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sábado, 14 de novembro de 2015

Como Eliminar Seu Chefe – A Comédia Musical da Broadway


Comédia apológica à emancipação feminina diante da soberania de uma sociedade machista.

Em meio a um cataclismo político onde, dentre incontáveis danos sociais, a mulher ainda é vista como gênero subordinado ao masculino, fato este que abre guarda, até mesmo, para que o Estado interfira nas decisões sobre a sua vida e o seu corpo, eis que a realização e a produção de Renata Borges e Cláudio Figueira levam ao palco do Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro, um espetáculo baseado em um grande sucesso cinematográfico da década de 80 – um marco na comédia apológica à emancipação feminina diante da soberania de uma sociedade machista. “Como Eliminar Seu Chefe – A Comédia Musical da Broadway” revela a eclosão comportamental de três mulheres potencialmente independentes no seu modo de pensar e de agir, a partir de um texto de autoria de Patrícia Resnick, que se desenvolve em meio ao mundo corporativo, segundo a percepção delineada pela auto-afirmação feminina.

A regência de Cláudio Figueira na direção da versão brasileira de Flávio Marinho é impactante enquanto contextualiza as músicas e as letras de Dolly Parton, de forma impecável e pontual, disseminando o vento que sopra em favor das mudanças que transcende o tempo, através de cenas intervaladas por uma coreografia representativamente contemporânea, igualmente assinada por Figueira. Nesse contexto, destacam-se a direção musical e preparação vocal de Liliane Secco, que potencializa o discurso dos personagens de forma marcante, impingindo uma atmosfera machista no primeiro ato e deflagrando a sagacidade feminina e revanchista no segundo.

Aguardando os espectadores ocuparem seus lugares, antes mesmo do início do espetáculo, um gigantesco alvo, diante do pano de boca se mostra içado e na mira de uma seta tão oscilante quanto um ponteiro de relógio em movimento acelerado, assume potencial hipnótico capaz de fazer com o público se abstraia da obviedade temática do título do espetáculo e se permita refletir sobre a verdadeira meta daquela seta. Descortinada a boca de cena, eis que surge um convincente mundo empresarial, social e familiar a partir de um complexo projeto cenográfico concebido por Clívia Cohen, que também assina o mais que adequado figurino, impecavelmente desenhado para cada personagem. O desenho de luz de Paulo Cesar Medeiros interage com os elementos cenográficos de Cohen e com os momentos de cada personagem - ora dramatizando, ora impulsionando as cenas tragicômicas com pinceladas grotescas, importadas “in natura” do roteiro original. Os personagens que simbolizam o poder das disputas inerentes à atividades profissionais são representados por atores que surgem e desaparecem, além daqueles que surgem e permanecem, como em qualquer empresa que avalia seus funcionários com vistas à lhes oferecer uma promoção. Nesse caso, o espectador assume a condição de chefia e se emociona com a sonhadora Dorali – tão bem desenhada por Sabrina Korgut; se identifica com a sem oportunidade Violeta – fortemente defendida por Tânia Alves; se confunde com a complexa Júlia – docemente interpretada por Simone Centurione; e torce contra o amoral Franklin Ratto – poderosamente interpretado por Marcos Breda. Em meio a essa formação constelar, Gottsha é Rosa – a cúmplice de Ratto – que acentua o tom de comédia do espetáculo.

O Maestro Fernando Lopes cria um paralelo marcante e despojado com sua orquestra, classicamente instalada no fosso destinado para tal, composta por teclado, baixo elétrico, bateria, percussão, guitarra, violões, sax, clarineta, flauta, piccolo, trombone e flugelhorn. Para cada canção entoada, a organização, a disciplina, a ordem instrumental ressoa em um teatro lotado, imerso no prazer de se estar no lugar certo e na hora certa.

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