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sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Ibsen Venusianas


Uma realidade que pode ser a sua ou, até mesmo, do espectador sentado ao seu lado

As várias camadas de tinta que os dramaturgos Weydson Leal e Maurício Arruda Mendonça depositam em “Ibsen Venusianas” tem início em Cabo Verde, atravessa o Atlântico como num movimento livre de uma espátula até o Brasil – onde os pigmentos se fazem presente numa obra de arte viva, definida por uma paleta cromática que percorre a euforia da paixão, o egocentrismo da posse e o sofrimento diante do desgaste de uma relação – e ensaia seu final, de volta ao país insular africano. A dramaturgia é materializada nos palcos de forma quase pictórica, sob a direção de Moacyr Góes que – valendo-se de sua consolidada expertise e segurança que a sua trilha profissional, naturalmente, lhe confere – permite que a dupla de atores encarnem seus personagens e expressem suas emoções individuais pigmentadas pelo texto. Tânia Pires interpreta, com lucidez incontestável, a independente Milena –  atriz brasileira, produtora e estudiosa, em especial, da obra do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen que, ao lecionar em Cabo Verde, se apaixona pelo nativo Antônio - artista plástico obsessivamente dedicado ao seu trabalho – visceralmente incorporado por Vinicius Piedade, que transborda os limites do palco, como tintas lançadas a ermo por um punhado de trinchas,  todo o seu egocentrismo e a sua insegurança que, após dois anos de matrimônio com Milena, no Brasil, acaba por sufocar a individualidade e a carreira artística de sua cônjuge.

“Ibsen Venusianas” grita pela liberdade e pela igualdade dos direitos femininos através de caminhos que supostamente conduzem ao binômio amor e felicidade plenos, incondicionais e eternos entre casais.

A partir do conceito da cor como percepção visual proporcionada pela reflexão da luz, percebe-se a luminotecnia de Maneco Quinderé como o recurso cênico que alavanca a dramaticidade do espetáculo enquanto responsável pela explosão de cores presentes nos elementos cenográficos de Teca Fichinski, no figurino maculado de Carol Lobato e na sensualidade das marcas de tintas nos corpos dos protagonistas  - decorrentes, tanto dos impulsivos momentos de desejo mútuo quanto dos explosivos momentos de embate frente às discórdias – eleitas pelo visagismo de Hudson Lemos. Como uma instalação viva materializada a partir da sua concepção pelo quarteto técnico-cênico, os protagonistas percorrem, no tempo e no espaço, a forte tridimensionalidade sugerida por um perímetro formado por andaimes que definem o espaço do casal cuja personalização visa somente ao atendimento do que se julga ser prioridade para Antônio – simultaneamente, como um atelier de pintura para o desempenho de seu ofício e como um cativeiro onde, num primeiro momento, não se pode definir quem é o sequestrador e quem é o sequestrado mas, tanto um quanto o outro, aparentemente acometido pela síndrome de Estocolmo. A movimentação no palco que é fortemente influenciada pela dominância masculina – sem com isso, desvalorizar a luta pelos anseios femininos – caracteriza o relacionamento entre amantes e estimula o florescimento psíquico de ambos, genuína e intensamente. Apesar da carga dramática das cenas, percebem-se suavidade e delicadeza no semblante dos personagens, a despeito das marcas de expressão sugeridas ao espectador pelo simples ato de se entregarem ao texto com total empenho. O espectador, diante da clausura fragmentada de Milena e Antônio, é pego de surpresa pela trilha sonora que imprime soft art nas idas e vindas da história, através de James Blake – com “Overgrown” e  “Retrograde”; e de Benjamin Clementine, com “Cornestone” e  “Condolence”.
Ao final de setenta minutos de apresentação de “Ibsen Venusianas”, o espectador se sente gratificado em ter pago o resgate do sequestrado e ter sido contemplado para o testemunhar a liberação do encarcerado – como se adquirido o direito de ingressar em uma galeria de arte e de se posicionar, de forma contemplativa, diante de uma obra mundialmente consagrada – tempo convenientemente dosado para não ser dragado pela carga dramática expelida pelo casal, mas suficiente para permitir levar consigo as impressões de uma realidade que pode ser a sua ou, até mesmo, do espectador sentado ao seu lado.



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