Counter

quinta-feira, 17 de março de 2016

Os Realistas


Um mundo que existe independente do pensamento ou da percepção de quem nele habita

A estranheza de “The Realistic Joneses”, assinado por Will Eno, chega ao Brasil escoltada pela seletividade da atriz Debora Bloch que, pelo fato de já acompanhar a trajetória do dramaturgo nova-iorquino e após assistir a montagem do espetáculo na Broadway em 2014, decidiu transportá-lo para os palcos brasileiros com o título “Os Realistas”.

A partir do início de um relacionamento entre dois casais de vizinhos que habitam um bosque, Eno retrata o quão absurda pode ser a busca do entendimento mútuo através do compartilhamento de segredos e de verdades. Com base nesse panorama, o afinado elenco, sempre atento ao espectador, composto por Debora Bloch, Emílio de Mello, Fernando Eiras e Mariana Lima, transcende o que há de humano em cada personagem, com seus medos e suas solidões que permeiam o amor e que os afastam da vida.

Adaptação do texto, direção geral, e trilha sonora, sob o comando de Guilherme Weber, interagem como arranhões intencionais em um disco de vinil que laçam a agulha diamantada de volta ao seu ponto de origem, visando ao enriquecimento personalizado de uma obra original. O projeto cenográfico esbanja os recursos da tridimensionalidade, contemplando a opacidade da silhueta do arboreto natural e a translucidez dos vazios entre as árvores, através das quais, atravessam os raios luminosos e eventuais imagens dos personagens em segundo plano. Como se em meio à densa concentração arbórea, em primeiro plano, o quarteto atua sob cilindros alusivos a troncos desprovidos de sua parte inferior junto às suas raízes e cuja perspectiva impede a visualização de seus galhos e respectivas folhas – recurso cênico como se concebido por um artista plástico surrealista, mas um sugestivo trabalho de Daniela Thomas e Camila Schimidt, retratando um bucólico lugarejo onde os casais, coincidentemente Silva, conversam e se inquietam um com o outro. A iluminação de Beto Bruel, ao mesmo tempo que interage simbioticamente com a obra de Thomas e Schimidt, fomenta a inquietação contida nos diálogos, interagindo junto ao espectador mais incauto e semi-hipnotizado pela meia-luz emanada pelos personagens, lançando o desconforto de um turbilhão de palavras soltas contra a plateia. O desenho de som de Andrea Zeni, de tão expressivo com suas nuances acalentadoras diante da verborragia presente, quase que sem interrupções, faz com que o texto assuma sentidos diversos que não demandam lógica para a história em curso, mas possivelmente, para as histórias que passam na mente do espectador.

Testemunho de múltiplas reações da plateia durante a apresentação, o Circuito Geral reflete sobre os efeitos do trabalho de Weber junto ao público, e interpreta o bosque de “Os Realistas” como um mundo que existe independente do pensamento ou da percepção de quem nele habita – refletido no semblante de vazio estampado na maioria dos espectadores ao final do espetáculo.


Nenhum comentário:

Postar um comentário