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domingo, 13 de dezembro de 2015

Mamãe


No limbo entre palco e realidade

Para alguns, a morte não passa da extinção definitiva da alma e do início de um processo progressivo da deterioração do corpo. Para outros, trata-se do perecimento da carne e o início de uma nova jornada da alma junto ao mundo dos espíritos. Dentre essas e várias vertentes sobre o real significado da morte, eis que surge o desabafo de Álamo Facó em forma de um espetáculo teatral intitulado “Mamãe”, demonstrando reconhecer o bem e o belo inseridos em meio ao inatingível mundo dos sentimentos. Também dá vida ao corpo independente da alma imutável de sua progenitora e o configura como simples lembrança da vida, em uma interpretação orgânica na qual o seu corpo é sua máquina de guerra – desempenho esse respaldado e trabalhado criteriosamente pela direção de movimento de Luciana Brites.

Trata-se da história da arquiteta Marpe Facó, acometida por um tumor no cérebro, descoberto em 2010 e que, em exatos cem dias em meio a sintomas, diagnósticos e internações, transmutou-se em apenas um instante de progressão fatal, definida para aqueles que continuaram a viver – o fim da indefinição sobre a duração da existência. Nessa empreitada, Facó divide a direção do espetáculo com o fundador, ator, diretor, produtor e cenógrafo da Companhia dos Atores – César Augusto. Juntos, lançam luzes sobre a imortalidade das idéias, sobre os reflexos decorrentes dos desejos, e sobre a luta inglória de não se viver o momento presente, preservando tal vivência para um tempo futuro que, em dado momento, poderá ser diagnosticado como perdido para sempre. A trilha sonora assinada por Facó, em parceria com o músico, compositor e produtor carioca – Rodrigo Marçal, é instintiva como “Summertime” interpretada por Janis Joplin, mas ao mesmo tempo tende mostrar o “caminho” que todo ser vivo, um dia, é fadado a seguir, depois de sua morte ou passagem – à vontade do freguês. A suprema liberdade demonstrada por Facó, sobre todas as possibilidades utópicas para o final do espetáculo, ganha força exatamente pela simplicidade do figurino concebido por Ticiana Passos. Angústia, rejeição, desvio de caráter, limites da sujeição e a revolta contra vícios de um sistema aético são ações e reações vivenciadas pelo autor e protagonista de uma realidade retratada durante os derradeiros dias junto ao leito hospitalar de sua mãe. De forma compactada, a cenógrafa e diretora de arte Bia Junqueira, registra a falta de zelo por parte de uma fração de profissionais e a arrogância de quem deveria ser mentor de cura, depositando no palco elementos cenográficos sombrios, incolores e assépticos que transmitem a frieza da história de Marpe, a começar pelo seu fim. Com a fluidez de um rio que percorre os meandros de um relevo, o desenho de luz de Felipe Lourenço abrilhanta o que lhe falta reflexo, pigmenta o que lhe falta cor, sombreia o que lhe falta caráter, ilumina o que lhe falta clareza e contrasta a carência da vida pelo que lhe deveria ser justo – fim do espetáculo.

Despindo-se do personagem, Facó se despede da platéia em meio a um desabafo, como se no limbo entre palco e realidade – nominando a instituição hospitalar na qual deposita sua repulsa pela falta de empenho por parte dos profissionais que deveriam ter se debruçado frente ao quadro clínico de Marpe; discorrendo sobre a história que envolve um enorme inseto lepidóptero que se faz presente em meio ao nada e a surpreendente reação de seu filho frente ao porta retrato que abriga a foto de sua avó; concluindo que o quase intransponível muro da crença pode ser escalado e que, ao se enxergar o outro lado, não mais se faz necessário perguntar que tipo de “pessoa” aquela “doença” tem.

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