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domingo, 24 de janeiro de 2016

Assim Como Nós


Acaba por definir, involuntariamente, uma seleção natural de seu público

Cenas do cotidiano – a prosa entre a caixa de um supermercado de qualidade duvidosa e uma de suas clientes, até que ambas se dão conta que não são tão diferentes quanto parece, ainda mais quando se trata de economia nas compras; a exposição da visão antropológica de um taxista, por ele mesmo, ao receber uma chamada de corrida por uma mulher totalmente influenciável; o excesso de zelo de uma desatenta profissional da saúde ao informar à sua paciente sobre o seu estado terminal; a avaliação pejorativa de duas mulheres sobre os traidores na esfera dos relacionamentos, enquanto traição é tomada pelo mundo masculino como parte integrante da natureza do homem; a busca pelas medidas ideais por um corpo perfeito contada por uma viciada na matemática das calorias e que, ao final das contas, acredita não ter ingerido qualquer valor calórico após ter se alimentado; a manifestação de um surto de TPM comparado a um acometimento de transtorno dissociativo de identidade – vulgo dupla personalidade; a vida de uma fashionista influenciada por uma vendedora de moda feminina; o smartphone vendido como acarajé no tabuleiro de uma baiana; a lei da oferta e da procura aplicada por uma vendedora de canivetes suíços; o espiritismo apresentado como algo perturbador e como uma carga adicional para aqueles que permanecem encarnados; a vida à dois quando só o ódio floresce em meio ao conformismo; o desejo de não mais pensar em alguém que não se dá conta de sua existência, mas que insiste em ser lembrado por terceiros; uma entrevista durante a qual à entrevistada não é permitido proferir qualquer palavra que possa influenciar negativamente o  público, o patrocinador, o governo, as religiões e tudo o mais que possa ser levado em consideração pelo espectador do programa que faz parte da grade da emissora; o medo e o pânico colocados lado a lado; a revelação do amor de uma “secretária do lar” por sua patroa, e vice-versa – compõem os esquetes do espetáculo “Assim Com Nós”.

Sexta-feira, dia 22 de janeiro de 2016, o Circuito Geral se faz presente na sala Fernanda Monte Negro do Teatro Leblon – Rio de Janeiro, em meio a uma plateia atenta ao desempenho do trio de humoristas formado por Sandra Pêra, Bia Guedes e Claudio Torres Gonzaga – este, assinando a direção do espetáculo, lhe concedendo um dinamismo atual e uma incomparável transição entre os esquetes. Com isso, Gonzaga expõe as neuroses e desvios de caráter daqueles que vivem em uma metrópole estressante, desgastante, consumista, hipócrita e defasada de amor, como um quebra cabeças que culmina em um final digno de emolduramento. Em função disso, o espetáculo assume, aparentemente, um viés limítrofe a uma crítica sociológico comportamental, debruçada na banalização da neurose urbana, fazendo com que o espectador reflita, a cada um dos esquetes, de imediato e de forma realística, se permitindo deixar de lado a sua manifestação pela comédia, dando preferência à assimilação do conteúdo do texto – fruto de um trabalho coletivo de diversos autores, dentre eles: Adriana Falcão, Bruno Motta, Marcos Caruso, Tatá Werneck e Paulinho Serra – que define o formato no qual a civilização humana vem se transmutando.

O criativo e inusitado figurino de Flávio Mothé – além de atender à praticidade que o timing do espetáculo demanda, cumpre cem por cento a função de definir cada um dos personagens a cada esquete, muito mais do demonstrar o que estão vestindo – é concebido a partir de técnica que remete às brincadeiras com recortes de bonecos de papel, muito presentes em revistas dos anos 60-70, fazendo com que esse toque de ingenuidade se torne uma grata surpresa aos olhos do espectador. O projeto cenográfico é minimalista, porém dinâmico, em função dos acessórios multifuncionais cuja engenharia é capaz de torná-los objeto de desejo de qualquer apreciador pela excelência de design. As neutralidade cromática das superfícies poligonais sobrepostas, em muito, auxiliam no desenho de luz concebido com toque de dramaticidade que segue a linha da máxima “seria cômico se não fosse trágico”.

“Assim Como Nós” acaba por definir, involuntariamente, uma seleção natural de seu público, muito pelo fato de seu texto ser de autoria de expoentes de uma tipologia de humor crítico, fazendo com que os espectadores, em busca de humor de fácil assimilação, saiam da sala de espetáculos sem a tal saciedade capaz de levá-los à morte de tanto rir, mas carregando consigo uma incógnita sobre o que mais poderia ter sido oferecido para que pudessem ter achado graça do rosário de distúrbios sociais que acabaram de assistir, travestido num genuíno empenho de produção do gênero comédia.  


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