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quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Race


O confronto comparativo dos “iguais” – totalmente distintos

Nunca é demais, mas sempre oportuna, a reflexão sobre consciência – da que se baseia na ciência para explicar o que ainda não tem explicação; da que atua na psique humana; da que crê no corpo e na alma; da que tem a moral ilibada; da que distingue o certo e o errado com precisão cirúrgica; da que evolui com o passar dos anos; da que faz os indivíduos se sentirem superiores, espiritualizados, solidários, pessoas de bem, moralistas e diferenciadas de seus semelhantes.

“Race”, texto assinado por David Mamet, desbrava um caminho que passa pelo contraditório para chegar ao que é, genuinamente, reconhecido por consciência humana. Trilhando o conceito ilusório de um modo de vida exemplar, Gustavo Paso, com sua direção maquiavélica, trabalha o confronto comparativo dos “iguais” – totalmente distintos.

“Race”, o segundo drama da trilogia Mamet – em composição com “Oleanna” e “Speed the Plow” – narra a história de Charles, um homem religioso, casado e com boa situação financeira, que acaba se apaixonando por uma jovem garota de programa, a qual ele ajuda em todos os aspectos. Ela o acusa de estupro e o leva a procurar o escritório de advocacia de TJ e Jack onde, com a participação da auxiliar Susan, dá-se início à construção da defesa de Charles. Personagens pretensiosos, banais, insensíveis e indiferentes às questões alheias que não somam aos seus interesses, são defendidos – com legitimidade, por Luciano Quirino e Heloísa Jorge, nos papéis de TJ e Susan, respectivamente – e  com distorções humanas, por Gustavo Falcão, incorporando Jack e Yashar Zambuzzi, interpretando Charles.

O cenário de Gustavo Paso e Luciana Falcon faz alusão a um escritório de advocacia, contudo, concebido num formato tão psicoativo quanto uma sala montada especificamente para fins inquisitivos.  Suas dimensões horizontais se perdem através do fundo infinito negro, enquanto que seu pé direito é sugestivamente limitado pelo parco espelhamento presente no piso e por telas de led que assumem o papel de um teto virtual – uma concepção que beira aos mais bem elaborados grafismos literários contemporâneos, agindo no cérebro do espectador de forma rápida e indolor. Falcon também assina o figurino imerso em idealismo tendencioso, com intenções que, de forma velada, se baseiam na violência moral. O desenho de luz Paulo Cesar Medeiros se insere ao alto nível dramático que o espetáculo se propõe, definindo precisamente o contraste e nuances dentre claros, escuros e penumbra que desenham personagens e elementos cenográficos. Uma peça de vestuário feminino flutuante em destaque lumínico e cromático – como se fora dos limites daquela realidade – é cuidadosamente manipulado a seis mãos por Paso, Falcon, e Medeiros – cravado de lantejoulas, essencial ao desenrolar da trama. A trilha sonora de Andre Poyart agiganta, progressivamente, cada uma das cenas dando forma corpulenta ao drama, aparentemente contemporâneo, mas com raízes no colonialismo.

Diante dos simbolismos lançados em meio à sala de espetáculos travestida em um figurativo subconsciente obscuro – cujos limites são desprovidos de luz, de cores-luz, como se absorvendo todos os raios luminosos, sem qualquer reflexão efetiva e, consequentemente, carente de clareza – “Race” nocauteia o espectador que cultiva uma postura reacionária despolitizada, alienada, que valoriza a superioridade moral em nome da raça sem preconceito e que mantém a consciência tranqüila, pelo simples fato dessa consciência também ser desprovida de cor.

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