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domingo, 21 de fevereiro de 2016

Master Class


Uma Medeia de Cherubini

A atual montagem do espetáculo “Master Class” tem a honra de ter como fiel depositária do papel da cantora lírica Maria Callas, a atriz Christiane Torloni. Em plena maturidade artística e detentora de beleza singular, Torloni transporta a plateia para os idos anos 70 quando, a protagonista ministra vinte e três aulas de duas horas cada, no auditório da Juilliard School em Nova York, e cujas vagas devem ser preenchidas após a submissão dos inscritos à sua severa e criteriosa seleção.  

O texto de Terrence McNally retrata Callas como uma Diva impiedosa, fria e cruel – muitas vezes, grosseira, egocêntrica e, sugestivamente, acometida por sérios problemas de ordem psicossocial. Como um fiel da balança, a direção de José Possi Neto, ao mesmo tempo em que fideliza a leitura da personalidade da exterminadora de sonhos de McNally, resgata todo o charme de Torloni com o intuito de conceder à protagonista o apelo que lhe falta para conquistar a plateia, em meio as árias de Bellini, Puccini e Verdi. Com o mesmo afinco, Possi Neto Bellini azeita o desempenho do elenco coadjuvante composto por Bianca Tadini, Leandro Lacava, Juliane Daud, Thiago Rodrigues e Jayane Gomes Paiva de forma tal que, por mais que lhes faltem a necessária munição contra a artilharia de Callas, acaba por seduzir o espectador com seu carisma e talentos inatos. O cenário de Renato Theobaldo remete à pompa de um auditório de uma instituição do porte da Juilliard School, em franca simbiose com o desenho de luz de Wagner Freire. O figurino assinado por Fábio Namatame e por Claudeteedeca contrasta a caricatura com que desenha os personagens coadjuvantes com a elegância e suntuosidade do estilo de Callas.

Embora o espetáculo não demande da protagonista qualquer demonstração de seu desempenho vocal, “Master Class” presenteia a plateia com a manifestação lírica dos demais personagens e domina a fluência do discurso com texturas rítmicas e descritivas, acumulando e descarregando, junto à plateia, a tensão decorrente da aspereza harmônica da personalidade terrível, vingativa, ameaçadora e premonitória de uma Medeia de Cherubini.


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