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sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Talk Radio


Atmosfera turva em meio ao breu

Em pleno século XXI, o rádio ainda se faz presente no cotidiano de um considerável número de pessoas – como reminiscente opção dentre os atuais veículos de comunicação – responsável por levar entretenimento e cultura aos seus ouvintes, além de promover as carreiras de muitos profissionais da música e difundir os mais diferentes estilos para os mais variados gostos musicais. Com o passar dos anos, o rádio tem se adaptado às novas convergências diante da globalização e das transmissões em tempo real via satélite e internet Wi-Fi. Encontra-se inserido em meio a outras tantas funcionalidades denominadas aplicativos, em dispositivos conhecidos por smartphones, tablets e kits multimídia, transmitindo notícias com imagens e relatos de forma instantânea e dinâmica - contudo, sem tomar, em sua totalidade, o espaço do rádio em sua versão original em meio aos seus conservadores adeptos.  

Antecipando-se a toda essa trajetória evolutiva, o espetáculo baseado no texto de Eric Bogosian – indicado ao Prêmio Pulitzer de 1988, e cuja versão cinematográfica fora dirigida por Oliver Stone – é definido espacial e temporalmente em Cleveland, nordeste dos Estados Unidos, durante os anos de 1980. Tem como protagonista, o locutor de rádio, Barry Champlain, interpretado, de forma assustadoramente perturbadora, por Leonardo Franco, responsável pela condução do programa “Conversas da Noite” – durante o qual atende ligações telefônicas de ouvintes, contando com que os mesmos se expressem e se posicionem sobre os mais variados temas sugeridos por ele mesmo.

A direção impactante e rude de Maria Maya, impõe à possante voz do locutor, toda a prepotência arraigada nas críticas sociais e na falta de filtro de Champlain, ao se dirigir aos ouvintes, tornando-o um homem liberto de qualquer ranço de hipocrisia - ao menos, durante a transmissão de “Conversas na Noite”. A base do projeto cenográfico de José Dias é o fundo infinito negro, em meio ao qual sugere peças de mobiliário e equipamentos de uma emissora de rádio e elementos pertinentes às origens das chamadas telefônicas, em meio a uma névoa de fumaça que sugere dimensões distintas ocupadas por locutor e por interlocutores. Não bastasse a atmosfera turva em meio ao breu, formas sinuosamente plásticas formadas pela fumaça produzida pelas incontáveis e compulsivas tragadas de Champlain a cada ironia e desprezo metralhados contra os ouvidos dos insones fãs do locutor, contribui, ainda mais, para desfocar a visão da composição cênica. Com isso, seria privilegiado o apelo auditivo em detrimento do visual, não fosse o simultâneo efeito cortante e cicatrizante do desenho de luz de Adriana Ortiz, responsável pela sugestão lumínica e sombria dos elementos de palco assinados por Dias e pelo seu potencial curativo das dores provocadas pelas feridas expostas decorrentes das palavras cortantes proferidas pelo locutor. O figurino de Luana de Sá é forte, sem meio termo, camaleônico sobre a negritude que preenche a boca de cena, e agasalha os personagens com ódio, raiva, egocentrismo e acidez. A preparação vocal de Verônica Machado impera a cada conotação de insatisfação e de falta de desejo de viver dos ouvintes, de Stu - auxiliar de Champlain, interpretado Marcelo Aquino, e do próprio locutor.

A exposição das personalidades dos ouvintes – interpretados por Alexandre Varella, Bernardo Mendes, Mariana Consoli, Raul Franco e Stela Maria Rodriygues – apesar de incomodar e provocar barulho nas mentes do espectador tem enorme potencial para deixar, quem quer que se deixe se entregar ao texto, em estado de transe por alguns instantes, estimulado somente pelo sentido da audição – o que retrata, de fato, as condições de audiência de um programa de rádio. Na platéia, ao espectador que assume o papel de mero ouvinte diante do palco travestido de rádio com dial inacessível, nada mais resta do que levar para casa cada pedrada, paulada e palavrões disparados pelo protagonista, sem a opção de mudar de estação ou desligar o aparelho – já que, para fazê-lo, naquele momento, só existe uma forma: dirigir-se à porta de saída da sala de espetáculos, antes mesmo do término de “Talk Radio”.

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