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domingo, 28 de fevereiro de 2016

Orgulho e Preconceito e Zumbis


Expectativa de que algo lógico e inteligente possa ser apresentado

Uma história, cujo início se dá com a eclosão de uma misteriosa e fulminante praga, transformando todos os contaminados em mortos vivos que mantém a capacidade da fala, o poder da palavra e a total consciência do que se tornaram – personagens e boa parte dos diálogos extraídos da obra literária de autoria de Jane Austen, transportados para o roteiro de “Orgulho e Preconceito e Zumbis”, assinado por Burr Steers, também responsável pela direção da película.

Em meio à ascendente comunidade de novos seres, constata-se o desenvolvimento de dois gêneros de zumbis – os que comem cérebros humanos e os que dão preferência a cérebros de porcos, devido a dogmas religiosos. Lily James, Sam Riley, Matt Smith e Bella Heathcote convencem nos papeis que retratam a Aristocracia Britânica, mas são incapazes de amenizar a narrativa lenta e exaustiva.

“Orgulho e Preconceito e Zumbis” apresenta indícios de que fora trabalhado visando a ser levado a sério. Fato contraditório, a faceta cômica, que poderia ter sido mais evidenciada na película, se esvai na expectativa de que algo lógico e inteligente possa ser apresentado ao espectador, tomado pelo torpor do sono – possivelmente, em função da metragem ter sido concebida de forma excessivamente longa.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

O Primeiro Musical a Gente Nunca Esquece


Musicais dentro de um único

Um dos maiores clássicos da propaganda, criado por Washington Olivetto em 1987, serve de inspiração para o nome do espetáculo que está em cartaz no Theatro Net Rio, até o dia 6 de março de 2016 – “O Primeiro Musical a Gente Nunca Esquece”.

A montagem, que conta com a consultoria criativa do publicitário, nada mais é do que uma aprazível viagem no tempo através da qual o espectador é presenteado com gratas lembranças de ícones da propaganda brasileira, tais como: “Banco Bamerindus”, “Cerveja Brahma”, “Cremogema”, “Brinquedos Estrela”, “Guaraná Antarctica”,  “Honda”,  “Supermercados Pão de Açúcar”, “Varig”, “Valisère”, dentre outros, mesclados a sucessos consagrados dos musicais “A Noviça Rebelde”, “O Mágico de Oz” e “Sweet Charity”. 

O despojamento presente no texto e na direção de Rodrigo Nogueira permeia as mentes dos espectadores, preenchendo seus corações com a magia e a alegria transmitida pelos personagens incorporados por um elenco visualmente engajado com a essência do espetáculo, estruturado por Amanda Acosta, Bia Montez, Carol Botelho, Debora Polistchuck, Fabiana Tolentino, Hugo Kerth, Junior Zagotto, Leandro Melo, Leilane Teles, Marcelo Ferrari, Marcelo Varzea, Pedro Arrais e Reiner Tenente. Em meio ao brilho de toda a trupe, o Circuito Geral toma a liberdade de destacar, em especial, o desempenho de Montez, no papel da “coroa moderna” que conquista o público com sua irreverência e com seu carisma. A coreografia de Rodrigo Neri e Priscilla Mota explora os quatro cantos da boca de cena, concedendo ao espetáculo dimensões proporcionais aos sucessos das marcas e dos espetáculos que fazem parte do show. Jackson Tinoco concebe um cenário que dá boas vindas a todos da plateia, em um lar repleto de crises de relacionamento, distribuídas em dois andares onde se desenrolam disputas ente valores sentimentais e ambição profissional. A direção musical de Tony Luchessi define, brilhantemente, uniformidade melódica ao espetáculo costurado por jingles e trilhas sonoras que contam a história do casal e de sua família com tamanha coerência, como se as peças musicais tivessem sido criadas especialmente para o espetáculo. A banda, ora oculta ora visível, abrilhanta os números e tomam parte das cenas, muitas delas, repletas de emoção. Musicais dentro de um único, não poderiam dispensar a qualidade do desenho de luz assinado por Adriana Ortiz, técnica, plástica e engenhosamente concebido. O figurino de Paula Acioly dispensa ostentação e se adéqua, como uma luva, a indivíduos com os quais o público se identifica, diante das imagens e dos sons transmitidos pela sua TV ou pelo seu rádio, sonhando, desejando e viajando em suas verdades inventadas.

Sonho de consumo e sonho por um final em que “felizes para sempre”, muitas vezes, só é real em um anúncio de margarina, travam uma intensa batalha em “O Primeiro Musical a Gente Nunca Esquece”, ao contar a história de um publicitário que respira negócios e de uma dona de casa que passa a vida imersa no mundo da fantasia, através da qual, por meio de linguagem lúdica, Nogueira deixa um legado a ser refletido sobre o que, de fato, é importante na vida de cada um dos presentes, tanto no palco quanto na plateia.


terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Boneco do Mal


Atmosfera de suspense supera a de terror 

Dada a largada para os filmes de terror e suspense de 2016, a indústria cinematográfica lança “Boneco do Mal” que, a partir de um roteiro simplório de autoria de Stacey Menear, conta a história de uma jovem interpretada por Laura Cohan, que para fugir do namorado que a violentava aceita trabalhar como babá para uma família bem excêntrica.

O produto decorrente da combinação entre a mórbida e escurecida ambientação do filme e da direção anêmica de William Brent Bell apresenta uma trama cuja atmosfera de suspense supera a de terror. Compensando a falta de motivos genuínos capazes de provocar os esperados impactos, sustos e pulos nas poltronas das salas de projeção, característicos dos filmes do gênero, a trilha sonora de Bear McCreary colabora bem mais do que as cenas nas quais estrelas, como Jim Norton e Diana Hardcastle, fazem de tudo um pouco para que o espectador acredite no inexplicável modo de vida do casal Heelshire e de seu filho, o boneco.

Para os apreciadores das películas de terror, “Boneco do Mal” não vai além de uma produção esquisita com características bem próximas de uma comédia sem graça.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Master Class


Uma Medeia de Cherubini

A atual montagem do espetáculo “Master Class” tem a honra de ter como fiel depositária do papel da cantora lírica Maria Callas, a atriz Christiane Torloni. Em plena maturidade artística e detentora de beleza singular, Torloni transporta a plateia para os idos anos 70 quando, a protagonista ministra vinte e três aulas de duas horas cada, no auditório da Juilliard School em Nova York, e cujas vagas devem ser preenchidas após a submissão dos inscritos à sua severa e criteriosa seleção.  

O texto de Terrence McNally retrata Callas como uma Diva impiedosa, fria e cruel – muitas vezes, grosseira, egocêntrica e, sugestivamente, acometida por sérios problemas de ordem psicossocial. Como um fiel da balança, a direção de José Possi Neto, ao mesmo tempo em que fideliza a leitura da personalidade da exterminadora de sonhos de McNally, resgata todo o charme de Torloni com o intuito de conceder à protagonista o apelo que lhe falta para conquistar a plateia, em meio as árias de Bellini, Puccini e Verdi. Com o mesmo afinco, Possi Neto Bellini azeita o desempenho do elenco coadjuvante composto por Bianca Tadini, Leandro Lacava, Juliane Daud, Thiago Rodrigues e Jayane Gomes Paiva de forma tal que, por mais que lhes faltem a necessária munição contra a artilharia de Callas, acaba por seduzir o espectador com seu carisma e talentos inatos. O cenário de Renato Theobaldo remete à pompa de um auditório de uma instituição do porte da Juilliard School, em franca simbiose com o desenho de luz de Wagner Freire. O figurino assinado por Fábio Namatame e por Claudeteedeca contrasta a caricatura com que desenha os personagens coadjuvantes com a elegância e suntuosidade do estilo de Callas.

Embora o espetáculo não demande da protagonista qualquer demonstração de seu desempenho vocal, “Master Class” presenteia a plateia com a manifestação lírica dos demais personagens e domina a fluência do discurso com texturas rítmicas e descritivas, acumulando e descarregando, junto à plateia, a tensão decorrente da aspereza harmônica da personalidade terrível, vingativa, ameaçadora e premonitória de uma Medeia de Cherubini.


sábado, 20 de fevereiro de 2016

Deadpool


Uma instigante, maliciosa e, anarquicamente, deliciosa metalinguagem

A quem interessar possa: conselhos para os cinéfilos que se dignem a assistir “Deadpool”: deixar de lado preconceitos, moral ilibada, mau humor e se permitir sair da área de conforto, certo de que se esteja assistindo, simplesmente, a mais um filme de super-herói. A direção de Tim Miller permeia a falta de seriedade do personagem pela mente do espectador ouvinte, em meio às cenas de extrema violência, palavras de baixo calão e sexo, tudo mastigado e cuspido aleatoriamente por Wade Wilson, que encarna no corpo de Ryan Reynolds, após tê-lo feito em “X-Men Origens – Wolverine”. 

"Com grande poder vem grande irresponsabilidade” – frase que estampa o trailer do filme – radiografa o enquadramento do roteiro, assinado pela dupla Rhett Reese e Paul Wernick, no rol das comédias ácidas e cheias de referências que só irão despertar graça naqueles que conhecem, intimamente, o mundo Marvel dos quadrinhos e do cinema. O longa se desenrola em uma única sequencia, mas em quarta parede – conforme nos HQs de Pool – que mantém o espectador em condição passiva, mas de suma importância para o personagem, pois mantém uma história fictícia dentro da realidade fora da tela, definindo uma agilidade nada linear, mas que no conjunto da obra torna-se uma instigante, maliciosa e, anarquicamente, deliciosa metalinguagem.

Conta a história do assassino de aluguel Wade Wilson que, após descobrir o amor ao lado da prostituta Vanessa Carlysle – interpretada por Morena Baccarin, se descobre com câncer e, para não morrer e deixar o seu amor na solidão, ele aceita uma proposta de cura alternativa, que o desfigura e o deixa com grandes poderes. A partir daí, tudo giram em torno do desejo de vingança contra Ajax – por Ed Skrein, responsável pela transformação de sua vida num experimento.

A mesma certeza de que “Deadpool” se trata de uma obra de ficção – expondo ao espectador às falhas do roteiro, criticando a arte no qual ele faz parte e a avacalhando a filosofia de super-herói – só contribui para que a franquia consolide e que este sirva de ponto de partida para que a estratégia não vista calça marrom pois, segundo Pool, a cor só ajuda a disfarçar os fundilhos das calças borradas quando se passa por estado de grande tensão – o que não ocorre em “Deadpool”.


sábado, 13 de fevereiro de 2016

O Impecável


Um espetáculo conceitual

A partir da concepção de Marcus Alvisi e do texto de Charles Möeller e Claudio Botelho – “O Impecável”, Luiz Fernando Guimarães dá vida a oito personagens em um salão de beleza onde, espectadores constatam a ratificação da máxima que proclama que nem tudo que é bom é belo. O espetáculo espelha, com dose certa de harmonia, a manifestação da imperfeição em cada um dos personagens e da sua incapacidade de provocar qualquer tipo de interesse em suas histórias de vida – atributo da direção esteticamente objetiva, também assinada por Alvisi.
Guimarães, exímio condutor de situações constrangedoras através dos papéis que assume, extrapola o nível de embaraço provocando na plateia uma receptividade ao humor praticado no palco que tangencia a vergonha alheia. A concatenação dos personagens desprovidos de adereços, mas apenas através da alternância de vozes e do desempenho de movimento de Guimarães, dirigido por Sueli Guerra e Alessandro Brandão, desperta nos espectadores a necessidade de virtualizar um universo de ideias imperfeitas lançadas por indivíduos indesejáveis que possam ter passado, que passam e que ainda venham passar pelas suas vidas, no estabelecimento denominado “Impecável Beauty” – supostamente lotado, onde a verbalização simultânea põe à nocaute qualquer tentativa de diálogo entre pessoas civilizadas.
O cenário de Natália Lana sugere um espaçoso estabelecimento de estética composto somente por uma singular estação de trabalho e por um balcão de atendimento – que pode se situar em qualquer uma dentre inúmeras galerias decadentes situadas no submundo do bairro de Copacabana. Nele se desenrolam momentos do cotidiano da vida sem graça do faxineiro religioso e da vida “fácil” de sua filha,  da inércia do atendente preguiçoso, do inconformismo do cliente assíduo e seus problemas existenciais junto à balança, da carência de identidade do cabeleireiro que se auto denomina hétero, da frustração profissional do hairstylist que sonhava ser DJ, da acomodação do solteirão que ainda vive sob a saia de sua progenitora, e da prepotência da dona do salão – totalmente esticada pelas intervenções cirúrgicas que vem se submetendo em nome da perfeição do corpo e da face. A iluminação de Carlos Lafert engloba todos os padrões coerentes dos personagens, apostando no espectro que oscila entre as cores quentes e frias que mais fazem do salão um cafofo que acolhe tudo o que há de mais grotesco em um ser humano.
Diante do exercício da miscigenação desnuda de cultura e de hábitos populares, a obra de Möeller e Botelho levada ao palco, pode ser tomada como um espetáculo conceitual, conduzindo o espectador à reflexão sobre o que de fato lhe está sendo entregue como passível uma comédia, ou mera constatação de personalidades constrangedoras que podem estar, a qualquer momento, em qualquer salão voltado para a estética humana.


terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

A Escolha


Falta de originalidade 


A falta de originalidade do longa metragem “A Escolha” é estampada no patchwork formado por fragmentos das obras do seu autor – o escritor, roteirista e produtor estadunidense, Nicholas Sparks: uma mulher que se encontra comprometida em um relacionamento – interpretada por Teresa Palmer; um homem que mora ao lado daquela mulher – vivido por Benjamin Walker; a mulher que não gosta de seu vizinho, em um primeiro momento; um cão que é de propriedade dele e uma cadela que é de propriedade dela; a cadela que aparece prenha e a mulher que se indispõe com o dono do cão, acusando o animal de ter copulado com a cadela; a mulher que descobre estar equivocada ao ter acusado o cão de ter emprenhado a cadela; a mulher que se vê envolvida com o homem e que se depara com a necessidade de escolha entre este e o homem com quem já tem um compromisso. Prologando os desentendimentos adicionais entre os protagonistas, as cenas tomadas em hospital e a última chance de se encontrar a felicidade, a série de clichês delineada trata-se, nada mais, nada menos, da articulação inicial do roteiro do longa metragem dirigido por Ross Katz.


A obviedade também é parte integrante do roteiro que, na melhor das hipóteses, consegue comover somente fãs do autor, movidos, na pior das hipóteses, por puro fanatismo.


Guilherme Arantes


Um artista que se perpetua há gerações

Em meio ao breu que domina o palco do Theatro Net Rio, na noite de 1º de fevereiro de 2016, Guilherme Arantes e seus teclados se fazem presentes pela dramática projeção da luz cênica, concentrando toda a atenção da plateia na interpretação de seus sucessos consagrados e de muitas músicas que compõem os lados B de seus discos, como se, para muitos, se tratassem de novos lançamentos.

Com a mesma candura presente em sua voz de 40 anos atrás e com efeitos sonoros sintetizados compatíveis com aqueles emitidos pelos instrumentos das versões originais de suas músicas, Arantes lança “Pérolas de Neon” sobre a plateia, como abertura de uma trilha sonora que embala toda uma legião de fãs, formada, em sua maioria, por integrantes com idade acima de cinquenta anos.

A paixão de Arantes pela Cidade do Rio de Janeiro é externada ao entoar “Oceano de Amor” que fora gravada pelo grupo “Os Cariocas” e, após qualificar o calor do Estado do Rio de Janeiro como ainda mais intenso do que o da Bahia, manda ver com “Sob o Efeito de Um Olhar”.

De forma surpreendente, Arantes se mostra como exímio contador de histórias e interativo com a plateia, de forma contrastante com a timidez pela qual sempre fora reconhecido. E graças ao desabrochar que os anos de vida lhe concedeu, Arantes encanta e domina o espectador durante os quase cento e oitenta minutos de espetáculo, retratando sua carreira através das quarenta e oito canções do playlist.

Ovacionada por vários minutos pela plateia, “Amanhã” – que fez parte da trilha sonora da novela “Dancin’ Days” de Gilberto Braga, por exigência do próprio dramaturgo – segundo Arantes, foi a razão de seu retorno à gravadora Som Livre. Em meio às suas divagações, declara não acreditar na existência de “música lixo”, mas de “música utilitária” – termo este utilizado por ele mesmo nos idos anos noventa – e apresenta “Soon”, do grupo “Yes”, continuada por “Oceano”. A canção “Êxtase” pega o público de surpresa, assim que os primeiros acordes se fazem presentes, provocando uma avalanche de aplausos.

Pouco a pouco, a penumbra presente durante o início do espetáculo, como se em uma tentativa de acalentar a plateia ávida por seus hits mais conhecidos, acaba se transformando em um sol do meio dia com a apresentação de “Brincar de Viver” e de “Pedacinhos” – sob acompanhamento vocal e aplausos da plateia. Sua amizade com Nelson Motta também foi objeto da exposição de sua trajetória como compositor, cantor e instrumentista de teclados e para a explicação da origem de “Coisas do Brasil”, música que Arantes dedica, carinhosamente, ao cantor Emílio Santiago. Fatos que envolvem a letra original da música “Meu Mundo e Nada Mais” também são passados à limpo, quando é explicado à plateia que a versão original começaria com: “Me atirei no mundo, vi tudo mudar...”. Contudo, pelo fato da música ter sido escolhida como integrante da trilha sonora da novela “Anjo Mau” – como tema do personagem interpretado por José Wilker – a canção passou a iniciar com: “Quando eu fui ferido...”. Interpretada de acordo com a versão demandada pela novela, a trilha foi recebida pela plateia de forma saudosista e delirante. Dando sequência às produções novelescas, “Cuide-se Bem”, integrante da trilha sonora de “Duas Vidas”, transforma a plateia em um coro que acompanha o emotivo Arantes em “Um Dia, Um Adeus” da novela “Mandala” e que, em seguida, relata como a sua vida artística mudou drasticamente após Elis Regina gravar “Aprendendo a Jogar”– fato que o fez passar de mero artista de auditório a ícone da história da MPB.


“Cheia de Charme” levanta a plateia que acredita se tratar da música que deveria fechar o show, mas Arantes dá continuidade ao mesmo com “Deixa Chover”. Em seguida, agradece a presença de todos e se retira do palco. Preparando-se para deixar a casa de espetáculos, o público é surpreendido com o retorno de Guilherme Arantes que finaliza seu show com “Fã Número 1” e com a emocionante “Lindo Balão Azul”, resgatando a infância e adolescência da maioria dos espectadores, saciados pelo generoso show de um artista que se perpetua há gerações.



domingo, 7 de fevereiro de 2016

O Regresso


Em nome de uma sobrevivência selvagem, brutal e devastador

Ousados recursos técnicos e fotográficos aliados a uma paisagem gelidamente hostil, em pleno oeste americano dos anos 1820, e ao contundente desempenho de Leonardo DiCaprio fazem de “O Regresso” um longa metragem cuja qualidade se equipara com as mais impactantes produções cinematográficas dos últimos tempos. Baseando-se na obra homônima de Michael Punke, o cineasta, argumentista e produtor de cinema mexicano Alejandro González Iñarritu assume o roteiro e a direção multidisciplinar da película, oferecendo ao público cinéfilo uma produção contemplada por cenário, figurino, vizagismo, design de arte e tomadas externas sequenciais irretocáveis. 

A trama conta a história do caçador de peles do Velho Oeste Americano, Hugh Glass – instintivamente interpretado por Leonardo DiCaprio – que após escapar de uma emboscada dos indígenas Arikaras, é atacado por um urso e abandonado como se morto estivesse, por alguns de seus companheiros. A partir de então, amor e ódio tornam-se os verdadeiros protagonistas da história que apenas usam o corpo de Glass em nome de uma sobrevivência selvagem, brutal e devastadora. 


“O Regresso” é um produto cinematográfico cujo resultado é soberbo, egoísta, ambicioso e, por isso mesmo, se destaca como uma obra única e sólida, e cuja mensagem transpassa os limites físicos de uma sala de projeção. 

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Depois do amor - um encontro com Marilyn Monroe


Todas as nuances comportamentais carregadas de carência, instabilidade emocional e imaturidade


A atriz bailaria e cantora de teatro, de cinema e de televisão – Danielle Winits personifica o ícone da beleza e da fama dos anos 1950 – Marilyn Monroe, com todas as nuances comportamentais carregadas de carência, instabilidade emocional e imaturidade em “Depois do amor - um encontro com Marilyn Monroe”, último espetáculo dirigido por Marília Pêra, carregado por uma equilibrada alquimia composta por melancolia e por comicidade, passando pela extrema agonia do transtorno de personalidade com a qual a atriz e modelo norte-americana conviveu durante toda a sua vida, até sua misteriosa e precoce morte. Maria Eduarda de Carvalho cumpre, com louvor, a tarefa de interpretar Margot Taylor – amiga consagrada e assistente do estilista Jean Louis que tinha como um de seus ofícios, ajustar os figurinos de Monroe. Passado uma década afastadas - após terem se apaixonado pelo mesmo homem, e a algumas semanas antes da morte da mais popular dentre as sex symbols daquela época  -as duas se reencontram num embate, durante o qual trocam experiências pessoais. Apesar de real, o teor do diálogo entre as amigas é concebido tal e qual uma ficção de autoria do dramaturgo Fernando Duarte que, por sua vez, se empenha em radiografar a essência humana e desconhecida de Monroe e Taylor, como as de pessoas comuns.

“Depois do amor - um encontro com Marilyn Monroe” seduz a plateia com o desenho de figurino de Sônia Soares, cheio de personalidade e que define tanto o universo saudável quanto o abismo doentio das protagonistas. Natalia Lana assina o projeto cenográfico, coerente com a vida de Monroe – suas dúvidas, os infindáveis relacionamentos amorosos, a obsessão e o uso abusivo do álcool como meio de lidar com suas frustrações.  O desenho de luz de Vilmar Olos é intimista e dramático e fomenta os momentos de sedução de Monroe, agindo ora como mimada criança, ora como calculista e maquiavélica personificação da sensualidade. O videografismo de Aníbal Diniz ilustra o passado da protagonista e emociona com a homenagem prestada à genial, talentosa, rigorosa e disciplinada diretora – tal e qual Pêra é qualificada por Duarte e, da mesma forma, por sua legião de saudosos fãs.

“Depois do amor - um encontro com Marilyn Monroe” delineia a personalidade exagerada de um mito – desenvolvida a partir de transtornos latentes – na qual pode ser constatada uma capacidade de amar de forma rígida e mal direcionada, comprometendo toda uma existência que, para simples mortais, se resume, simplesmente, em viver antes, durante e depois do amor. 


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Raia 30 - O Musical


A trajetória artística de Raia, respaldada pela sua impecável regência multidisciplinar

“A Chorus Line” e  “Viva O Gordo” – as primeiras produções, cujos elencos tiveram Claudia Raia como integrante, são apenas algumas dentre as saudosas recordações constantes do roteiro do espetáculo “Raia 30 – O Musical”.

Assinado pelo carismático ator, dramaturgo, diretor, dublador, cineasta, escritor e apresentador de televisão - Miguel Falabella, o texto de “Raia 30 – O Musical”, por conta de uma voluntária falta de compromisso de seu autor com a cronologia, pode parecer um tanto quanto confuso para os espectadores que não acompanham assiduamente a carreira da atriz. Contudo, tal fato não induz a plateia a uma equivocada compreensão da história, muito porque não o seria permitido, tendo em vista a brilhante direção de José Possi Neto que delineia, primorosamente, a trajetória artística de Raia, respaldada pela sua impecável regência multidisciplinar do espetáculo.

Como se na intimidade de seu lar e totalmente à vontade no palco, Raia proseia e interage com os espectadores como se amigos de infância e os presenteia com números musicais e coreográficos selecionados de “Sweet Charity”, “Cabaret”, “Não fuja da Raia”, “Nas Raias da Loucura” e “Caia na Raia”, ratificando que seus trinta anos de carreira só lhe acrescentaram, positivamente, como a atriz que canta e que dança, além de se mostrar capaz de responder a qualquer demanda por um necessário improviso. Seu denso currículo na TV é ilustrado pela personagem Tancinha da novela “Cambalacho” e pelo personagem do programa humorístico “TV Pirata”, carinhosamente reconhecido como Tonhão.

A direção musical de Marconi Araújo é precisa e uniforme, acolhendo a voz de Raia na dose exata pretendida pelo espetáculo e que, por sua vez, se conjuga à coreografia de Tania Nardini,  leve e simultaneamente vigorosa, permitindo que Raia demonstre seu potencial performático como uma exímia contadora de histórias em franco movimento corporal. O projeto cenográfico de Gringo Cardia é requintado, grandioso e concebido de tal forma a se adequar às cenas de forma dinâmica e contínua, em uníssono com o exuberante figurino de Fábio Namatame e o vigoroso visagismo da equipe composta por Dicko Lorenzo, Henrique Mello e Robin Garcia. Abrilhantando os concretos recursos cênicos no palco, o abstrato desenho luminotécnico de Drika Matheus Garcia transforma “Raia 30 – O Musical” em um espetáculo apoteótico, refletindo todo um anseio por uma carreira a partir de uma jovem - hoje, em plena maturidade artística - que, há trinta anos, vem realizando o seu sonho junto aos seus admiradores.