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domingo, 27 de março de 2016

Dorotéia


Um duelo artístico entre o belo e o feio

Hipocrisia, puritanismo - uma família conservadora onde o preconceito, a sexualidade, o ódio, o horror e as transgressões morais são expostos, ambientados de forma aterrorizante e trágica que fomentam a leitura ácida do núcleo familiar por Nelson Rodrigues. Sob a direção perspicaz de Jorge Farjalla, a farsa irresponsável de “Dorotéia” conta a história de quatro mulheres que se permitem morrer em vida, expondo suas chagas e pudores tacanhos em nome da imagem da mulher imaculada e da auto preservação de sua honra.

O elenco composto por Rosamaria Murtinho, Letícia Spiller, Alexia Dechamps, Dida Camero, Jaqueline Farias e Anna Machado atua com a dignidade de um thriller de terror psicológico inserido em um local reconhecido como casa – materializado através de um cenário descortinado e nebuloso – desde o ingresso dos espectadores na sala de espetáculos – concebido por José Dias, com requintes que remetem a um necrotério de árvores vitimadas pela insensatez humana, como se processadas artisticamente, post mortem, pelo artista plástico polonês Frans Krajcberg. Acirrando a atmosfera imersa em hipocrisia e na cultura da vida como eterno pecado, o figurino de Lulu Areal estabelece um duelo artístico entre o belo e o feio enquanto que a mescla entre os antagonistas potencializa a ausência de cores contrastantes dos personagens, permitindo a acentuação nauseante do visagismo de Anderson Calixto. Nesse mesmo contexto, vindo à luz e bradando uma angústia latente que se fragmenta em doses homeopáticas no colo do espectador, como um bebê que já nasce morto, o desenho de luz de Patrícia Ferraz sublinha a condução dos movimentos impostos pela direção de Farjalla, guiando o espectador ao fundo da cova rasa onde se encontram os personagens, em um transe induzido pela estranha direção musical de João Paulo Mendonça. Em parceria com Leila Pinheiro e Fernando Gajo – responsáveis pela trilha sonora original cuja partitura parece ser escrita sobre cada palavra proferida pelos atores – Mendonça costura a tragédia nos performáticos e misteriosos Homens Jarros, que fazem das árvores sem vida os seus sarcófagos, reverenciando a libido latente presente no desempenho dos músicos André Américo, Daniel Martins, Du Machado, Fernando Gajo, Pablo Vares e Rafael Kalil.

 

Concebido para um palco cuja configuração jamais suplantará a eficiência de uma arena para a qual foi adaptado o Espaço Tom Jobim, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, “Dorotéia” caricatura a condução da vida, privada dos desejos mundanos em busca da morte sem pecado, como algo medonho – conforme constatado pelo Circuito Geral, na apresentação de sábado – 19 de março de 2016.

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