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sábado, 13 de fevereiro de 2016

O Impecável


Um espetáculo conceitual

A partir da concepção de Marcus Alvisi e do texto de Charles Möeller e Claudio Botelho – “O Impecável”, Luiz Fernando Guimarães dá vida a oito personagens em um salão de beleza onde, espectadores constatam a ratificação da máxima que proclama que nem tudo que é bom é belo. O espetáculo espelha, com dose certa de harmonia, a manifestação da imperfeição em cada um dos personagens e da sua incapacidade de provocar qualquer tipo de interesse em suas histórias de vida – atributo da direção esteticamente objetiva, também assinada por Alvisi.
Guimarães, exímio condutor de situações constrangedoras através dos papéis que assume, extrapola o nível de embaraço provocando na plateia uma receptividade ao humor praticado no palco que tangencia a vergonha alheia. A concatenação dos personagens desprovidos de adereços, mas apenas através da alternância de vozes e do desempenho de movimento de Guimarães, dirigido por Sueli Guerra e Alessandro Brandão, desperta nos espectadores a necessidade de virtualizar um universo de ideias imperfeitas lançadas por indivíduos indesejáveis que possam ter passado, que passam e que ainda venham passar pelas suas vidas, no estabelecimento denominado “Impecável Beauty” – supostamente lotado, onde a verbalização simultânea põe à nocaute qualquer tentativa de diálogo entre pessoas civilizadas.
O cenário de Natália Lana sugere um espaçoso estabelecimento de estética composto somente por uma singular estação de trabalho e por um balcão de atendimento – que pode se situar em qualquer uma dentre inúmeras galerias decadentes situadas no submundo do bairro de Copacabana. Nele se desenrolam momentos do cotidiano da vida sem graça do faxineiro religioso e da vida “fácil” de sua filha,  da inércia do atendente preguiçoso, do inconformismo do cliente assíduo e seus problemas existenciais junto à balança, da carência de identidade do cabeleireiro que se auto denomina hétero, da frustração profissional do hairstylist que sonhava ser DJ, da acomodação do solteirão que ainda vive sob a saia de sua progenitora, e da prepotência da dona do salão – totalmente esticada pelas intervenções cirúrgicas que vem se submetendo em nome da perfeição do corpo e da face. A iluminação de Carlos Lafert engloba todos os padrões coerentes dos personagens, apostando no espectro que oscila entre as cores quentes e frias que mais fazem do salão um cafofo que acolhe tudo o que há de mais grotesco em um ser humano.
Diante do exercício da miscigenação desnuda de cultura e de hábitos populares, a obra de Möeller e Botelho levada ao palco, pode ser tomada como um espetáculo conceitual, conduzindo o espectador à reflexão sobre o que de fato lhe está sendo entregue como passível uma comédia, ou mera constatação de personalidades constrangedoras que podem estar, a qualquer momento, em qualquer salão voltado para a estética humana.


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