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quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Ou Tudo Ou Nada - O Musical


De forma latente


“Ou Tudo Ou Nada” – versão brasileira do musical adaptado do filme inglês “The Full Monty” para a Broadway, assinada por Artur Xexéo – é um espetáculo divertidamente despretensioso, montado a partir da simples, mas não menos criteriosa e zelosa direção de Tadeu Aguiar. Conta a história de seis homens que encaram sérios problemas financeiros causados por uma crise econômica – caracterizada no início do espetáculo com ranço de atemporalidade, através da técnica de videografismo, como se os fatos estivessem, até mesmo, ocorrendo nos dias de hoje – inserindo-os em meio às estatísticas que definem os altos índices de desemprego. Sem maiores perspectivas para reverterem a situação de forma convencional, resolvem montar um show de estrippers voltado para o público feminino para tentarem sair do estado de penúria financeira, como último recurso.

Apesar da fidedignidade ao roteiro original para os cinemas, a atual versão teatral assume um padrão “estendido” levando à perda rítmica no primeiro ato, até o momento em que o dinamismo é injetado nas cenas a partir da entrada da personagem desempenhada por Sylvia Massari, que empresta seu brilho e seu elevado timbre de voz à pianista responsável pela condução do ensaio dos protagonistas, elevando de forma harmônica e pungente os níveis de seus decibéis vocais na sala de espetáculo, com a capacidade ímpar de resgatar qualquer espectador que tenha, mesmo que involuntariamente, se deixado sintonizar na frequência cerebral Delta. O carismático sexteto protagonista, composto por Mouhamed Harfouch, Claudio Mendes, André Dias, Victor Maia, Carlos Arruza e Sérgio Menezes, responde bem as qualidades vocais e dramatúrgicas demandadas pelo espetáculo, injetando um quê de brasilidade aos personagens, sem falar no descolado desempenho do promissor ator mirim Xande Valois–todos sob as rédeas do calibrado preparo vocal de Mirna Rubim.

Uma banda composta por Daniel Sanches no piano; Josias Franco, Ricardo Hulck e Marcos Moreira nos sopros; Marcelo Rezende na guitarra; Leandro Vasques no baixo e Tiago Calderano na bateria, responsável pela execução da trilha sonora do espetáculo e sob a direção musical de Miguel Briamonte, é estratégica e permanentemente inserida no cenário e envolve o espectador na atmosfera tragicômica do espetáculo, em meio a um estilo rebuscado que transita do jazz ao pop. O projeto cenográfico de Edward Monteiro toma toda a boca de cena com um grafismo simbólico como pano de fundo para transportar a imaginação do espectador a uma cidade sob déficit econômico, além de contemplar um dinâmico conjunto de módulos sobre rodas responsáveis pela transformação das cenas num clube de stripper, nas casas dos protagonistas e no galpão utilizado para os ensaios. O figurino de Ney Madeira e Dani Vidal, não se faz datado, caracteriza adequadamente o status de cada personagem e prepara o espectador para o quase, literalmente, clímax do espetáculo. A coreografia de Alan Rezende instrumentaliza os corpos dos atores dançarinos inserindo a dança no contexto do mundo focado pela narrativa. O desenho de luz de David Bosboom e Dani Sanchez define a essência do renascimento interior dos personagens, colaborado para com o entendimento da perspectiva existencial dos desempregados que decidem ganhar a vida tirando a roupa em um clube de mulheres.

“Ou Tudo Ou Nada – O Musical” faz com que o público deixe a sala de espetáculos divertidamente impactado com a estratégica exposição do nu total masculino numa única noite de show, com vistas à sanar um problema financeiro imediato. Contudo, esse mesmo público carrega, adicionalmente, seus particularismos existenciais, pois, o vazio presente na perspectiva de vida dos personagens permanece de forma latente.


Circuito Geral                                                fotos: assessoria de imprensa

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