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segunda-feira, 7 de março de 2016

A Bruxa


A essência das entrelinhas

“Adolescentes e adultos frequentadores das salas de cinema, que se sentem respaldados pela auto permissividade de que tudo podem – a despeito dos limites de seus deveres para com o próximo e de seus direitos, que fazem das salas de cinema uma extensão de suas casas, emanam toda a sorte de ruídos enquanto abrem seus saquinhos de guloseimas, comentam em voz alta atormentando os demais espectadores, enviam mensagem pelos seus smatrphones durante a projeção – e que, por mera ignorância dos fatos, elegem um suposto filme do gênero terror para gritar, pular da cadeira, rir das mentiras e debochar dos protagonistas, aproveitando para pôr em prática o seu currículo de incivilidade.”

Definitivamente, essa é a classe de público à qual não deve ser indicada a perturbadora produção cinematográfica “A Bruxa” – dirigida por Robert Eggers que, genialmente, consegue transformar cada sessão, em um exercício de compaixão àqueles que só comparecem para enxergar o óbvio de fácil assimilação e descartar a essência das entrelinhas.

Na Inglaterra de 1630, uma família composta por pai, mãe e cinco filhos, encontra seu novo lar próximo a um bosque isolado, após ser expulsa de uma comunidade cristã à qual fazem parte, por não se enquadrar nos dogmas exigidos por aquela sociedade. Os acontecimentos subsequentes necessitam de respostas que envolvem os membros daquela família junto aos seus medos e aos seus credos.

“A Bruxa” incomoda por não se moldar no gênero “pavor-clichê” e faz com que boa parte dos expectadores abandonem a sala de projeção, ao final da sessão, conclamando palavras de desagrado contra a produção, frente à frustração de suas expectativas ao terem optado por um filme, cuja classificação vai muito além daquilo que se pode esperar de um filme de horror convencional.

O terror de Eggers não está visível aos olhos dos angustiados, dos depressivos, dos violentados, dos religiosos, dos idealistas, dos nefastos e, muito menos, das famílias supostamente convencionais. Seu terror está na essência, é cravado e latente, sempre que se depara com intolerância religiosa, de quem pensa diferente e de quem têm a consciência de que a família é a base estrutural de tudo, seja em prol do bem ou do mal.

“A Bruxa” é bela ao fazer com que, mesmo depois da sessão, seja levada consigo a essência da Rainha de Copas e do Coelho Branco de Alice, de Chapeuzinho Vermelho e da maçã envenenada da Branca de Neve, não como mera fantasia voltada para um público, supostamente infantil, mas como instrumento capaz de definir uma lógica, através da qual nossos rancores, raiva e falta de perspectiva transitem de maneira poética diante da hipocrisia instalada nos seres, antes mesmo de nascerem.

A partir de uma fotografia deslumbrante, trilha sonora e sonoplastia primorosa, “A Bruxa” é capaz de provocar na plateia, a cada cena, a falta de pudor dos religiosos, dos ateus e dos impressionáveis, como seres complexos e incoerentes, sem controle e sem caminho certo diante de suas vidas travestidas em bosques impenetráveis que não é, e que jamais será o foco de suas resposta sobre a razão de dar continuidade à vida e de manter-se vivo.

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