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domingo, 6 de dezembro de 2015

Idéia Fixa


Amor, paixão e dúvida


Amor, paixão e dúvida – três sentimentos voláteis e transferíveis em atendimento à conveniência dos personagens do espetáculo “Idéia Fixa”, cujo texto, assinado por Adriana Falcão, retrata o estado de duas mulheres e um homem que não percebem, ou preferem não perceber, que os limites em que se encontram é pequeno demais para o tamanho de seus desejos.

A direção de Henrique Tavares retrata – com a clareza antagônica à cena em que se passa o drama – o egocentrismo arraigado em cada personagem, e a patologia da paixão – enquanto corpo e mente transitam em uma viagem temporal e passageira cujo roteiro é de total responsabilidade de cada um dos três protagonistas: Guta Stresser - que incorpora a personagem compromissada em formatar seus ideais sobre o amor verdadeiro, mas que acaba por perceber o tempo perdido com uma paixão que se tornou amor e que desaguou na dúvida; Sílvia Buarque – que se entrega à personagem desapegada e consciente de que o ser cultuado é apenas um produto de sua imaginação e não de carne e osso; e Rodrigo Penna – que assume ser a fonte de ciúmes, de insegurança, de egoísmo, de paixão, de amor e de dúvida.


O projeto de luz de Beto Bruel define seus focos com base no simbolismo e na virtualidade, aplicando suas apaixonadas e protetoras pinceladas lumínicas aos elementos que contemplam o projeto cenográfico de Ronald Teixeira, mais do que sobre os protagonistas – um caminho de folhas secas proveniente de uma trajetória indefinida, até uma mandala formada por revistas dispostas harmoniosamente no chão, definindo a base do drama; uma espiral formada por um bambu mossô aparentemente sem vida, definindo o espaço aéreo sob o qual pairam as dúvidas, as incertezas e o egocentrismo; delimitando o conjunto, as grades de uma gaiola são materializadas num modo intermitente pelos focos de luz concêntricos provenientes da gambiarra, bem acima da percepção dos espectadores – conjunto esse que delimita o universo no qual os personagens se aprisionam. Teixeira também assina o figurino, despojado, roto, esmaecido e envelhecido, em conformidade com o passar do tempo como se guardado numa gaveta ou esquecido dentro de um armário, tal e qual as vidas dos protagonistas, em curso pela acomodação e pelo conformismo. Tais condições são complementadas pelo visagismo de Chico Toscano que neutraliza as suas intervenções no semblante dos personagens, em especial nos de Guta e de Sivia, que ora aparentam serem imersas em ingenuidade infantil, ora mulheres amadurecidas e prontas a se entregarem à paixão incondicional. Preenchendo o apelo sensorial da dramaturgia, a trilha sonora de Penna e Ricco Vianna disciplina a razão a ponto de torná-la infalivelmente desapegada dos personagens, como uma paisagem sonora fora da lumínica gaiola virtual, de forma imperceptível aos ouvidos dos menos atentos às preciosas sutilezas inseridas no contexto das cenas de “Idéia Fixa” por um amor aprisionado e sedento por liberdade. 


fotos: assessoria de imprensa

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