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quinta-feira, 31 de março de 2016

Visões do Passado


Sem identidade de gênero como película

Durante os primeiros minutos de “Visões do Passado”, Michael Petroni manipula o mistério contido no longa sob sua direção, instigando o espectador a se antecipar frente ao desenrolar do roteiro.

Adrien Brody convence no papel do psicólogo Peter Bower, acometido por fortes perturbações pelo fato de sua filha ter sido vítima fatal de um atropelamento. Após essa ocorrência, Bower passa a receber, de forma inexplicável, diversos pacientes tomados por uma série de problemas coincidentes entre si.

A bem aplicada densidade sombria de “Visões do Passado” não consegue se sobrepor ao roteiro indeciso e sem identidade de gênero como película – em uma hora, drama, noutra, suspense, depois terror e, por fim, policial.

A fórmula confusa de “Visões do Passado”, ao redirecionar os acontecimentos em busca de reviravoltas mirabolantes e inesperadas, torna os momentos de expectativa em passagens enfadonhas e sem muita credibilidade, a ponto de fazer com que o espectador ponha a história em segundo plano e salvaguarde a chamada do filme – “Os Mortos Nunca Esquecem” – valorizando, por esse motivo, o fato de ainda continuarem vivos.

quarta-feira, 30 de março de 2016

Mundo Cão


Impregna tensão ao longo de toda a película


No afã de não enquadrar seu mais recente trabalho nos moldes convencionais do atual cinema nacional, que aprendeu a franquear comédias de gosto duvidoso, o paranaense Marcos Jorge se empenha na direção de um filme que parte do pressuposto de que o cinema nacional pode ser bem mais do que meros indutores de risadas ilegítimas e um programa para manifestações de uma alegria incompleta. Seguindo esse viés, “Mundo Cão” conta uma história protagonizada por Babu Santana, no papel de um funcionário do Departamento de Controle às Zoonoses, encarregado de recolher animais abandonados nas ruas, casado com uma evangélica que ganha a vida como costureira, sofridamente defendida por Adriana Esteves e pai de um casal de filhos – um menino interpretado por  Vini Carvalho e uma adolescente, por Thainá Duarte. Vidas se entrelaçam quando um ex-policial que se tornou um empresário, vigorosamente interpretado por Lázaro Ramos, descobre que o seu cão, da raça Rottweiler, havia sido sacrificado no Departamento de Controle às Zoonoses.

O roteiro, assinado pelo próprio diretor com a parceria de Lusa Silvestre, impregna tensão ao longo de toda a película, injeta dinamismo nos cortes, mas deixa a desejar quando se trata dos personagens demasiadamente carregados na tinta, tais como o psicopata, a religiosa, o bonachão, o infantil e a lolita, ainda mais prejudicados com a dissonante e inadequada trilha sonora de Pablo Lopez.

A violência descrita em “Mundo Cão” não faz com que saiamos do cinema com as imagens de violência ou se como acometidos pela violência projetada na telona – fato muito comum em outras produções que conduzem os fãs do gênero à mais completa catarse. Talvez por isso, “Mundo Cão” consegue realizar o intento de não se comparar aos caça-níqueis que se perpetuam com continuações franqueadas desprezíveis e que não sustentam a própria existência.


domingo, 27 de março de 2016

Dorotéia


Um duelo artístico entre o belo e o feio

Hipocrisia, puritanismo - uma família conservadora onde o preconceito, a sexualidade, o ódio, o horror e as transgressões morais são expostos, ambientados de forma aterrorizante e trágica que fomentam a leitura ácida do núcleo familiar por Nelson Rodrigues. Sob a direção perspicaz de Jorge Farjalla, a farsa irresponsável de “Dorotéia” conta a história de quatro mulheres que se permitem morrer em vida, expondo suas chagas e pudores tacanhos em nome da imagem da mulher imaculada e da auto preservação de sua honra.

O elenco composto por Rosamaria Murtinho, Letícia Spiller, Alexia Dechamps, Dida Camero, Jaqueline Farias e Anna Machado atua com a dignidade de um thriller de terror psicológico inserido em um local reconhecido como casa – materializado através de um cenário descortinado e nebuloso – desde o ingresso dos espectadores na sala de espetáculos – concebido por José Dias, com requintes que remetem a um necrotério de árvores vitimadas pela insensatez humana, como se processadas artisticamente, post mortem, pelo artista plástico polonês Frans Krajcberg. Acirrando a atmosfera imersa em hipocrisia e na cultura da vida como eterno pecado, o figurino de Lulu Areal estabelece um duelo artístico entre o belo e o feio enquanto que a mescla entre os antagonistas potencializa a ausência de cores contrastantes dos personagens, permitindo a acentuação nauseante do visagismo de Anderson Calixto. Nesse mesmo contexto, vindo à luz e bradando uma angústia latente que se fragmenta em doses homeopáticas no colo do espectador, como um bebê que já nasce morto, o desenho de luz de Patrícia Ferraz sublinha a condução dos movimentos impostos pela direção de Farjalla, guiando o espectador ao fundo da cova rasa onde se encontram os personagens, em um transe induzido pela estranha direção musical de João Paulo Mendonça. Em parceria com Leila Pinheiro e Fernando Gajo – responsáveis pela trilha sonora original cuja partitura parece ser escrita sobre cada palavra proferida pelos atores – Mendonça costura a tragédia nos performáticos e misteriosos Homens Jarros, que fazem das árvores sem vida os seus sarcófagos, reverenciando a libido latente presente no desempenho dos músicos André Américo, Daniel Martins, Du Machado, Fernando Gajo, Pablo Vares e Rafael Kalil.

 

Concebido para um palco cuja configuração jamais suplantará a eficiência de uma arena para a qual foi adaptado o Espaço Tom Jobim, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, “Dorotéia” caricatura a condução da vida, privada dos desejos mundanos em busca da morte sem pecado, como algo medonho – conforme constatado pelo Circuito Geral, na apresentação de sábado – 19 de março de 2016.

sexta-feira, 25 de março de 2016

O Jovem Messias


Obra manipulada de forma a não provocar contestações

Após a publicação de suas crônicas vampirescas – “O Vampiro Lestat” (1985), “Entrevista com o Vampiro” (1994), “A Rainha dos Condenados” (2002) – dentre tantos outros grandes sucessos literários e a morte do marido em 2005, a escritora Anne Rice se despede dos temas obscuros e parte com tudo para uma releitura da imagem do menino Jesus – a partir de quando, juntamente com seus Pais, Maria e José, abandona a cidade de Alexandria, no Egito rumo a Nazaré, na Galileia – através de mais uma obra literária intitulada “Cristo Senhor: A Saída do Egito”.  Publicado em 2008, este livro serve como base para a produção do longa “O Jovem Messias”, com lançamento programado como entretenimento temático da Semana Santa de 2016.

A direção de Cyrus Nowrasteh é contundente perante a ficção concebida por Rice, que narra a vida da criança de sete anos que ainda não sabe para que veio ao mundo e não entende o motivo pelo qual seus pais ocultam a verdade dos fatos para impedir que Herodes - Rei da Judeia - o encontre e ponha a termo o infanticídio que deflagrou em Belém, quando do nascimento do Menino Deus.

A escolha de Adam Greaves-Neal para o papel do Menino Jesus soa como intencional devido à sua aparente androginia, a partir de um pressuposto de que tal biótipo faria o personagem ser melhor assimilado por parte do público, tendo em vista a sua missão de semear o amor entre os homens, segundo as Sagradas Escrituras. O demônio personificado por Rory Keenan assume um perfil quase caricata de um emotivo cantor de banda gótica de tal forma que, não fosse o comportamento neutralizado de Satã diante das fortes crises sofridas por Jesus, beirando à esquizofrenia, seria o estopim para comprometer, ainda mais, a lentidão presente no desenrolar da história.

Nowrasteh, ao tomar o livro de Rice como base para o seu filme, cria uma expectativa que não consegue concretizar, transformando “O Jovem Messias” em uma obra manipulada de forma a não provocar contestações, através do abuso da demanda por credibilidade no poder milagroso do Messias presente nas cenas – como se o público para o qual o filme é voltado, não careça de maiores explicações lógicas sobre os fatos, mas, apenas, lançar mão de sua fé. 

Ressurreição


Um pouco mais de mesmice

Um oficial do exército romano à serviço de Pôncio Pilatos; sob o seu comando, a crucificação de Jesus; a tão temida veracidade sobre a ressureição do Cristo por parte de Roma; o desaparecimento do Corpo – fragmentos que formam o enredo do filme “Ressurreição”, sob a direção do cineasta texano, Kevin Reynolds.

Mesmo que involuntariamente, o diretor induz o enquadramento do filme em um quase thriller investigativo, porém, somente até certo ponto do desenrolar dos acontecimentos, quando as palavras contidas e as imagens descridas no Livro Sagrado assumem o comando de algo não mais surpreendente e já muito explorado por desgastadas produções do século passado. Nem mesmo o protagonista Clavius, tão bem defendido por Joseph Fiennes, que chega a transitar pelo limiar do convencimento como um oficial cético e idôneo em sua busca do Corpo desaparecido, consegue salvar o filme do lugar comum presente na proclamação dos textos da Sagrada Escritura, como se em uma ação de lançamento oportunista às vésperas da Semana Santa de 2016.

A interpretação de Cliff Curtis tangencia a materialização de uma caricatura de um messias estilo amor e paz, contemplando um semblante como se vitimado por toxina botulínica adereçado por um sorriso semipermanente, fazendo com que o promissor viés inicial, sucumba ao travestismo excessivamente religioso e sem nenhuma novidade para aqueles para os quais o filme parece ser direcionado – os crentes que não buscam respostas, mas somente um pouco mais de mesmice.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Cinco Julias


Destilam o veneno da jovialidade sem antídoto para uma diversidade de gerações


O texto e a direção geral de Matheus Souza que estruturam o espetáculo “Cinco Júlias” caracterizam, de forma singela, ao mesmo tempo apoteótica, a juventude nascida em meados da década de 1990 – integrantes da Geração Z. Em uma noite – durante a qual todos os textos digitados em redes sociais, e-mails e outros meios de comunicação digital são revelados ao mundo, fazendo com que segredos e verdades se desnudem de forma impiedosa – simplesmente, cinco vidas que se cruzam.


Incorporadas por um afinadíssimo elenco composto por Bruna Hamu, Carol Garcia, Gabi Porto, Isabella Santoni e Malu Rodrigues, as cinco Júlias – divertidas, inovadoras, conectadas, independentes e impulsivas – interagem com a direção musical de Pablo Paleologo – profissional que, além de induzir o espectador a focar sua atenção intensamente nas histórias das xarás, ao som de Radiohead, Björk, Smashing Pumpkins,  dentre outros obrigatórios no Ipod de qualquer ser nascido sob o signo da Geração Zapping e que migraram para os smartphones – também integra a invisível porém, deliciosamente audível banda como baixista, juntamente com Felipe Aguiar – na bateria; André Sigaud – na guitarra; Pablo Paleologo – no teclado; e Felipe Ventura – no violino. O dinamismo contido no projeto cenográfico de Miguel Pinto Guimarães traduz o timing da geração retratada, definindo um ponto de fuga como num túnel sem luz em seu final e que obriga o quinteto a voltar ao início do amargedon tecnológico – o fio condutor da história. O desenho de luz de Rodrigo Belay fomenta a tridimensionalidade presente na crescente e estonteante apresentação de cento e cinco minutos durante os quais, aventura, conhecimento mútuo e experiências compartilhadas são personalizados, segundo intensidade e cromatismo definidos para cada uma das auras, por sua vez materializadas pelos traços do visagismo de Vivi Gonzo e Rafael Nsar. A excelência presente na concepção e na implantação dos recursos cênicos contribui para a mutação das cinco jovens, de meras espectadoras de suas próprias poucas vivências a guardiãs das escolhas de seus próprios caminhos, responsáveis pela transformação daquelas vivências em experiências envelopadas pelo figurino de João Lamego, que se apresenta, não somente como meras vestimentas, mas como um critério que imprime personalidade em cada uma das cinco Júlias. O videografismo de Dudu Chamon é projetado com a sutileza exigida pelo conjunto da obra e se integra ao cenário através de nervosas imagens que destilam o veneno da jovialidade sem antídoto para uma diversidade de gerações presentes no espetáculo de terça-feira, dia 15 de março de 2016, ao qual o Circuito Geral se faz presente e ousa a sugerir que “As Cinco Júlias” tem como objetivo, não só retratar uma geração, mas mostrar o que a geração anterior – a tal Y – lhes deixou como legado.

quinta-feira, 17 de março de 2016

Os Realistas


Um mundo que existe independente do pensamento ou da percepção de quem nele habita

A estranheza de “The Realistic Joneses”, assinado por Will Eno, chega ao Brasil escoltada pela seletividade da atriz Debora Bloch que, pelo fato de já acompanhar a trajetória do dramaturgo nova-iorquino e após assistir a montagem do espetáculo na Broadway em 2014, decidiu transportá-lo para os palcos brasileiros com o título “Os Realistas”.

A partir do início de um relacionamento entre dois casais de vizinhos que habitam um bosque, Eno retrata o quão absurda pode ser a busca do entendimento mútuo através do compartilhamento de segredos e de verdades. Com base nesse panorama, o afinado elenco, sempre atento ao espectador, composto por Debora Bloch, Emílio de Mello, Fernando Eiras e Mariana Lima, transcende o que há de humano em cada personagem, com seus medos e suas solidões que permeiam o amor e que os afastam da vida.

Adaptação do texto, direção geral, e trilha sonora, sob o comando de Guilherme Weber, interagem como arranhões intencionais em um disco de vinil que laçam a agulha diamantada de volta ao seu ponto de origem, visando ao enriquecimento personalizado de uma obra original. O projeto cenográfico esbanja os recursos da tridimensionalidade, contemplando a opacidade da silhueta do arboreto natural e a translucidez dos vazios entre as árvores, através das quais, atravessam os raios luminosos e eventuais imagens dos personagens em segundo plano. Como se em meio à densa concentração arbórea, em primeiro plano, o quarteto atua sob cilindros alusivos a troncos desprovidos de sua parte inferior junto às suas raízes e cuja perspectiva impede a visualização de seus galhos e respectivas folhas – recurso cênico como se concebido por um artista plástico surrealista, mas um sugestivo trabalho de Daniela Thomas e Camila Schimidt, retratando um bucólico lugarejo onde os casais, coincidentemente Silva, conversam e se inquietam um com o outro. A iluminação de Beto Bruel, ao mesmo tempo que interage simbioticamente com a obra de Thomas e Schimidt, fomenta a inquietação contida nos diálogos, interagindo junto ao espectador mais incauto e semi-hipnotizado pela meia-luz emanada pelos personagens, lançando o desconforto de um turbilhão de palavras soltas contra a plateia. O desenho de som de Andrea Zeni, de tão expressivo com suas nuances acalentadoras diante da verborragia presente, quase que sem interrupções, faz com que o texto assuma sentidos diversos que não demandam lógica para a história em curso, mas possivelmente, para as histórias que passam na mente do espectador.

Testemunho de múltiplas reações da plateia durante a apresentação, o Circuito Geral reflete sobre os efeitos do trabalho de Weber junto ao público, e interpreta o bosque de “Os Realistas” como um mundo que existe independente do pensamento ou da percepção de quem nele habita – refletido no semblante de vazio estampado na maioria dos espectadores ao final do espetáculo.


segunda-feira, 14 de março de 2016

Lugar de Mulher... Uma Sátira ao Machismo


Para os apreciadores do humor despretensioso


Oito de março de 2016 – Dia Internacional da Mulher – o Teatro Vannucci, no Rio de Janeiro, abre suas portas, em curtíssima temporada, para a apresentação de um espetáculo liberado para toda a família – “Lugar de Mulher... Uma Sátira ao Machismo”, concebido pelo ator e diretor Cláudio Ramos.

Em sua apresentação solo, Ramos encarna três Marias – distintas, humanas, críveis, genuínas e, acima de tudo, vividas. Personagens com as quais Ramos conta com a identificação imediata do espectador, seja consigo mesmo, seja com alguém que faz parte de seu círculo de relacionamentos, promovendo, em meio à plateia, focos de comentários em meio a um diversificado universo de núcleos dentre amigos, casais e familiares que assistem o espetáculo, a partir dos quais, crianças identificam comportamentos que se assemelham aos de seus pais, esposos chacoteiam suas mulheres e vice-versa ao constatarem que as pérolas proferidas e desempenhadas pelas Marias de Ramos são fartamente presentes em suas vidas. Moto-contínuo, tais manifestações traduzem o espetáculo como um “reality” ensaiado e geram combustão para que Ramos dê tudo de si em prol das vidas que empresta àquelas três criaturas que já se integram em seu lado feminino, ao longo dos três esquetes e de uma homenagem que compõem “Lugar de Mulher... Uma Sátira ao Machismo” – a Maria submissa ao marido e que, após constatar ter sido atraída sexualmente por um feirante, renuncia a esse sentimento em nome da instituição familiar; a socialite emergente Maria Lucrécia que, com muita determinação, tenta desvendar os mistérios que envolvem a amante de seu marido; a Maria esposa de um lusitano, que há muito, não sabe o que é ter uma vida sexual e que, em meio aos seus afazeres domésticos, se distrai como ouvinte de um programa radiofônico e mantém uma conversa imaginária com o locutor; o Cláudio Ramos – porto seguro de uma frota feminina que encontra no artista, a placidez de águas desejada por todas as Marias.

A partir de um profundo respeito pelos direitos do sexo feminino e sem qualquer ranço de apelo caricata, mas genuína, a composição interpretativa de Ramos denuncia a ainda existente banalização do desrespeito aos direitos da mulher. Suas confidências junto à plateia emocionam, ao mesmo tempo que provocam risos autênticos. Lugar de Mulher... Uma Sátira ao Machismo” surpreende e conquista o selo de um espetáculo imperdível, para os apreciadores do humor despretensioso.


sábado, 12 de março de 2016

Um Homem Entre Gigantes


Decepção com as grandes instituições esportivas

Um médico Nigeriano morando nos Estados Unidos interpretado por Will Smith, que ao diagnosticar uma encefalopatia traumática crônica, conhecida como ETC em um ex-jogador de futebol americano, decide investigar melhor e descobre que muitos outros jogadores morreram com o mesmo diagnóstico, dando partida a uma briga com a poderosa instituição esportiva a NFL. Assim resume-se o filme “Um Homem Entre Gigantes” do cineasta Peter Landesman, que com a sua direção consegue construir um personagem carismático e crível, e tira Smith da área de conforto, mesmo que com isso faça de escada todo o restante do elenco.

“Um Homem Entre Gigantes” afunila de tal forma que a único sentimento que sobra ao espectador é o de decepção com as grandes instituições esportivas que detêm o poder não só monetário, como popular e que olha para os seus atletas e fanáticos seguidores, como realmente eles são, doentes que as mantêm cada vez mais poderosas.

sexta-feira, 11 de março de 2016

Meu Passado me Condena – A Peça



Um espetáculo para todos os casados, os descasados e os nunca dantes conjugados

Um seriado, um longa metragem, um espetáculo teatral – marcam a evolução da comédia “Meu Passado me Condena” que, no palco, endossa o sucesso conquistado na TV e nos cinemas, lotando as salas de espetáculo em todas as apresentações. A química, decorrente da ironia estampada nas expressões e gestual de Fábio Porchat e da autenticidade cômica presente no sorriso e na espontaneidade de Miá Mello, é reagente pela alquimia de Inez Viana que conduz a direção do espetáculo, retratando, em alta resolução, os relacionamentos dos casais contemporâneos.

O texto assinado por Tati Bernardo parece lançar os holofotes nas ações e reações masculinas dos relacionamentos – talvez pelo fato de Porchat se apresentar como o gangster do humor e um franco atirador empunhando a metralhadora do improviso.

Assim mesmo, sem ofuscar a força feminina presente no desempenho de Mello, que defende a classe, simultaneamente, com o adocicado de sua meiguice e com a acidez com que encara o mundo masculino.

O enredo do espetáculo tem início com a chegada do casal em casa, depois da festa de seu casamento, ao se prepararem para a viagem de lua de mel – ele economicamente mediano e ela intelectualmente preparada. A partir de então, a ação da dupla é colorida pelo desenho de luz de Tomás Ribas, que evidencia os conflitos pessoais e as cobranças sociais de forma suave, descontraída e hilária. Lotando os vazios de um palco sugestivamente transformado em uma quitinete, caixas e mais caixas de papelão contendo as lembranças do passado individual e comum dos recém-casados, se misturam aos presentes recebidos pela data, compondo o projeto cenográfico concebido por Aurora dos Campos, contrariando a máxima minimalista com nuances de modernidade dos anos 1920 que define o menos como sendo mais.

Seguindo essa linha, “Meu Passado me Condena – A Peça” é um espetáculo para todos os casados, os descasados e os nunca dantes conjugados, concebido com simplicidade do despojamento intencional e com a expertise nata e involuntária de todos os envolvidos.



segunda-feira, 7 de março de 2016

A Bruxa


A essência das entrelinhas

“Adolescentes e adultos frequentadores das salas de cinema, que se sentem respaldados pela auto permissividade de que tudo podem – a despeito dos limites de seus deveres para com o próximo e de seus direitos, que fazem das salas de cinema uma extensão de suas casas, emanam toda a sorte de ruídos enquanto abrem seus saquinhos de guloseimas, comentam em voz alta atormentando os demais espectadores, enviam mensagem pelos seus smatrphones durante a projeção – e que, por mera ignorância dos fatos, elegem um suposto filme do gênero terror para gritar, pular da cadeira, rir das mentiras e debochar dos protagonistas, aproveitando para pôr em prática o seu currículo de incivilidade.”

Definitivamente, essa é a classe de público à qual não deve ser indicada a perturbadora produção cinematográfica “A Bruxa” – dirigida por Robert Eggers que, genialmente, consegue transformar cada sessão, em um exercício de compaixão àqueles que só comparecem para enxergar o óbvio de fácil assimilação e descartar a essência das entrelinhas.

Na Inglaterra de 1630, uma família composta por pai, mãe e cinco filhos, encontra seu novo lar próximo a um bosque isolado, após ser expulsa de uma comunidade cristã à qual fazem parte, por não se enquadrar nos dogmas exigidos por aquela sociedade. Os acontecimentos subsequentes necessitam de respostas que envolvem os membros daquela família junto aos seus medos e aos seus credos.

“A Bruxa” incomoda por não se moldar no gênero “pavor-clichê” e faz com que boa parte dos expectadores abandonem a sala de projeção, ao final da sessão, conclamando palavras de desagrado contra a produção, frente à frustração de suas expectativas ao terem optado por um filme, cuja classificação vai muito além daquilo que se pode esperar de um filme de horror convencional.

O terror de Eggers não está visível aos olhos dos angustiados, dos depressivos, dos violentados, dos religiosos, dos idealistas, dos nefastos e, muito menos, das famílias supostamente convencionais. Seu terror está na essência, é cravado e latente, sempre que se depara com intolerância religiosa, de quem pensa diferente e de quem têm a consciência de que a família é a base estrutural de tudo, seja em prol do bem ou do mal.

“A Bruxa” é bela ao fazer com que, mesmo depois da sessão, seja levada consigo a essência da Rainha de Copas e do Coelho Branco de Alice, de Chapeuzinho Vermelho e da maçã envenenada da Branca de Neve, não como mera fantasia voltada para um público, supostamente infantil, mas como instrumento capaz de definir uma lógica, através da qual nossos rancores, raiva e falta de perspectiva transitem de maneira poética diante da hipocrisia instalada nos seres, antes mesmo de nascerem.

A partir de uma fotografia deslumbrante, trilha sonora e sonoplastia primorosa, “A Bruxa” é capaz de provocar na plateia, a cada cena, a falta de pudor dos religiosos, dos ateus e dos impressionáveis, como seres complexos e incoerentes, sem controle e sem caminho certo diante de suas vidas travestidas em bosques impenetráveis que não é, e que jamais será o foco de suas resposta sobre a razão de dar continuidade à vida e de manter-se vivo.

sábado, 5 de março de 2016

Deuses do Egito



Confuso, indiferente e arrastado

Osíris, deus da mitologia grega, associado à vegetação e a vida no Além – incorporado por Bryan Brown – abdica ao trono em favor de seu  filho Hórus, deus da guerra – personificado por Nikolaj Coster-Waldau .  Set, outro deus egípcio, irmão de Osíris – interpretado por Gerard Butler – é a encarnação do espírito do mal. Ambicionando o controle dos deuses e ocupar o lugar de seu irmão, Set mutila o sobrinho, mata Osíris e escraviza os mortais com requintes de tirania.

A partir desse argumento, vingança torna-se o único mote do universo mitológico do filme “Deuses do Egito”, dirigido por Alex Proyas, que conduz seu trabalho como se marionetizando o elenco de tal forma a enquadrar os personagens na categoria “games” – neste caso, como simples peças de um jogo perdido.

O roteiro assinado por Matt Sazama e Burk Sharpless se faz confuso, indiferente e arrastado, dando margem para que os efeitos especiais assumam tamanha importância, a ponto de pôr à margem, tanto a história, quanto o elenco, de forma irreversível.

sexta-feira, 4 de março de 2016

O Último Lutador


Um belo exercício por um recomeço – dessa vez, junto ao teatro 

A comemoração dos sessenta anos de carreira leva Stênio Garcia de volta aos palcos, estrelando ”O Último Lutador” – espetáculo idealizado por Marcos Nauer que, além de assinar a autoria do texto em conjunto com Teresa Frota, tem a honra de contracenar com o homenageado capixaba, em um enredo sobre um patriarca de uma família desconstruída, no seio da qual, repleta de rancor entre seus entes, a única fonte de união é um ringue de MMA.

Sérgio Módena assina a direção do espetáculo carregado na tinta pela sua dramaticidade, permitindo que as emoções genuínas dos personagens se esvaiam e que o desempenho dos atores assuma caráter extremamente técnico, embarreirando a naturalidade do desenvolvimento dos personagens. A atual temporada de ”O Último Lutador” conta com um elenco, composto por Stela Freitas, Glaucio Gomes, Antônio Gonzalez, Daniel Villas, Carol Loback e Mari Saade, que compensam, com maestria, uma possível falta de jogo de cintura por parte da direção. O cenário de Aurora dos Campos cumpre o seu papel de transportar a plateia, com toda a atenção que o espetáculo merece, para um grande ringue de luta, à despeito das cenas onde as lutas não se dão dentro dos limites de um ringue, mas na não tão santa paz de um lar – concedendo aos personagens, ferramentas suficientes para abusarem dos sentimentos de ira e de mágoa. O figurino de Antônio Guedes pontua, com seus adereços, a década de 1990 – palco temporal dos acontecimentos. O engenhoso desenho de luz de Tomás Ribas, ao mesmo tempo em que ambienta a boca de cena, busca o fomento à dramaticidade.

Repleto de qualidade técnicas, ”O Último Lutador”, como um espetáculo em homenagem ao aniversário da trajetória artística de Stênio Garcia no meio televisivo e cinematográfico, se faz presente como um belo exercício por um recomeço – dessa vez, junto ao teatro.