Counter

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Elza Soares – A Mulher do Fim do Mundo


Vocês querem mais?

“A Mulher do Fim do Mundo” – título do espetáculo homônimo do 34º disco de Elza Soares, em curtíssima temporada no OI Casa Grande, Rio de Janeiro – síntese embrionária de um ícone da música popular brasileira. Noite de 1º de dezembro de 2015 – o Circuito Geral confere a surpreendente produção de um show que, pela brilhante sexagenária carreira da cantora, poderia assumir os moldes de um mero tributo. Ao contrário, Elza Soares presenteia toda uma legião de fãs e admiradores da música que se identificam com a sua postura diante da vida e dos princípios éticos e humanitários, com uma apresentação contemplando seu primeiro disco somente de inéditas de toda a sua trajetória.

Dando início ao espetáculo, o descortinar do palco revela uma mulher sentada no topo da boca de cena, como se em um trono ao qual faz jus, com suas vestes com ares de realeza, engenhosamente desenhadas e executadas com sacos de lixo, cuja trama da saia descende os degraus e se espraiam pelo palco como raízes que se fortalecem a partir da mãe terra. Diante da negra rotunda, Elza se destaca diante de um gigantesco cenário em formato de esplendor, igualmente executado com sacos de lixo, cuja magnificência é proporcional à grandeza de seu talento e representatividade dentre as vozes afro descendentes brasileiras.

O poema de Oswald de Andrade, musicado por José Miguel Wisnik – “Coração do Mar” – abre a sequência de músicas que toma todos com emoção a partir de “Mulher do Fim do Mundo”, de Rômulo Fróes e Alice Coutinho. Sem deixar a mística do show ser descoberta antes de seu final, “O Canal”, música de Rodrigo Campos, com a sua estranheza rítmica beirando ao acústico  que extrapola os limites popularmente conhecidos, Elza detona o teor político com foco na atual crise hídrica – desenhando o roteiro do show a partir de forte comprometimento com a reflexão sobre diversos assuntos em voga no país. “Luz Vermelha”, de Kiko Dinucci e Clima, com pegada mais pesada atenuada com arranjo dançante, ensaia uma ameaçadora chamada para o início de uma monstruosa balada, diante da quantidade de espectadores que lota a sala de espetáculos, contaminadas pelos ritmos e arranjos de cunho experimental. “A Carne”, de Seu Jorge, Marcelo Yuca e Ulisses Capelletti - canção datada de 2002 que não faz parte do álbum, assume a responsabilidade de fazer com que todos se levantem de suas poltronas e ovacionem a cantora e compositora por não menos que cinco minutos, arrancando-lhe lágrimas de emoção e de agradecimento pela calorosa audiência. De forma comovente, Elza discursa sobre a violência contra as mulheres e detona “Maria da Vila Matilde” – que diz muito sobre o seu passado – transformado em um samba-punk de primeiríssima qualidade e comanda palavras de ordem junto ao o público presente, através do refrão “Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim”. Inesperadamente, como se o show não tivesse mais espaço para surpreender, eis que surge um convidado especial – o performático Rubi, dando imagem a forte “Benedita” com música e letra de Celso Sim. “Malandro”, de Jorge Aragão, música datada de 1976 e que também não faz parte do novo álbum, ganha uma nova roupagem com arranjo de instrumentos de cordas que fomenta desejo do público de fazer a segunda voz em parceira com Elza Soares.

Não é a primeira vez que Elza Soares se entrega à parceria de instrumentistas que a acompanham numa produção de forte cunho experimental. Dessa vez, com a seguinte banda, cuja omissão da menção dos músicos e respectivos instrumentos, seria como esconder o outro lado da moeda – Gulherme Kastrup, bateria e direção musical; Kino Dinucci, violão e guitarra; Rodrigo Campos, guitarra e cavaco; Luque Barros, baixo e synth; Felipe Roseno, percussões; a banda Bixiga 70 com Cuca Ferreira, sax barítono; Dasniel Nogueira, sax tenor; Douglas Antunes, Trombone; Daniel Gralha, Trumpet; o quarteto de cordas Qadril, com Mica Marcondes, violino; Elisa Monteiro, vola; Mariana Amaral, violoncelo e Alice Bevilaqua, violino.
Após a apresentação das belíssimas e líricas “Solto” e “Comigo”, ao cerrar das cortinas, o público, se dando conta do fim do espetáculo, se recusa a se retirar da plateia e, após algum tempo de ininterruptas palmas, a “Mulher do Fim do Mundo” cede à reivindicação de seus admiradores e retorna, perguntando aos seus súditos: “Vocês querem mais?” – com a graça e meiguice de uma adolescente, amadurecida pelas açoitadas que a vida lhe reservou, fortalecida pelo seu desempenho artístico e domínio de sua voz – que a capacita a duelar com toda a sorte de instrumentos e sintetizadores.

Ao ensurdecedor e durador brado do público – “levanta, sacode a poeira e dá volta por cima” em resposta ao comando de Elza Soares – “reconhece a queda e não desanima” – versos de Paulo Vanzolini – seguem o agradecimento aos presentes, o reconhecimento à equipe de produção do espetáculo, a devoção a Oxalá e a derradeira “Pressentimento”, de Elton Medeiros.

A emoção acompanha a retirada do Circuito Geral do Oi Casa Grande, certo de que o refrão entoado pela Mulher do Fim do Mundo – “me deixem cantar até o fim” não se trata de um simples verso de uma canção, mas um apelo de Elza Soares para o mundo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário