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quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

O Hóspede



A perfeição, apesar de ser possivelmente bela, também pode ser amarga


Passamos a vida cruzando com indivíduos os quais nunca atravessam nossos caminhos uma segunda vez; também nos deparamos com indivíduos que invadem nossas vidas sem termos a real noção de onde vieram, sequer a direção que o destino os reserva – mistérios da existência, muitas vezes justificados a partir de explicações mágicas e ilusórias mas que, no final das contas, a relevância dos fatos se encontra, muito mais na essência das ocorrências e muito menos nas suas causas e consequências.

Um típico lar burguês, figurativamente estabelecido numa grande residência composta por dezenas de aposentos, abrigando um casal – formado por um homem e por uma mulher; um casal de filhos – cujas idades são aparentemente indefinidas; e uma empregada – configurando um núcleo familiar que se expõe ao público no espetáculo cujo texto e direção são de autoria e de responsabilidade do dramaturgo e diretor Francis Mayer –  sob a livre inspiração no filme “Teorema”, de Pasolini, ao conceber “O Hóspede”.   

Eleito por Mayer para assumir a narrativa da história, Vinicius Vommaro se entrega ao texto, de forma tão sedutora quanto a que o símbolo da iconografia de São Sebastião costuma ser retratado no ato de sua execução e morte pelos corações enfraquecidos diante de torturas – dessa forma, agindo como catalisador dos acontecimentos que se tornam focos da visão e da audição do espectador, e o conduzindo ao mais profundo e obscuro âmago do seu ser. O paralelo entre a família para a qual trabalha e a sociedade em que vive é traçado de forma precisa por Elisa – a empregada – interpretada por Luciana Albertin, com a sagacidade de um delator que se apropria do prato que come e da cama em que dorme em prol de si mesmo. A imagem opressora de um pai, cujo currículo de vida sexual a define como infrutífera, é projetada no palco através da dramática fragilidade com que Regis Farah personifica Antero. Esposa reprimida por um casamento desgastado, possivelmente, desde a sua união com Antero, em paralelo ao seu papel de mãe repleto pela aridez afetiva junto à sua prole, Flavia Maria Santa traz Laura à luz da vida como ela, de fato, o é. Estudioso e extremamente sensível, Felipe Salarolli incorpora o semblante e a insegurança do filho mais velho – Michel – passivamente à espera de algo que lhe arraste de sua inércia diante de seus desejos fortemente reprimidos. Sua ausência no mundo real, sua constância no mundo virtual e seu vazio frente aos seus ideais fazem de Ornela – a filha mais nova de Laura e Antero – um desafio para Izabella Guedes, que desempenha sua personagem numa amplitude que se estende desde a ingenuidade infanto-juvenil até a sensualidade de uma ninfeta.

O simbolismo perceptível para aqueles que assimilam o texto de Mayer – com a sede pelo desvendar da qualidade no conteúdo daquilo que consomem culturalmente – é evidenciado ao longo dos cem minutos de espetáculo. Símbolo que se faz presente como a imperfeição latente e caustica citada por Arthur Rimbaud – “Uma noite, sentei a Beleza nos meus joelhos – E achei-a amarga – E injuriei-a”. Em “O Hóspede”, Mayer deixa claro que a perfeição, apesar de ser possivelmente bela, também pode ser amarga. E de maneira dócil, gentil e sensual, Lucas Malvacini assume, icônica e misteriosamente, o hóspede – personagem que invade a intimidade cada um dos personagens, com a simultaneidade que o timing teatral define como possível de ser assimilado por parte da plateia, em cada um dos quartos habitados daquela enorme casa, e que faz ruir a estrutura daquela família construída a partir de um modelo almejado por tantas e viável por tão poucas – praticamente, nenhuma.

A catarse definida como o início de uma nova vida, escolhida por cada membro daquela família, presenteia o espectador que se depara com um espetáculo repleto de conteúdo e que demanda reflexão sobre o seu preparo e sobre a sua capacidade de convívio com a eventual materialização de algo com que, um dia, sonhou e que ainda anseia. Diante de um cenário que nos remete a um cadafalso, onde todos transitam como se cientes de que, a qualquer momento, o chão é passível de se abrir, bem debaixo de seus pés – anunciando que, aqui ou ali, jaz mais um enforcado. O desenho de luz que esculpe tanto a perfeição quanto a imperfeição, necessariamente presentes no palco; o projeto cenográfico repleto de simbolismo; o figurino, despojado e provocante, meticulosamente definido para cada personalidade desenhada pelo texto; e a trilha sonora, sombria e marcante, enfatizando o desempenho de cada personagem e respectivos dilemas – também ficam por conta da capacidade intelectual produtiva e da seletividade de Mayer.

Durante o espetáculo, o espectador incauto é capaz de se permitir reagir das mais variadas formas diante de tantas cenas contemplando suposta exacerbada exibição de libertinagem e permissividade, movido por uma equivocada interpretação sobre o que, de fato, representam o hóspede e cada um de seus hospedeiros. Objeto de tantos desejos, o personagem vivido por Malvacini se encontra disponível nas áreas comuns da habitação daquele núcleo familiar e que, acaba, de certa forma, sendo aliciado por cada um de seus membros, pelo simples fato de estar, passivamente, acessível a qualquer um deles – até mesmo para qualquer um dos presentes na plateia. A partir de tal premissa, o bizarro mundo inserido no espetáculo “O Hóspede” se torna, indubitavelmente, coerente, enquanto representa a fusão da divergência entre utopia e desejo palpável na pluralidade de cada ser humano, o que torna o protagonista um fato real, diante do qual o espectador também se torna capaz de conduzi-lo de acordo com seus próprios desejos. 

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