepara a platéia para a chegada de Nando Reis que, timidamente se faz presente sob a luz dos projetores – que a partir de então promovem um espetacular show de luz e cores – sem qualquer pretensão de transformar tudo aquilo num fervoroso espetáculo mas que, mesmo involuntariamente, Nando acaba por fazê-lo. 

A aparente desnecessária descrição dos elementos que compõem a cena concebida para o show não tem como objetivo ser crítica, tampouco elogiosa por parte do Circuito Geral, mas somente traçar um paralelo contemplando a coincidente simplicidade com que Nando Reis compõe suas obras, resultando em harmonia contagiante, independente da origem de seus elementos, mas da forma com que os elege e os ordena. Resultado inesperado, a já anunciada alteração no formato de “Voz e Violão” consagra o sucesso do suporte de Cambraia e de Villaça – músicos parceiros na atual circunstância, visando suprir as limitações do dedilhar das cordas pelas mãos de Nando Reis, em função de um acidente doméstico ocorrido em passado recente. Apesar de tal vicissitude, Reis se apresenta como artista romântico, como de fato o é, que degusta poesia e que desenha roupagens extremamente delicadas para músicas, como as que definiu para a abertura do show – “Lamento Realengo” e “As Coisas Tão Mais Lindas”.

Platéia entregue em suas mãos, Nando Reis se doa ao público delirante, anunciando mais uma apresentação de “Voz e Violão” no dia 30 de novembro de 2015 e introduz “O Que Eu Só Vejo em Você”. A essência do show se desvencilha da verve rockeira e provoca na platéia uma euforia incontrolável quando “N” é entoada, exponenciando o envolvimento simbiótico entre palco e platéia. A informalidade presente chega ao ponto de transformar uma súbita microfonia em alvo dos comentários de Reis que, de forma descontraída, mas não menos eficiente, pede que a interferência seja evitada nas canções seguintes – e manda ver “Cegos do Castelo”.

Dando sequência ao setlist com a bela “Prá Quem Não Vem”, Nando Reis declara se dar o direito ao seu momento “Maria Bethânia” e declama “O Mergulhador”, de Vinicius de Moraes. A sequencial quebra protocolar, sob o ponto de vista da formalidade que o espaço impõe, abre espaço para que Reis discorra sobre uma ocorrência entre ele e uma linda jornalista de olhos azuis, provocando a dispersão da entrevista que ele lhe concedia – dessa forma, “Luz dos Olhos” acontece debaixo de aplausos esfuziantes. Reis também divaga sobre as limitações impostas pelo acidente recém sofrido às coisas mais simples de serem realizadas no cotidiano – como amarrar um cadarço de seu All Star ou usar o fio dental para a sua higiene bucal – continuando com “Quem Vai Dizer Tchau?” seguida pela declamação de “O Amor Acaba” – de Paulo Mendes Campos.

Reis também conta sobre a sua primeira música após a sua saída dos Titãs – gravada por Marisa Monte e considerada por ele, como uma música “fofa” – “Diariamente”, recebida pela platéia sob chuva de aplausos. Dando seguimento às prosas sobre músicas que foram gravadas por outros colegas de carreira, Reis canta “Sutilmente” com letra de sua autoria e melodia de Samuel Rosa.

Ao som dos primeiros acordes de “Relicário”, o coral formado pela totalidade da platéia ecoa pelo Theatro Municipal, com todo o respeito à condução de Nando Reis, ao fundo. A partir de então, a contagiante ausência de Cássia Eller se faz presente e traz à baila a sua timidez e a sua falta de paciência com os “trâmites sociais” que a carreira exige – emoção à flor da pele com “All Star” e “Segundo Sol”.

Não fosse a insistência do público pelo consagrado bis, “Voz e Violão” teria findado naquele momento.  Porém, o carisma de Nando Reis, de seu filho Sebastião, de Cambraia, de Villaça os levam de volta ao palco e, como um artista totalmente agradecido ao encontrar o sentido de estar no Theatro Municipal, Nando Reis homenageia Gilberto Gil com “Expresso 2222” e fecha a noite com a dançante “Do Seu Lado”.

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