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terça-feira, 3 de novembro de 2015

Tem Um Psicanalista na Nossa Cama


Infrutífero trabalhar o sintoma se a causa não for devida e previamente trabalhada.

“Tem Um Psicanalista na Nossa Cama” – texto do dramaturgo João Bethencourt, escrito há mais de 30 anos, ainda se mostra atual, enquanto toca o dedo na ferida do relacionamento à dois. A atual montagem, cujos objetivos roteiro e direção são assinados por Gláucia Rodrigues, apresenta uma Dolores – doce e energicamente interpretada por Solange Badin – como uma mulher disposta a defender seu posicionamento numa relação conjugal, supostamente conturbada, com o marido Eduardo – muito bem amparado por Lucci Ferreira. Em meio ao conflito instaurado, Dolores decide recorrer à ajuda profissional de um psicanalista – como se laboratorialmente incorporado por Cristiano Gualda – que conduz seu método terapêutico sutilmente referenciado na teoria kleiniana, que considera infrutífero trabalhar o sintoma se a causa não for devida e previamente trabalhada. De forma atemporal, a dramaturgia de Bethecourt, contemplando um viés cômico datado do final dos anos 70, promove momentos de ingênuo laser que permite, na medida do possível, a compreensão para alguns e a constatação para outros, da terapia psicanalítica de casal, a partir de uma linguagem bem humorada e diálogos inteligentes.

O projeto cenográfico de José Dias estabelece a coexistência visual de dois ambientes num único cenário – através do sinuoso e contínuo elemento decorativo de teto junto ao pano de fundo, segmentado em três zonas distintas e estabelece a relevância das referências entre o consultório do psicanalista e a cama inserida no “lar doce lar”, a partir de peças de mobiliário simbólicas, numa composição que beira ao minimalismo. O figurino de Colmar Diniz faz do mecanismo presente nos personagens um conceito de masculinidade e feminilidade, definindo o estilo de um período, sem torná-lo caricatura de uma época, tornando-o tão factível nos tempos atuais quanto os procedimentos da terapia psicanalítica com base no seu processo evolutivo, desde então. O desenho de luz de Rogério Wiltgen é conceitual e estrategicamente hostil, na medida em que a programação cromática, entre o vermelho e o azul, é diagnosticado pelo público à semelhança do modelo amoroso com seus pares ou de conhecidos seus.

“Tem Um Psicanalista na Nossa Cama” transparece que eventuais promessas juradas por um casal em meio a uma DR poderão deixar traços positivos ou negativos na constituição da parceria conjugal em função de seus objetivos, até mesmo, sem o auxílio de um terapeuta.

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