Counter

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Nordestinos


Tem cheiro de carícia, tem gosto de rapadura, tem jeito de cabra da peste e encanto de moça faceira – um espetáculo que conta, em verso e em prosa, a história corrente em nossas veias.

Sentimentos genuínos e brasilidade regional configuram a essência do argumento do espetáculo “Nordestinos”, assinado pelo gravataense Alexandre Lino e dirigido, com garra e criatividade pelo igualmente pernambucano – o recifense Tuca Andrada.

 

“Nordestinos” enuncia a força da dramaturgia de Walter Daguerre estampada nas cenas que apresentam Ida, Josivânio, Zeca, Tuinho, Erlene, Joselito, Alba, Telson, Ribamar, Jamilton, Rosemeri e Idalenajara – personagens de uma vida real e severina, brotados de uma seleta coletânea de cartas escritas por conterrâneos regionais – dramatizados por Alexandre Lino, Erlene Melo, Paulo Roque e Rose Germano, com toda a força que o conhecimento de causa lhes proporcionou ao longo de suas trajetórias de vida.

 

O zelo para com a produção de “Nordestinos”, mais do que um simples mimo para o público apaixonado pelas artes cênicas, se faz presente desde os primeiros minutos que antecedem o início do espetáculo, com a introdução de um teatro de mamulengos – que interage com os personagens em carne e osso, ao longo de toda a apresentação – como forma de acolher o espectador e inseri-lo na atmosfera do cotidiano agreste concebida para o espetáculo. O projeto cenográfico de Karlla de Luca define a área de encenação no piso do palco e se projeta verticalmente como fundo finito através de uma superfície têxtil alusiva ao couro cru e curtido, típico das vestimentas dos vaqueiros nordestinos. Uma instalação central composta por planos opacos e translúcidos assumem funções diversas – de anteparo visual para a manipulação dos fantoches; de tela de projeção de sombras que remetem às inconfundíveis silhuetas dos desenhos da literatura de cordel; e de simples bastidores. A ornamentação, criteriosamente concebida em alusão à cultura gráfica nordestina, é graciosamente acompanhada da estamparia típica das chitas, como também presente nas vestes femininas, em composição com as rendas, os crochés, os bordados, e os tecidos em algodão, segundo o preciso e precioso figurino, igualmente assinado por de Luca. A direção musical de Alexandre Elias dramatiza alguns dos relatos apresentados com partituras de Nação Zumbi – “A Cidade”, de Michael Jackson – versão bem humorada da música “Ben” e de Geraldo Azevedo – “Dia Branco”, em franca composição com o desenho de luz de Renato Machado que, de mãos dadas, definem a intensidade e o cromatismo da incidência lumínica sol do agreste, em contraste com a luminosidade ofuscante presente nos corações sofridos de tantos retirantes, simbolizados tanto nos sonhos esperançosos quanto nas amarguras relatados diretamente da origem.

 

“Nordestinos” tem cheiro de carícia, tem gosto de rapadura, tem jeito de cabra da peste e encanto de moça faceira – um espetáculo que conta, em verso e em prosa, a história corrente em nossas veias – quer queiram, quer não – seduzindo o imaginário do espectador em prol da sua consciência étnica e da prática sócio-cidadã cotidiana.

 

Fotos - Circuito Geral

Nenhum comentário:

Postar um comentário