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sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Labirinto


Os recursos cenotécnicos valem por todo o espetáculo

A vida – labirinto onde se nasce, se aprende, se falha e se retoma o curso natural pela sobrevivência, enquanto o fio condutor que conduz à saída estiver íntegro e ao alcance das mãos; uma rede de caminhos que se intercomunicam e que se auto bloqueiam, configurando uma infinidade de escolhas que podem ser encaradas como livre arbítrio com a possibilidade de condução a um outro labirinto – o da consciência do ser.

A peça teatral “Labirinto” é estruturada na fundamentação de formas, de energia e da funcionalidade no ato de levar ao público uma história consagrada, com raízes na mitologia grega - mais uma versão para o célebre embate entre Teseu e o Minotauro, através de um formato eminentemente sensorial. Ao longo de toda a apresentação, as cenas de “Labirinto”, repletas de recursos técnico-cênicos, se transformam diante dos olhos da platéia. Mais uma vez, a associação de um desenho de luz a um projeto cenográfico transcende a simplicidade da coexistência de um dispositivo iluminador e um elemento a ser iluminado. No caso de “Labirinto”, esses se mimetizam em um sistema único, gerador de luz sobre si mesmo e generoso, porém dramático compartilhador de luzes com os atores. A transformação do invisível no imaginável e do visível no sugestivo dedutível possibilita a exploração de possibilidades de percurso de novos caminhos a serem descobertos por aqueles que se encontram no labirinto, driblando os riscos de uma seletividade da natureza que possam ser ameaçadores à vida. A partir dessa composição, fachos de luz assumem densidade de volumes prismáticos que duelam com os personagens, caracterizados e revelados com essência mitológica e forte veio contemporâneo, através de suas vestes e maquilagem e diante de uma constante alternância de cenas artísticas. Por um lado, o espectador tem sua visão permeada pela luminotecnia de Renato Machado, pela ambientação cênica de Brígida Baltar, pelo figurino de Paula Stöher e pelo visagismo de Rafael Fernandez; por outro, tem sua audição fortemente estimulada, com qualidade raramente detectada em um espetáculo dessa natureza, tamanha a sua veia experimental. Praticamente todo o espaço sensorial não ocupado pelo estímulo visual parece ser preenchido com uma gama de ruídos das mais diversas frequências – que exercem forte influência sobre as ondas cerebrais do espectador, que podem transitar entre a total placidez ao impacto profundo capaz de devolver aquele que casualmente tenha sua atenção dispersada do foco do espetáculo, por motivo qualquer. A trilha sonora e direção musical de Cadu Tenório e Rômulo Fróes são inseridas como se reverenciassem o mal de forma tridimensional, cegando as mentes dos envolvidos e impedindo-lhes acesso à consciência universal. Como se através de técnicas ilusionistas, o campo de visão do espectador sofre variações de acordo com os diversos formatos e tridimensionalidade assumida pelas cenas, posicionando e esculpindo os personagens de forma quase pictórica pela preparação corporal de Toni Rodrigues e Carol Franco, que resumem a simplicidade do certo em uma perfeita justificativa em prol da ignorância incrustada em cada um dos aprisionados no labirinto.

Alcemar Vieira, Otto Jr. e Paula Calaes compõem o elenco de “Labirinto” – espetáculo e que brota da necessidade de conceder voz àqueles que nunca tiveram – segundo o texto original, cuja adaptação leva o espectador a sessenta minutos de compensadora contemplação visual e auditiva, que acaba deixando em segundo plano, o proferimento do texto de autoria de Alexandre Costa e Patrick Pessoa. Apesar da excelência da direção de Daniela Amorim, por se tratar de um produto voltado, especificamente, para os adoradores dos sarais culturais e de apresentações verborrágicas, se torna um volume demasiadamente pesado para ser carregado sala de espetáculo afora, em companhia do espectador, para ser dissecado e debatido sob a forma de lazer, mas somente eventual exercício para o intelecto que não chega a termo, tal e qual a busca por uma saída de um labirinto – onde os recursos cenotécnicos valem por todo o espetáculo.

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