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quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Kiss me, Kate – O Beijo da Megera


"Um tapinha não dói"


Casal de artistas divorciados volta a dividir o palco, estrelando o musical baseado em “A Megera Domada” – mote que estrutura o jogo cênico que satiriza a obra Shakespeareana, publicada no final do século XVI. A partir de um dos mais bem sucedidos textos do casal de escritores – Sam e Bella Speawack, datado de 1948, a brasileiríssima atual versão de "Kiss me, Kate - o Beijo da Megera" e respectiva supervisão musical de Claudio Botelho não teriam conquistado melhores resultados não fosse a direção do espetáculo, sob a batuta de Charles Möeller. Musicalizado com cifras e letras de Cole Poter, a produção de Möeller & Botelho se mantém fiel à essência da obra dos Speawacks enquanto reivindica a ideologia do crescente movimento feminista do século XX, sem, contudo, se desvirtuar do roteiro original renascentista, no qual se mostram inabaláveis os deveres do homem como dominar e da mulher, como sua submissa.
Estrelando, a notória Alessandra Verney represa toda a fúria de suas personagens, incorporando a atriz Lilli Vanessi – a ex-mulher do diretor do espetáculo, e Catarina – carinhosamente apelidada por Kate na versão dos Spewacks – a megera de Shakespeare, que devasta a placidez do palco como um furacão, provocando, na platéia, intensas ondas de risadas durantes seus impulsivos ataques de fúria. Co-estrelando, José Mayer se entrega aos personagens Fred Graham – o ex-marido de Lilli e diretor do espetáculo, e Petruchio – o golpista do baú renascentista, com muito estilo e com a masculinidade imposta pelo personagem. A dupla Chico Caruso e Will Anderson se destaca como os gangsters que cobram de Fred uma dívida de jogo, incorporando os personagens de forma tão significativa, muitas vezes caricata, como dois bobos da corte, passando a impressão de estarem encenando uma terceira história no espetáculo.
Marcelo Castro acumula a regência e a adaptação dos arranjos musicais com a qualidade peculiar à sua expertise multidisciplinar enquanto profissional da música, fazendo da trilha sonora, o coração do espetáculo aliado à indissociável coreografia de Alonso Barros que, por sua vez, assume configurações distintas entre os bastidores de “Kiss me, Kate!” e os de “A Megera Domada”, contrapondo a realidade e a fantasia. O cenário de Rogério Falcão – requintado em detalhes pictóricos, mais convincente nas cenas que se passam no século XX do que nas do século XVI – é beneficiado pelo eficiente desenho de luz de Paulo Cesar Medeiros que além de promover uma eficiente tridimensionalidade virtual em função do contraste entre claros e escuros, é um dos responsáveis pelo brilho dos números musicais coreografados por Alonso Barros e trabalhado de forma centrada e madura por seu assistente, Alan Rezende. O figurino é composto por um vasto e riquíssimo guarda-roupas assinado por Carol Lobato, cujo impacto no palco é compartilhado com visagismo de Beto Carramanhos – por sua vez frenético e, até mesmo, sensual.
“Kiss me, Kate – O Beijo da Megera” pode ser considerado misógino para muitos, pelo simples fato de retratar a submissão da mulher ao homem, tal e qual fora concebido em meados do século XX e que, infelizmente, o poderia sê-lo nos dias atuais, a despeito das crescentes conquistas das mulheres pela igualdade de direitos ao longo dos anos. O que mais impacta na versão dos Speawacks é o fato do tema despertar indignação dentre os espectadores como se a história de Lilli e Fred não pudesse se manter impregnada pela submissão feminina e devesse reverter a condição machista presente nas vidas dos personagens – condição essa que inspirara Shakespeare ao conceber a história de Catarina e Petruchio.

Decerto, a versão brasileira de Möeller & Botelho – que dispensa louvores diante da sua consagrada qualidade na produção de Teatro Musical no Brasil desde a década de 1990 – não tem qualquer interesse em subverter o conteúdo da obra original dos Speawacks, mas permear a dúvida sobre o que possa ser verdade ou ficção dentro da ficção e fomentar a discussão sobre o tema, enquanto interesse social. Por hora, o politicamente correto é o que se tem de mais moderno e contraditório, frente a inexplicáveis sucessos virais da literatura, como os de Erika Leonard James com os seus “Cinquenta tons” – adorados por muitas mulheres adeptas à sugestão de que “um tapinha não dói”.

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