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quarta-feira, 23 de março de 2016

Cinco Julias


Destilam o veneno da jovialidade sem antídoto para uma diversidade de gerações


O texto e a direção geral de Matheus Souza que estruturam o espetáculo “Cinco Júlias” caracterizam, de forma singela, ao mesmo tempo apoteótica, a juventude nascida em meados da década de 1990 – integrantes da Geração Z. Em uma noite – durante a qual todos os textos digitados em redes sociais, e-mails e outros meios de comunicação digital são revelados ao mundo, fazendo com que segredos e verdades se desnudem de forma impiedosa – simplesmente, cinco vidas que se cruzam.


Incorporadas por um afinadíssimo elenco composto por Bruna Hamu, Carol Garcia, Gabi Porto, Isabella Santoni e Malu Rodrigues, as cinco Júlias – divertidas, inovadoras, conectadas, independentes e impulsivas – interagem com a direção musical de Pablo Paleologo – profissional que, além de induzir o espectador a focar sua atenção intensamente nas histórias das xarás, ao som de Radiohead, Björk, Smashing Pumpkins,  dentre outros obrigatórios no Ipod de qualquer ser nascido sob o signo da Geração Zapping e que migraram para os smartphones – também integra a invisível porém, deliciosamente audível banda como baixista, juntamente com Felipe Aguiar – na bateria; André Sigaud – na guitarra; Pablo Paleologo – no teclado; e Felipe Ventura – no violino. O dinamismo contido no projeto cenográfico de Miguel Pinto Guimarães traduz o timing da geração retratada, definindo um ponto de fuga como num túnel sem luz em seu final e que obriga o quinteto a voltar ao início do amargedon tecnológico – o fio condutor da história. O desenho de luz de Rodrigo Belay fomenta a tridimensionalidade presente na crescente e estonteante apresentação de cento e cinco minutos durante os quais, aventura, conhecimento mútuo e experiências compartilhadas são personalizados, segundo intensidade e cromatismo definidos para cada uma das auras, por sua vez materializadas pelos traços do visagismo de Vivi Gonzo e Rafael Nsar. A excelência presente na concepção e na implantação dos recursos cênicos contribui para a mutação das cinco jovens, de meras espectadoras de suas próprias poucas vivências a guardiãs das escolhas de seus próprios caminhos, responsáveis pela transformação daquelas vivências em experiências envelopadas pelo figurino de João Lamego, que se apresenta, não somente como meras vestimentas, mas como um critério que imprime personalidade em cada uma das cinco Júlias. O videografismo de Dudu Chamon é projetado com a sutileza exigida pelo conjunto da obra e se integra ao cenário através de nervosas imagens que destilam o veneno da jovialidade sem antídoto para uma diversidade de gerações presentes no espetáculo de terça-feira, dia 15 de março de 2016, ao qual o Circuito Geral se faz presente e ousa a sugerir que “As Cinco Júlias” tem como objetivo, não só retratar uma geração, mas mostrar o que a geração anterior – a tal Y – lhes deixou como legado.

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