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sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Deus e o Diabo na Terra do Sol


A miséria e o fanatismo religioso fincados na sociedade nordestina

A miséria e o fanatismo religioso fincados na sociedade nordestina entre 1963 e 1964 são transportados para os palcos, na versão de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, pela Definitiva Cia. de Teatro, com base no texto que carrega toda a complexidade da visão de Glauber Rocha e Paulo Gil Soares sobre o tema. Conta a saga de um jovem casal incorporado por Guga Almeida – como o vaqueiro Manuel e por Tamires Nascimento – como sua esposa Rosa, que fogem para o Sertão após o assassinato de um coronel – interpretado por João Vitor Novaes – pelas mãos do vaqueiro, em decorrência de um desentendimento entre ambos, por conta de uma partilha de cabeças de gado. Coestrelando – Betho Guedes, Davi Palmeira, Guga Almeida, Hector Gomes, Jefferson Almeida, Paula Sholl, Raphael Marins e Marcelo de Paula.

A direção de Jefferson Almeida, também responsável pela adaptação do texto com a parceria de Tamires Nascimento, conduz a narrativa quase didática e com dinamismo escasso, combinando a miséria e o abandono de um povo na tentativa de induzir o público a uma reflexão social contemporânea – guardadas as devidas proporções que o tempo lhe faculta. A direção musical e sonoridade de Renato Frazão, integrante do trio de músicos que se apresenta em primeiro plano, juntamente com Michel Nascimento e Marcelo de Paula, reconstrói o coronelismo e o banditismo de uma época em que o latifúndio se confunde com a exploração da mão-de-obra escrava. A simplicidade estética e construtiva do cenário de Lia Farah e Rodrigo Norões, árida em sua essência, estampa um demasiado simbolismo temático e afasta os personagens do nordeste desenhado pelos mesmos, privando o espectador da paisagem que retrata a desesperança impregnada na obra de Glauber Rocha. O figurino e adereços de Arlete Rua e Thaís Boulanger consegue distinguir, com eficiência pragmática, a estratificação social do povo sertanejo retratada pelos coronéis, pelos bandidos e pelo povo sofredor. O desenho de luz assinado por Yuri Cherenm e Lívia Ataíde é responsável por toda a variação da atmosfera cênica, contrastando entre a ofuscante luminosidade característica da aridez nordestina e a dramaticidade presente nas cenas que incitam a violência e nas que transportam para o palco, as divindades do bem e do mal da tradição cristã.

Presente em uma das apresentações da temporada no Teatro João Caetano, no centro do Rio de Janeiro, o Circuito Geral se permite à leitura da grandiosidade da boca de cena daquela sala de espetáculos e toma a liberdade de externar a sua percepção de que a produção se enquadraria melhor em um palco de menores proporções, de forma tal que pudesse ser melhor preenchido pelas muitas vezes escassa presença de personagens em cena e pela escala cenográfica limitada a um grafismo simbólico como pano de fundo.

Tanto através da linguagem cinematográfica quanto através da teatral, “Deus e o Diabo na Terra do Sol” não se encerra em uma obra conclusiva, mas suas denúncias destacam e se sobrepõem a um enredo cujo final nos permite questionar se Manuel e Rosa, finalmente, alcançam o mar, ou se simplesmente, um dia, o desfrutarão em decorrência do cumprimento da profecia que anuncia que, um dia, o mar vai virar Sertão.


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