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domingo, 13 de dezembro de 2015

Hilda e Freud


Sessenta minutos de lirismo e de terapia
“Hilda e Freud”, espetáculo cujo texto é de autoria do psiquiatra Antonio Quinet, tem como base as compilações dos diários de Hilda Doolittle – poetisa que manteve uma relação mais do que médico-paciente com o criador da psicanálise. Quinet também assina a direção do espetáculo, imprescindivelmente compartilhada com a coreógrafa, diretora teatral e analista de movimento – Regina Miranda.
Num extremo, o espectador percebe Bel Kutner, no papel de Hilda, processando os medos, as alucinações e os sonhos da poetisa com a solidez de quem vivera, na própria pele, os traumas da 1ª Guerra Mundial. Noutro, se depara com Antonio Quinet, incorporando Freud, discorrendo sobre a psicanálise de forma quase didática, totalmente assimilável, até mesmo para os não familiarizados com a matéria. As zelosas intervenções simbióticas de Quinet e Miranda são fundamentais no processo de convencimento e de transporte do espectador rumo ao inconsciente relatados por Hilda, alcançando uma dimensão que ultrapassa os limites do texto e da sala de espetáculos. Os palpáveis e geométricos elementos cenográficos minimalistas de Analu Prestes, definidos por três hexaedros nos quais os personagens se revezam a cada pronunciamento, são fluidicamente complementados pela marcante presença do videografismo, duplamente projetado no diedro formado pelo palco e pela estilizada rotunda, sugerindo a complexidade simbólica – presente nos momentos de estado complementar ao da vigília e durante os instantes de percepção real de algo inexistente, independente de estímulos externos. Noutros dois planos verticais ortogonais que ladeiam o palco, sombras dos personagens projetadas pela incidência da luz vermelha, tenta revelar ao público, algo mais do que o óbvio, mas o que se entranha no subconsciente de ambos. Respeitando a identidade da essência do espetáculo, a lisérgica luminotecnia cênica induz o espectador a acreditar que ele comunga das alucinações de Hilda – dessa forma, convalescendo com a personagem em meio a um inconsciente que não lhe pertence e compartilhando de um divã estilizado pela zebrada incidência de luz sobre o palco – efeito colateral do espetáculo induzido pela dupla de designers de luz, Fernanda e Tiago Mantovani. A percepção sonora musical que complementa a da verbalização, também é cuidadosamente definida por Regina Miranda que – respaldada pela sua especialização e função à frente da direção artística do Centro Coreográfico do Rio de Janeiro e do Centro LABAN-RJ – define uma trilha debruçada na arte dos sons do compositor e intérprete da música eletroacústica - Rodolfo Caesar; do compositor espanhol, autor de diversas trilhas cinematográficas, incluindo produções de Pedro Almodovár – Alberto Iglesias; e do experimentalismo minimalista do grupo musical encabeçado por Philip Glass – Ensemble. O figurino de Beto de Abreu insinua a libido e os recalques nas variações freudianas dos personagens em processo de aceitação psicológica, imprimindo estilos que variam do clássico ao contemporâneo, complementado pelo dosado o visagismo de Uirande Holanda.
Na sessão em que o Circuito Geral confere a excelência do desempenho do espetáculo, é registrada uma fração da platéia como parte da sonoplastia, em função das esparsas e involuntárias manifestações de sintomas tais como tosse, pigarros, estalar de dedos e da compulsão pelos comentários entreouvidos, gerando com isso, uma síndrome que acomete à vulnerabilidade desses espectadores, possivelmente em função da impossibilidade de vislumbrarem respostas imediatas para aplacarem suas aparentes neuroses em potencial, durante os sessenta minutos de lirismo e de terapia presentes na sessão psicanalítica, travestida no espetáculo teatral - “Hilda e Freud”.


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