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sábado, 19 de dezembro de 2015

A Voz Humana


“Meu Querido”

Cena inicial: uma mulher atende o telefone – antigo aparelho estilo Ericsson em baquelite preto anos 1930, conectado através de um fio longo espiralado anos 1970.
Do outro lado da linha, um homem, carinhosamente chamado de “Meu Querido” pela mulher – “Meu Querido” esse que, o Circuito Geral, segundo sua leitura do espetáculo, toma a liberdade de considerá-lo protagonista de “A Voz Humana”, cujo texto é assinado pelo dramaturgo surrealista e encenador de teatro francês – Jean Cocteau.

Em poucos minutos de espetáculo, o público passa a compreender o motivo de “Meu Querido” ter abandonado sua interlocutora – incorporada por Claudia O’Hanna – que se entrega à fantasia por um relacionamento já findo, que mendiga afeto e atos de gentileza de um homem que não mais a quer e transforma o ser “Meu Querido” em uma figura que, sem qualquer esforço, conquista a solidariedade por parte da platéia – composta, em sua grande maioria, de mulheres acompanhadas de seus pares. A direção de Jose Lavigne expõe ao espectador a figura de uma mulher sem amor próprio, rejeitada, ameaçadora, ciumenta, sabotadora – e chata. Ponto para  “Meu Querido” que, mesmo sem ter sua voz revelada, sequer através de um simples murmúrio, torna-se digno de piedade e de compreensão, por ter sido alvo e, até mesmo, ter sobrevivido a um relacionamento com uma verdadeira stalker.

O projeto cenográfico de Edgard Divivier apresenta, como pano de fundo à frente de um fundo infinito negro, um grande teste de Rorschach perspectivado no qual, a partir do seu borrão central, desenvolve-se sequências de imagens que, conjugadas ao padrão cromático composto por cores eminentemente quentes, são passíveis de interpretação por parte dos espectadores – cada um, de acordo com seu critério e percepção, a partir do abstrato.

Sobrepondo ao peso visual ocupado pelo grafismo concebido por Divivier, Felipe Lourenço carrega no desenho de luz contemplando cores em tons igualmente avermelhados, porém, demasiadamente estático e desprovido de contrastes. Intencional ou não, a monotonia presente na iluminação cênica contribui para potencializar o clima de ansiedade do diálogo – ceifado por uma linha telefônica e transformado num monólogo – e transportá-lo diretamente para a platéia sob forma de aparente irritação manifestada por alguns espectadores, na ocasião em que o Circuito Geral se fez presente na platéia. O figurino de Carla Garan e o visagismo de Pino Gomes extrapolam suas intervenções em cena, captando os indícios de desequilíbrio emocional da personagem de O’Hanna, desde o seu início ao final da ligação, em total contraste com as fotos de divulgação estampadas no cartaz oficial do espetáculo e em outros veículos de comunicação. Nas fotos, modelo fotográfico e fotógrafo ensaiam semblante e postura de modo a retratar uma mulher sensual, e dona de si. No palco, O’Hanna se apresenta – como mera ex, debulhada em lágrimas – merecidamente solitária, como tantas outras que se permitem amar demais, desprovidas de sensatez e de qualquer filtro auto crítico.

Finda a apresentação, fica claro, pela reação dos casais ao sairem da sala de espetáculo que, no caso específico do trabalho dirigido por Lavigne, toda a lenga-lenga verbalizada – através de um pronunciamento que assume o tom de auto piedade – é algo, no mínimo, enfadonho pois, o que a maioria dos indivíduos tidos como reféns de desafetos amorosos não desejam, é ouvir as famigeradas e irritantes vozes de seus ex-parceiros, no papel de insanos  perseguidores.

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