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domingo, 29 de novembro de 2015

Ricardo III Está Cancelada ou Cenas da Vida de Meyerhold


"Como nossos Pais"


Os alunos formandos do segundo semestre de 2015 da Casa de Artes de Laranjeiras - CAL apresentam, sob a direção de  Bruce Gomlevsky,  “Ricardo III Está Cancelada ou Cenas da Vida de Meyerhold”, cujo texto original é de autoria de Matei Visniec.

Tão logo dá-se início ao espetáculo, o espectador se depara a complexidade de uma produção teatral inserida no contexto do próprio roteiro, com o totalitarismo do poder e com um labirinto emocional transfigurado em um campo de batalha disposto em cena, decorrente de um elaborado exercício dramatúrgico para a montagem de Ricardo III, concebido em uma época na qual a autocensura era o nosso politicamente correto de hoje.

A trilha sonora, igualmente assinada por Gomlevsky, transita entre a lavagem cerebral que alguns personagens são submetidos até a truculência que bate com força, a ponto de subjugar a sensibilidade do espectador. O figurino de Carol Lobato e Tiago Ribeiro remete aos anos de chumbo e, ao mesmo tempo, a uma carnificina pós moderna, de forma tão dramática quanto o desenho de luz de Elisa Tandeta, aliando a preciosidade de uma história de Shakespeare à censura política da vida de Meyerhold, desbotando as cenas, como se fossem negativos de uma já aposentada câmera fotográfica. O projeto cenográfico de Pati Faedo prima pela sua eficiência e simplicidade delineada pelas luzes de Tandeta, como croquis rascunhados quando da concepção de sua estrutura tubular, juntamente com outros elementos que remetem a uma oficina de teatro, cuja secura é quebrada pelo vermelho dos elementos que dão acesso ao poder, custe o sangue que custar.


Em um dado momento, a recém formada trupe se coloca no caminho da liberdade suprema, ao dedicar toda uma cena entoando “Como nossos Pais” – de Belchior, mesmo ciente do risco de se tornar enfadonha ou um simples apêndice sem nada a acrescentar à mística de uma obra dentro de outra obra, recheada de simbolismos, enaltecendo a inocência da morte e se prevalecendo das maldades da vida.



quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Kiss me, Kate – O Beijo da Megera


"Um tapinha não dói"


Casal de artistas divorciados volta a dividir o palco, estrelando o musical baseado em “A Megera Domada” – mote que estrutura o jogo cênico que satiriza a obra Shakespeareana, publicada no final do século XVI. A partir de um dos mais bem sucedidos textos do casal de escritores – Sam e Bella Speawack, datado de 1948, a brasileiríssima atual versão de "Kiss me, Kate - o Beijo da Megera" e respectiva supervisão musical de Claudio Botelho não teriam conquistado melhores resultados não fosse a direção do espetáculo, sob a batuta de Charles Möeller. Musicalizado com cifras e letras de Cole Poter, a produção de Möeller & Botelho se mantém fiel à essência da obra dos Speawacks enquanto reivindica a ideologia do crescente movimento feminista do século XX, sem, contudo, se desvirtuar do roteiro original renascentista, no qual se mostram inabaláveis os deveres do homem como dominar e da mulher, como sua submissa.
Estrelando, a notória Alessandra Verney represa toda a fúria de suas personagens, incorporando a atriz Lilli Vanessi – a ex-mulher do diretor do espetáculo, e Catarina – carinhosamente apelidada por Kate na versão dos Spewacks – a megera de Shakespeare, que devasta a placidez do palco como um furacão, provocando, na platéia, intensas ondas de risadas durantes seus impulsivos ataques de fúria. Co-estrelando, José Mayer se entrega aos personagens Fred Graham – o ex-marido de Lilli e diretor do espetáculo, e Petruchio – o golpista do baú renascentista, com muito estilo e com a masculinidade imposta pelo personagem. A dupla Chico Caruso e Will Anderson se destaca como os gangsters que cobram de Fred uma dívida de jogo, incorporando os personagens de forma tão significativa, muitas vezes caricata, como dois bobos da corte, passando a impressão de estarem encenando uma terceira história no espetáculo.
Marcelo Castro acumula a regência e a adaptação dos arranjos musicais com a qualidade peculiar à sua expertise multidisciplinar enquanto profissional da música, fazendo da trilha sonora, o coração do espetáculo aliado à indissociável coreografia de Alonso Barros que, por sua vez, assume configurações distintas entre os bastidores de “Kiss me, Kate!” e os de “A Megera Domada”, contrapondo a realidade e a fantasia. O cenário de Rogério Falcão – requintado em detalhes pictóricos, mais convincente nas cenas que se passam no século XX do que nas do século XVI – é beneficiado pelo eficiente desenho de luz de Paulo Cesar Medeiros que além de promover uma eficiente tridimensionalidade virtual em função do contraste entre claros e escuros, é um dos responsáveis pelo brilho dos números musicais coreografados por Alonso Barros e trabalhado de forma centrada e madura por seu assistente, Alan Rezende. O figurino é composto por um vasto e riquíssimo guarda-roupas assinado por Carol Lobato, cujo impacto no palco é compartilhado com visagismo de Beto Carramanhos – por sua vez frenético e, até mesmo, sensual.
“Kiss me, Kate – O Beijo da Megera” pode ser considerado misógino para muitos, pelo simples fato de retratar a submissão da mulher ao homem, tal e qual fora concebido em meados do século XX e que, infelizmente, o poderia sê-lo nos dias atuais, a despeito das crescentes conquistas das mulheres pela igualdade de direitos ao longo dos anos. O que mais impacta na versão dos Speawacks é o fato do tema despertar indignação dentre os espectadores como se a história de Lilli e Fred não pudesse se manter impregnada pela submissão feminina e devesse reverter a condição machista presente nas vidas dos personagens – condição essa que inspirara Shakespeare ao conceber a história de Catarina e Petruchio.

Decerto, a versão brasileira de Möeller & Botelho – que dispensa louvores diante da sua consagrada qualidade na produção de Teatro Musical no Brasil desde a década de 1990 – não tem qualquer interesse em subverter o conteúdo da obra original dos Speawacks, mas permear a dúvida sobre o que possa ser verdade ou ficção dentro da ficção e fomentar a discussão sobre o tema, enquanto interesse social. Por hora, o politicamente correto é o que se tem de mais moderno e contraditório, frente a inexplicáveis sucessos virais da literatura, como os de Erika Leonard James com os seus “Cinquenta tons” – adorados por muitas mulheres adeptas à sugestão de que “um tapinha não dói”.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Talk Radio


Atmosfera turva em meio ao breu

Em pleno século XXI, o rádio ainda se faz presente no cotidiano de um considerável número de pessoas – como reminiscente opção dentre os atuais veículos de comunicação – responsável por levar entretenimento e cultura aos seus ouvintes, além de promover as carreiras de muitos profissionais da música e difundir os mais diferentes estilos para os mais variados gostos musicais. Com o passar dos anos, o rádio tem se adaptado às novas convergências diante da globalização e das transmissões em tempo real via satélite e internet Wi-Fi. Encontra-se inserido em meio a outras tantas funcionalidades denominadas aplicativos, em dispositivos conhecidos por smartphones, tablets e kits multimídia, transmitindo notícias com imagens e relatos de forma instantânea e dinâmica - contudo, sem tomar, em sua totalidade, o espaço do rádio em sua versão original em meio aos seus conservadores adeptos.  

Antecipando-se a toda essa trajetória evolutiva, o espetáculo baseado no texto de Eric Bogosian – indicado ao Prêmio Pulitzer de 1988, e cuja versão cinematográfica fora dirigida por Oliver Stone – é definido espacial e temporalmente em Cleveland, nordeste dos Estados Unidos, durante os anos de 1980. Tem como protagonista, o locutor de rádio, Barry Champlain, interpretado, de forma assustadoramente perturbadora, por Leonardo Franco, responsável pela condução do programa “Conversas da Noite” – durante o qual atende ligações telefônicas de ouvintes, contando com que os mesmos se expressem e se posicionem sobre os mais variados temas sugeridos por ele mesmo.

A direção impactante e rude de Maria Maya, impõe à possante voz do locutor, toda a prepotência arraigada nas críticas sociais e na falta de filtro de Champlain, ao se dirigir aos ouvintes, tornando-o um homem liberto de qualquer ranço de hipocrisia - ao menos, durante a transmissão de “Conversas na Noite”. A base do projeto cenográfico de José Dias é o fundo infinito negro, em meio ao qual sugere peças de mobiliário e equipamentos de uma emissora de rádio e elementos pertinentes às origens das chamadas telefônicas, em meio a uma névoa de fumaça que sugere dimensões distintas ocupadas por locutor e por interlocutores. Não bastasse a atmosfera turva em meio ao breu, formas sinuosamente plásticas formadas pela fumaça produzida pelas incontáveis e compulsivas tragadas de Champlain a cada ironia e desprezo metralhados contra os ouvidos dos insones fãs do locutor, contribui, ainda mais, para desfocar a visão da composição cênica. Com isso, seria privilegiado o apelo auditivo em detrimento do visual, não fosse o simultâneo efeito cortante e cicatrizante do desenho de luz de Adriana Ortiz, responsável pela sugestão lumínica e sombria dos elementos de palco assinados por Dias e pelo seu potencial curativo das dores provocadas pelas feridas expostas decorrentes das palavras cortantes proferidas pelo locutor. O figurino de Luana de Sá é forte, sem meio termo, camaleônico sobre a negritude que preenche a boca de cena, e agasalha os personagens com ódio, raiva, egocentrismo e acidez. A preparação vocal de Verônica Machado impera a cada conotação de insatisfação e de falta de desejo de viver dos ouvintes, de Stu - auxiliar de Champlain, interpretado Marcelo Aquino, e do próprio locutor.

A exposição das personalidades dos ouvintes – interpretados por Alexandre Varella, Bernardo Mendes, Mariana Consoli, Raul Franco e Stela Maria Rodriygues – apesar de incomodar e provocar barulho nas mentes do espectador tem enorme potencial para deixar, quem quer que se deixe se entregar ao texto, em estado de transe por alguns instantes, estimulado somente pelo sentido da audição – o que retrata, de fato, as condições de audiência de um programa de rádio. Na platéia, ao espectador que assume o papel de mero ouvinte diante do palco travestido de rádio com dial inacessível, nada mais resta do que levar para casa cada pedrada, paulada e palavrões disparados pelo protagonista, sem a opção de mudar de estação ou desligar o aparelho – já que, para fazê-lo, naquele momento, só existe uma forma: dirigir-se à porta de saída da sala de espetáculos, antes mesmo do término de “Talk Radio”.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Malala


Leve e pragmático

Acusada pelo grupo Talibã de ser “adestrada” pelo mundo ocidental, a atual ativista paquistanesa Malala Yousafzai – mulher com apenas 17 anos de idade conquistou o seu direito à educação – é a pessoa mais jovem a receber, em 2014, o prêmio Nobel pela luta contra a repressão de crianças e jovens e pelo direito de todas as crianças pela educação. Após sobreviver a um atentado no Paquistão, em outubro de 2012 – decorrente de uma ação promovida pelo movimento fundamentalista islâmico nacionalista, motivado pela violenta campanha contra a educação feminina –  Malala e sua família mudam-se para a Inglaterra, por questões de sobrevivência – já que ela e seu pai não eram bem quistos pelo Talibã.

O documentário “Malala”, de Davis Guggenheim, descreve a total empatia entre pai e filha em prol do movimento global pela educação de meninas através da fundação que recebeu o nome da ativista e conta com belas animações que ilustram situações impactantes e violentas, vivenciadas por sua família. Seu roteiro é leve e pragmático, contemplado por uma fotografia árida, tal e qual a vida se torna após a tomada do Paquistão pelo Talibã. A produção de “Malala” é dotada de tamanha veracidade, do trabalho de Guggenhein, uma obra cinematográfica marcante na atual conjuntura mundial. 


quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Food & Drink – La Finestra


A sobriedade do ambiente enquadra o restaurante segundo um estilo conservador familiar, sendo frequentado tanto por hóspedes do próprio hotel quanto por turistas passantes

Um seleto rol de restaurantes do Rio de Janeiro seleciona seus melhores pratos e drinks para oferecer uma saborosa experiência aos apreciadores da arte gastronômica, para almoço e para jantar, de 9 a 29 de novembro de 2015, abrindo a primeira edição do Rio de Janeiro Food & Drink. O evento oferece menus combinados com prato principal, sobremesa e bebida, a partir de valores fixos que variam de R$ 29,90 a R$ 59,90, não incluindo taxas de serviço.

Domingo, dia 15 de novembro, a “Deguste - Circuito Geral” confere o jantar de um dos restaurantes participantes do festival – o “La Finestra”, espaço gourmet integrante do Hotel Porto Bay, em plena Avenida Atlântica – Copacabana.

A sobriedade do ambiente enquadra o restaurante segundo um estilo conservador familiar, sendo frequentado tanto por hóspedes do próprio hotel quanto por turistas passantes, além de servir de ponto acolhedor para assíduos moradores do bairro. Ainda no hall de acesso ao restaurante, percebe-se a preocupação com o som ambiente de altíssima qualidade – naquele momento, representado por um provável playlist com as melhores músicas do trio componente da banda norte americana “Boyce Avenue” – diante da deslumbrante e privilegiada vista panorâmica noturna da orla da Praia de Copacabana.

Recepcionados, genuína e gentilmente, pelo maître da casa, as informações sobre o “La Finestra”, seu cardápio, sua rotina diária e projetos gastronômicos dos quais participa, foram transmitidas sob a forma de um amigável e descontraído bate papo.

Independente do menu definido pelo festival, como forma de passar o tempo à espera dos pratos principais escolhidos, foi pedido um couvert, composto por três tipos de “dips” – à base de tomate seco, mussarela de búfala e ervas finas, acompanhados por pães de fabricação própria – juntamente com duas taças de espumante.
O menu oferecido pelo restaurante para o “Food & Drink”, degustado pelo Circuito Geral, é composto pelas seguintes combinações:
·      Prato principal número 1: Escalopinho de Mignon com Purê de Mandioquinha e Molho Pimenta Rosa – acompanhado por uma taça de vinho tinto;
·      Prato principal número 2: Risoto de Camarão com Aspargos, apurado pela cremosidade do Queijo Grand Chef – acompanhado por uma taça de vinho branco;
·      Sobremesa opção 1: Quindim de Côco Dourado;
·      Sobremesa opção 2: Mousse de Maracujá.

Após a finalização do jantar, aos redatores da “Deguste – Circuito Geral” foi apresentado o responsável pelos deliciosos pratos – o  Chef Evaldo, também, carinhosamente, conhecido por Mineiro, que brevemente discorreu sobre a sua trajetória no “La Finestra”, também deixando transparecer o seu orgulho no domínio da confeitaria portuguesa. Com isso, a saciedade com o jantar foi suplantada com novo pedido adicional de uma segunda sobremesa – um delicioso “Trio de Pastéis de Belém”.

Dentre o desfrute do ambiente que fomenta a prosa e o ritual de degustação da culinária do “La Finestra”, se passaram três horas desde a chegada dos redatores da “Deguste – Circuito Geral”, às 19h:30min – período findo com a sensação de que as possibilidades de um breve retorno não são nada remotas.

Endereço: Av. Atlântica, 1500 - Copacabana, Rio de Janeiro - RJ
Telefone: (21) 2546-8000


sábado, 14 de novembro de 2015

Como Eliminar Seu Chefe – A Comédia Musical da Broadway


Comédia apológica à emancipação feminina diante da soberania de uma sociedade machista.

Em meio a um cataclismo político onde, dentre incontáveis danos sociais, a mulher ainda é vista como gênero subordinado ao masculino, fato este que abre guarda, até mesmo, para que o Estado interfira nas decisões sobre a sua vida e o seu corpo, eis que a realização e a produção de Renata Borges e Cláudio Figueira levam ao palco do Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro, um espetáculo baseado em um grande sucesso cinematográfico da década de 80 – um marco na comédia apológica à emancipação feminina diante da soberania de uma sociedade machista. “Como Eliminar Seu Chefe – A Comédia Musical da Broadway” revela a eclosão comportamental de três mulheres potencialmente independentes no seu modo de pensar e de agir, a partir de um texto de autoria de Patrícia Resnick, que se desenvolve em meio ao mundo corporativo, segundo a percepção delineada pela auto-afirmação feminina.

A regência de Cláudio Figueira na direção da versão brasileira de Flávio Marinho é impactante enquanto contextualiza as músicas e as letras de Dolly Parton, de forma impecável e pontual, disseminando o vento que sopra em favor das mudanças que transcende o tempo, através de cenas intervaladas por uma coreografia representativamente contemporânea, igualmente assinada por Figueira. Nesse contexto, destacam-se a direção musical e preparação vocal de Liliane Secco, que potencializa o discurso dos personagens de forma marcante, impingindo uma atmosfera machista no primeiro ato e deflagrando a sagacidade feminina e revanchista no segundo.

Aguardando os espectadores ocuparem seus lugares, antes mesmo do início do espetáculo, um gigantesco alvo, diante do pano de boca se mostra içado e na mira de uma seta tão oscilante quanto um ponteiro de relógio em movimento acelerado, assume potencial hipnótico capaz de fazer com o público se abstraia da obviedade temática do título do espetáculo e se permita refletir sobre a verdadeira meta daquela seta. Descortinada a boca de cena, eis que surge um convincente mundo empresarial, social e familiar a partir de um complexo projeto cenográfico concebido por Clívia Cohen, que também assina o mais que adequado figurino, impecavelmente desenhado para cada personagem. O desenho de luz de Paulo Cesar Medeiros interage com os elementos cenográficos de Cohen e com os momentos de cada personagem - ora dramatizando, ora impulsionando as cenas tragicômicas com pinceladas grotescas, importadas “in natura” do roteiro original. Os personagens que simbolizam o poder das disputas inerentes à atividades profissionais são representados por atores que surgem e desaparecem, além daqueles que surgem e permanecem, como em qualquer empresa que avalia seus funcionários com vistas à lhes oferecer uma promoção. Nesse caso, o espectador assume a condição de chefia e se emociona com a sonhadora Dorali – tão bem desenhada por Sabrina Korgut; se identifica com a sem oportunidade Violeta – fortemente defendida por Tânia Alves; se confunde com a complexa Júlia – docemente interpretada por Simone Centurione; e torce contra o amoral Franklin Ratto – poderosamente interpretado por Marcos Breda. Em meio a essa formação constelar, Gottsha é Rosa – a cúmplice de Ratto – que acentua o tom de comédia do espetáculo.

O Maestro Fernando Lopes cria um paralelo marcante e despojado com sua orquestra, classicamente instalada no fosso destinado para tal, composta por teclado, baixo elétrico, bateria, percussão, guitarra, violões, sax, clarineta, flauta, piccolo, trombone e flugelhorn. Para cada canção entoada, a organização, a disciplina, a ordem instrumental ressoa em um teatro lotado, imerso no prazer de se estar no lugar certo e na hora certa.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Ou Tudo Ou Nada - O Musical


De forma latente


“Ou Tudo Ou Nada” – versão brasileira do musical adaptado do filme inglês “The Full Monty” para a Broadway, assinada por Artur Xexéo – é um espetáculo divertidamente despretensioso, montado a partir da simples, mas não menos criteriosa e zelosa direção de Tadeu Aguiar. Conta a história de seis homens que encaram sérios problemas financeiros causados por uma crise econômica – caracterizada no início do espetáculo com ranço de atemporalidade, através da técnica de videografismo, como se os fatos estivessem, até mesmo, ocorrendo nos dias de hoje – inserindo-os em meio às estatísticas que definem os altos índices de desemprego. Sem maiores perspectivas para reverterem a situação de forma convencional, resolvem montar um show de estrippers voltado para o público feminino para tentarem sair do estado de penúria financeira, como último recurso.

Apesar da fidedignidade ao roteiro original para os cinemas, a atual versão teatral assume um padrão “estendido” levando à perda rítmica no primeiro ato, até o momento em que o dinamismo é injetado nas cenas a partir da entrada da personagem desempenhada por Sylvia Massari, que empresta seu brilho e seu elevado timbre de voz à pianista responsável pela condução do ensaio dos protagonistas, elevando de forma harmônica e pungente os níveis de seus decibéis vocais na sala de espetáculo, com a capacidade ímpar de resgatar qualquer espectador que tenha, mesmo que involuntariamente, se deixado sintonizar na frequência cerebral Delta. O carismático sexteto protagonista, composto por Mouhamed Harfouch, Claudio Mendes, André Dias, Victor Maia, Carlos Arruza e Sérgio Menezes, responde bem as qualidades vocais e dramatúrgicas demandadas pelo espetáculo, injetando um quê de brasilidade aos personagens, sem falar no descolado desempenho do promissor ator mirim Xande Valois–todos sob as rédeas do calibrado preparo vocal de Mirna Rubim.

Uma banda composta por Daniel Sanches no piano; Josias Franco, Ricardo Hulck e Marcos Moreira nos sopros; Marcelo Rezende na guitarra; Leandro Vasques no baixo e Tiago Calderano na bateria, responsável pela execução da trilha sonora do espetáculo e sob a direção musical de Miguel Briamonte, é estratégica e permanentemente inserida no cenário e envolve o espectador na atmosfera tragicômica do espetáculo, em meio a um estilo rebuscado que transita do jazz ao pop. O projeto cenográfico de Edward Monteiro toma toda a boca de cena com um grafismo simbólico como pano de fundo para transportar a imaginação do espectador a uma cidade sob déficit econômico, além de contemplar um dinâmico conjunto de módulos sobre rodas responsáveis pela transformação das cenas num clube de stripper, nas casas dos protagonistas e no galpão utilizado para os ensaios. O figurino de Ney Madeira e Dani Vidal, não se faz datado, caracteriza adequadamente o status de cada personagem e prepara o espectador para o quase, literalmente, clímax do espetáculo. A coreografia de Alan Rezende instrumentaliza os corpos dos atores dançarinos inserindo a dança no contexto do mundo focado pela narrativa. O desenho de luz de David Bosboom e Dani Sanchez define a essência do renascimento interior dos personagens, colaborado para com o entendimento da perspectiva existencial dos desempregados que decidem ganhar a vida tirando a roupa em um clube de mulheres.

“Ou Tudo Ou Nada – O Musical” faz com que o público deixe a sala de espetáculos divertidamente impactado com a estratégica exposição do nu total masculino numa única noite de show, com vistas à sanar um problema financeiro imediato. Contudo, esse mesmo público carrega, adicionalmente, seus particularismos existenciais, pois, o vazio presente na perspectiva de vida dos personagens permanece de forma latente.


Circuito Geral                                                fotos: assessoria de imprensa

sábado, 7 de novembro de 2015

O Beijo no Asfalto – O Musical


Inusitado, original, surpreendente

Inusitado, original, surpreendente – três dentre os incontáveis atributos a serem, merecidamente, imputados a atual produção de “O Beijo no Asfalto”, dirigida por João Fonseca. Num primeiro instante, o ineditismo do espetáculo se deve ao fato de ser a primeira leitura de uma obra selecionada em meio à produção dramatúrgica de Nelson Rodrigues, nos moldes de um musical, consolidada pela surpreendente e contagiante trilha sonora de Claudio Lins e pela direção musical de Délia Finsher, que amplificam, de maneira pungente, a perturbadora essência daquela obra.

Adicionalmente ao fato de se tratar de um musical, a presente versão de “O Beijo no Asfalto”, arquitetada pelo próprio Cláudio Lins, agrega ao texto e à dramaturgia, cenas que estilizam e extrapolam a realidade do roteiro original, transportadas para uma dimensão distinta que beira à fantasia delirante – exacerbada pelo  diversificado figurino de Claudio Tovar, acompanhado do visagismo carregado nas tintas, que agrega aos estilos clássicos, característicos dos núcleos sociais e institucionais brasileiros, a alegoria carnavalesca, já há muito inserida nos padrões da vida como ela é, segundo Nelson Rodrigues. O articulado, funcional e simplificado cenário de Nello Marrese serve, estrategicamente, como base estrutural do espetáculo, associado ao permanente dramático desenho de luz de Luis Paulo Neném, que define o vermelho e o magenta como padrão cromático do piso palco, como se tomado por poças de sangue decorrentes da morte de um atropelado ou dos produtos de uma imprensa marrom, cuja meta visa, única e exclusivamente a venda de seus jornais, custe o que custar e a quem custar – base do argumento de “O Beijo no Asfalto”. Cintila no palco, uma constelação composta por catorze astros cujas grandezas estão associadas ao seu tempo no meio artístico, contudo, equilibrados entre si por uma força gravitacional, dispensando exponenciais e visando à harmonia final de um thriller policial e de suspense, com duração de cento e cinquenta minutos, em dois atos.

Atento às mais diversificadas reações do público, o Circuito Geral constata, numa das apresentações do Teatro Sesc Ginástico no Rio de Janeiro, que Nelson Rodrigues ainda é capaz de surpreender e emocionar a platéia, a despeito do tempo decorrido desde a publicação de “O Beijo no Asfalto” em 1960. Dentre as espontâneas manifestações passíveis de serem observadas, o espectador repudia a sordidez que abala a reputação do protagonista Arandir – encarnado por Claudio Lins; sofre com o realismo do desamparo de sua esposa Selminha – adensado por Laila Garin; solidariza com a pluralidade e permissividade afetiva de sua cunhada Dália – valorizada por Yasmin Gomlevsky; se surpreende com a retidão moral familiar assumida por seu sogro, Aprígio – a partir de um forte viés reptiliano definido por Gracindo Jr.; repudia o jornalista Amado Ribeiro – elevado às alturas por Thelmo Fernandes; reflete sobre a conduta policial e timidamente se liberta dos grilhões das doutrinas sociais, num crescendo emotivo que eclode na ovação e no aplauso incontido diante do gran finale, digno da visionaridade rodriguiana.

“O Beijo no Asfalto – O Musical” conta com dezesseis números musicais que, deliciosamente, se mimetizam com sucessos consagrados de Adelino Moreira, Ataufo Alvez, Dolores Duran, Jackson do Pandeiro e Miguel Gustavo, dentre outros, que estruturam o contraste de valores ideológicos e morais de uma sociedade androcêntrica de um época que, pelas surpreendentes manifestações da plateia, sinaliza que, até os dias de hoje, aparentemente, nada mudou.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Tem Um Psicanalista na Nossa Cama


Infrutífero trabalhar o sintoma se a causa não for devida e previamente trabalhada.

“Tem Um Psicanalista na Nossa Cama” – texto do dramaturgo João Bethencourt, escrito há mais de 30 anos, ainda se mostra atual, enquanto toca o dedo na ferida do relacionamento à dois. A atual montagem, cujos objetivos roteiro e direção são assinados por Gláucia Rodrigues, apresenta uma Dolores – doce e energicamente interpretada por Solange Badin – como uma mulher disposta a defender seu posicionamento numa relação conjugal, supostamente conturbada, com o marido Eduardo – muito bem amparado por Lucci Ferreira. Em meio ao conflito instaurado, Dolores decide recorrer à ajuda profissional de um psicanalista – como se laboratorialmente incorporado por Cristiano Gualda – que conduz seu método terapêutico sutilmente referenciado na teoria kleiniana, que considera infrutífero trabalhar o sintoma se a causa não for devida e previamente trabalhada. De forma atemporal, a dramaturgia de Bethecourt, contemplando um viés cômico datado do final dos anos 70, promove momentos de ingênuo laser que permite, na medida do possível, a compreensão para alguns e a constatação para outros, da terapia psicanalítica de casal, a partir de uma linguagem bem humorada e diálogos inteligentes.

O projeto cenográfico de José Dias estabelece a coexistência visual de dois ambientes num único cenário – através do sinuoso e contínuo elemento decorativo de teto junto ao pano de fundo, segmentado em três zonas distintas e estabelece a relevância das referências entre o consultório do psicanalista e a cama inserida no “lar doce lar”, a partir de peças de mobiliário simbólicas, numa composição que beira ao minimalismo. O figurino de Colmar Diniz faz do mecanismo presente nos personagens um conceito de masculinidade e feminilidade, definindo o estilo de um período, sem torná-lo caricatura de uma época, tornando-o tão factível nos tempos atuais quanto os procedimentos da terapia psicanalítica com base no seu processo evolutivo, desde então. O desenho de luz de Rogério Wiltgen é conceitual e estrategicamente hostil, na medida em que a programação cromática, entre o vermelho e o azul, é diagnosticado pelo público à semelhança do modelo amoroso com seus pares ou de conhecidos seus.

“Tem Um Psicanalista na Nossa Cama” transparece que eventuais promessas juradas por um casal em meio a uma DR poderão deixar traços positivos ou negativos na constituição da parceria conjugal em função de seus objetivos, até mesmo, sem o auxílio de um terapeuta.