Counter

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Slava’s Snowshow


Alegria de um palhaço triste

Os acessos à sala de espetáculo são portais que separam a realidade do sonho. Deixa-se para trás, um mundo onde a rotina escraviza os homens e os afasta entre si, e mergulha-se numa dimensão onde a visão é ofuscada pelo contraste de luzes amarelas e azuis, em meio a uma atmosfera opalescente. Ao mesmo tempo, o sentido da audição é estimulado de forma inebriantemente hipnótica, envolvendo todos que ali adentram e que se permitem entregar para o que ali vieram buscar, em uma sonoridade viajante por meio de um imaginário Expresso Maria Fumaça que recebe, continuamente, mais e mais passageiros, dentre crianças e adultos, a caminho do imprevisível contido no espetáculo Slava's SnowShow - Rio de Janeiro​ no Teatro Bradesco Rio​ até o dia 1° de maio de 2016.

Em meio a uma boca de cena tomada por um cerúleo noturno, a criatividade do russo Slava Polunin​ pincela, a presença de um palhaço – vestindo um folgado traje de cor amarela, complementado por despojados adereços vermelhos protegendo seu pescoço e pés do frio sugerido pela temática do show – cuja face emoldurada por seus desgrenhados cabelos e pontuada por seu nariz escarlate, expressa a tristeza contida em seu semblante, mas pronto a doar o seu dom de fazer graça, para alegrar a vida dos adultos presentes na plateia e, contribuir para que as crianças, também presentes, se tornem adultos melhores. Dando início ao espetáculo, na companhia de sua trupe de exóticos “clowns” de pés grandes, vestindo sobretudos verdes e chapéus russos estilizados, Slava ensaia os primeiros movimentos pantomímicos embalado pela primeira dentre as pérola que compõem uma seleta trilha sonora – “I Was too Good for You, de McKeith Cordell. Em um simbólico resgate da importância da vida, Slava traz para si, através do extremo oposto de uma corda com a qual se demonstra desejoso de por fim à sua história, a lição esperançosa, através do primeiro exemplar verde, dentre os cinco tristes palhaços alegres que a ele se juntam e participam de um dos maiores lúdicos e simbólicos espetáculos de todos os tempos, ao som de “Edges of Illusion”, de autoria de John Surman​.

A pluridimensionalidade de sons – que sugere animais, vento, água, uma diversidade inumerável de ruídos e verbalizações onomatopaicas – é direcionada aos espectadores segundo avançada técnica de realidade sonora, que interage, precisamente, com o desenho de luz, todos ritmados pelo mix de músicas pop, clássicas e eletrônicas, fomentando a tensão dos olhos dos espectadores, sedentos por magia e que emprestam os seus sentidos ao som de “Illusion”, por L. Subramanian & Stéphane Grapelli, de forma tal a dotar de soberania qualquer sonho, por mais simples que seja. O drama e a comédia, o riso e a crueldade sem malícia são despejados, sob forma de bolhas de sabão e chuva de fragmentos, até o momento do previamente comunicado intervalo de vinte minutos, mas não sem antes cobrir toda a plateia com simbólica uma névoa gelada ao som do Bolero, de Maurice Ravel, mixado com Jorge Ben Jor​.

Dando seguimento ao segundo ato do espetáculo, a horda de palhaços verdes interage intensamente junto aos espectadores atônitos, invade a plateia, caminha sobre as cadeiras e abusa do público de forma divertida e perversamente ingênua, ao som do tema de “Peter Gun”, de Henry Mancini​. Momento de descontração infantil – Slava se aproxima do público através da simulação de um diálogo telefônico, por meio de aparelhos estilizados em formato vintage, provavelmente desconhecidos pela maioria das crianças da era tecnológica. Fazem parte do espetáculo, seres mágicos esvoaçantes e andarilhos não identificados, brinquedos que não mais fazem parte do dia a dia do público infantil, cenas que remetem a tristes Natais, aos medos e aos desejos arraigados dentro de todos nós e que somente afloram diante daqueles que nos despertam total confiança. Sons provenientes do apito, da emissão dos vapores e do pleno funcionamento do Expresso Maria Fumaça se juntam à musicalidade de “La Petite Fille De La Mer” de Vangelis​ e presenteia o público com um dos mais ternas e emocionantes cenas, durante as quais, Slava divide a sua capacidade de amar com um elemento inanimado ao qual dá vida, aliviando a sua carência e a falta de alguém com quem compartilhar sua vida – um número melancólico, mas repleto de esperança. Após toda uma demonstração de quanto vale a pena viver cada minuto de nossas vidas, o desfecho do espetáculo não poderia ser menos apoteótico, ao som de “O Forntuna” – um dos vinte e quatro poemas dos Carmina Burana, musicalizados por Carl Orff​ – desbravando a porta da percepção, com uma surpreendente tempestade de “neve”. A partir de então, todas as cordas, ainda presentes nos pescoços dos espectadores mais contidos, são arrancadas dando espaço à alegria de viver, iluminando todo o teatro e definindo todos os presentes como seres que compartilham de um mundo repleto de carências, medos, tristezas, desesperos, mas também, de boa vontade e de amor.

Ainda em meio a aplausos e ovações por parte da plateia, Slava e sua trupe agradecem, tendo como fundo musical “Le Soldat Tufaiev Se Marie”, por Zelwer, mixado com sons do Expresso Maria Fumaça, retomando Illusion, até levar o público à exaustão com o grand finale, ao som da versão de Aldo Conti de “Blue Canary”, de autoria de Vicent C. Fiorino, durante o qual, a plateia é presenteada com gigantescas bolas coloridas, infladas de ar, provocando uma interação entre os espectadores jamais vista – momento em que crianças, jovens, adultos e idosos, participam da mesma brincadeira sem qualquer ranço de auto censura, imersos na magia da travessura que faz do som das risadas um hino, como a exacerbação da vida, semeada pela alegria de um palhaço triste que renova seu compromisso com a vida, a cada apresentação de seu “Snowshow”.


quinta-feira, 28 de abril de 2016

Invasão a Londres


Entretenimento eletrizante e satisfatório

Sem uma trama elaborada capaz de, realmente, surpreender o espectador, o filme “Invasão a Londres”, também não demonstra qualquer esforço em criticar, de forma relevante, os conflitos políticos da atualidade e joga todas as fichas na ação. Logo nos primeiros minutos de projeção, o inexplicado, até aquele momento, anúncio da morte do Primeiro-Ministro Britânico, detona uma série de clichês que envolvem problemas familiares, vingança pessoal, o bem e o mal e o patriotismo exacerbado, transformando o filme em um entretenimento eletrizante e satisfatório, em função das cenas de ação – com muitos tiros, explosões, perseguições e muito heroísmo.
Gerard Butler é o ator perfeito para o papel – corpulento, másculo, cara de herói – e a quem o roteiro presenteia com sacadas irônicas divertidas. Morgan Freeman, como o vice-presidente dos Estados Unidos da América, é eficiente e ajuda, em muito, a promover uma lógica coerente no plano terrorista, que tem como objetivo exterminar os principais líderes mundiais que vão ao funeral do Primeiro-Ministro Britânico, na cidade de Londres.
O roteiro de Katrin Benedikt, elaborado a partir de um modelo, já há muito, batido, consegue dar fôlego à direção do iraniano Babak Najafi, contudo, sem maiores novidades.
“Invasão a Londres” é um filme previsível, onde até o vilão não é levado à sério pelo espectador, mas diverte como se os cinéfilos estivessem em um game de diversas fases e faces da violência, em nome de uma nação.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Caranguejo Overdrive



... à semelhança dos crustáceos, enquanto se arrastam para sobreviver, se imobilizam frente ao perigo e “andam para trás” para fugir dos obstáculos

“Nós somos o que comemos” – frase de autoria do filósofo alemão Feurbach, ratificada pelo espetáculo musical “Caranguejo Overdrive”, cujo texto, de autoria de Pedro Kosovski, é baseado no livro do cientista político Josué de Castro – “Homens e Caranguejos”. A narrativa, apesar de não assumir a configuração de um documentário, se sustenta em fatos históricos com rota que transita no tempo quando da Guerra do Paraguai, com ponto de partida definido pela antiga região do mangue da cidade do Rio de Janeiro, conhecida como Rocio, onde Cosme, um catador de caranguejos, fora criado e que, dali, extraía o seu sustento. Convocado para a guerra é exposto aos horrores do combate em solo paraguaio até retornar ao Rio de Janeiro, como ex-combatente, quando constata o aterramento do mangue durante as obras que modificaram a cidade naquela ocasião.  A direção de Marco André Nunes drena a essência dos personagens e a asperge sobre a plateia, que transfere o seu olhar e a sua percepção para uma saga compacta de um catador de caranguejos que se sente exilado em sua própria terra e que, a partir de então, passa a percorrer as ruas da cidade em busca de uma identidade perdida.

Regente de um conjunto de recursos cênicos impactantes e da força presente no desempenho dramatúrgico do elenco composto por “Aquela CIA” – que assume uma angustiante mutação durante o espetáculo – Nunes conquista autonomia na dissertação sobre as mazelas sociais e sobre a luta pela reinserção social no contexto temporal e espacial, após a derrota do Paraguai naquele longo e violento embate, e da formação da chamada Tríplice Aliança, entre o Brasil, a Argentina e o Uruguai. Uma banda presente entre os elementos cenográficos, reverbera sons que misturam ritmos regionais – dentre eles, o maracatu, rock, hip hop, funk rock e música eletrônica – e estremece a casa de espetáculos, resgatando o movimento contracultura surgido no Brasil na década de 90, na capital pernambucana, Recife – o manguebeat, denunciando o abandono sócio econômico do mangue – e montando um quebra-cabeças de um panorama político brasileiro, passando pelas “Diretas Já!”, pelo “Impeachment de Collor de Mello” e aterrissando na conjuntura política da atualidade. Pincelando essa tela quadridimensional, a iluminação impregnada de dramaticidade, de Renato Machado, se faz ímpar, moldando e evoluindo com as cenas, sempre dinâmicas e repleta de simbolismos, adequando-se à música e potencializando, de forma quase que destruidora, a dança dos movimentos dissonantes que se desenvolve por todo o palco.  

A verborragia presente em “Caranguejo Overdrive” enquadra a história de maneira performática diante da perplexidade visível no semblante de cada espectador, mesmo sob forte penumbra enevoada, como se compartilhando do chafurdamento na lama presente em cena – inquietante sensação que a instalação cênica impõe aos que adentram o mundo dos caranguejos, reduzindo-os à semelhança dos crustáceos, enquanto se arrastam para sobreviver, se imobilizam frente ao perigo e “andam para trás” para fugir dos obstáculos.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

A Senhora da Van


Deixar se levar pela vida

Baseado no livro homônimo do dramaturgo britânico Alan Bennett, também autor do roteiro do filme, “A Senhora da Van” retrata fatos reais de 1970 a 1980, em Camdem Town - bairro londrino onde vivia o dramaturgo interpretado por Alex Jennings que, durante quinze anos, acolheu, em sua garagem descoberta, a maltrapilha Miss Shepperd – vivida por Maggie Smith, juntamente com sua van fétida, caída aos pedaços. A direção de Nicholas Hytner consegue transpor o drama e o peculiar humor britânico em uma história que tangencia a solidão e o abandono de pessoas idosas, deixando a reflexão sobre a velhice, a partir do paralelismo entre a constatação da solidão da rabugenta senhora e a eficiência de Bennett em somente deixar se levar pela vida de Miss Shepperd.

domingo, 24 de abril de 2016

Cenas de um Casamento


Disseca o processo de separação de maneira dolorosa, com delicadeza incômoda, mas, absurdamente, coerente

O relacionamento à dois – engessado e rotulado pela instituição do casamento, associado à incongruência dos sentimentos instáveis e tempestuosos que afloram durante o processo e tido como aceitável, em se tratando de uma união social, com possível cunho religioso e, muitas vezes, envolvendo interesses financeiros – é fácil e comumente utilizado como fachada para ocultar o que de verdadeiro acontece por detrás de uma felicidade fictícia a ser endossada pela sociedade. Ficam além dos limites do campo de visão alheia – a vaidade, o egoísmo, a violência, a tristeza, o sentimento de abandono, a angústia e a constatação da morte matrimonial.

Sob a direção de Bruce Gomlevsky, o espetáculo “Cenas de um Casamento”, baseado na obra de autoria de Ingmar Bergman, assume uma dimensão extrema ao expor ao público o insustentável peso do mundo do “Até que a morte nos separe”. A tradução assinada por Maria Adelaide Amaral é precisa no enquadramento do real sentimento que aflora em meio aos protagonistas Marianne e Johan, vividos por Juliana Martins e Heitor Martinez, respectivamente, deixando-os à mercê do julgamento dos espectadores que, dependendo da sua base familiar de origem, de seus credos e, acima de tudo, das suas capacidades de discernimento, ficam à vontade para reagirem de forma diversa em seu veredito para com a instituição matrimonial.

Os episódios intitulados: “A Arte de Varrer Para Debaixo do Tapete”; “Cama de Pregos”; “Real e Irreal”; “Paula”; “Vale de Lágrimas”; “Os Analfabetos”; e “No Meio da Noite Numa Casa Escura em Algum Lugar do Mundo” – pulsam proporcionalmente à intensidade do desenho de luz de Elisa Tandera, não menos dramática do que são propostos demonstrar o contraste e a oscilação das emoções e sentimentos que conduzem o relacionamento de Marianne e Johan e os vazios que clamam por uma única manifestação de afeto, sequer. O projeto cenográfico assinado por Pati Faedo é concebido de modo a permitir que o recurso cênico, a despeito dos elementos que remetem à acumulação de lembranças estáticas, sofra sensíveis mutações, juntamente a rota da vida caleidoscópica do casal, a partir de peças de mobiliário desenhadas segundo rígida modulação de formas geométricas que se encaixam e se desencaixam, como se em um interminável processo de construção e desconstrução. O figurino de Ticiana Passos caracteriza os protagonistas de maneira significativa, adornando o casal como pessoas comuns, sensíveis, afetivas e críveis durante todo o processo que o conduz à derrocada matrimonial. A trilha sonora de Alex Fonseca potencializa todo o sentimento que reverbera na sala de espetáculos, acentuando o sentido de emergência em todos os episódios e permitindo o público desfrutar a experiência do verdadeiro “teatrão”, onde o espectador se surpreende a cada revelação arremessada no palco conta a plateia, que responde a tudo isso com a naturalidade de uma audiência a uma telenovela, na santa paz de seu lar.

Presente à apresentação do dia nove de abril de 2016, no Teatro dos Quatro, no Rio de Janeiro, o Circuito Geral resgata a atualidade da visionaridade bergmaniana da condição humana em “Cenas de um Casamento”, que disseca o processo de separação de maneira dolorosa, com delicadeza incômoda, mas, absurdamente, coerente.

sábado, 23 de abril de 2016

“Projeto MPB EVA” Moraes Moreira


Tarde de outono que o verão, desafiante, se recusa abandonar.

Sábado, dia 16 de abril de 2016 – a Fundação Eva Klabin abre os seus jardins para o show inaugural do “Projeto MPB EVA”, estrelando o cantor Moraes Moreira em uma apresentação intimista com uma hora e meia de duração, durante a qual, o cantor, compositor e poeta resgata alguns de seus grandes sucessos junto a uma plateia composta por cerca de cento e oitenta jovens senhoras e senhores que lota o acolhedor pátio externo coberto da casa, nessa tarde de outono que o verão, desafiante, se recusa abandonar.

Acompanhado pelo cantarolar da atenta plateia, o filho de Ituaçu – município do interior do Estado da Bahia – homenageia Os Novos Baianos com “Brasil Pandeiro” e, logo em seguida, declama o seguinte cordel que define a trajetória do grupo  do qual fez parte de 1969 a 1975: “Qual era mesmo o cenário? O regime autoritário, em clima de repressão assava a tropa em revista e exilava o artista, entristecendo a Nação. Apesar de tudo isso, cumprindo seu compromisso sem medo de ser feliz, a banda com tudo em cima levantou a autoestima do nosso imenso país.” – e dá sequência com “Besta é Tu”. A partir de então, a  nossa Pátria Amada Idolatrada também ganha um repertório peculiar que inicia com “Aquarela do Brasil” e “Isto Aqui, O Que É”, de autoria de Ary Barroso; “Canta Brasil”, de Alcyr Pires Vermelho e David Nasser; “La Vem O Brasil Descendo a Ladeira, de Pepeu Gomes” – com quem compartilha a autoria do sucesso, imediatamente ovacionado pela plateia ao expressar o quanto valoriza a força da mulher brasileira. Dando seguimento à empolgação que experimenta durante a sua apresentação, Moreira manda “Forró do ABC”, “Sintonia” e, claramente inspirado no poema “Autopsicografia”, de Fernando Pessoa, recita “A Dor e o Poeta” - “A dor atinge o peito do poeta, mas ele finge que nada sente e até se delicia...”. A primeira parte do espetáculo é fechada com “Preta Pretinha”, sob os aplausos fervorosos de seus fãs.

Quinze minutos foram suficientes para o cantor retornar com mais garra – dessa vez, mostrando sua faceta de cordelista, que lhe garante a cadeira número 38 da Academia Brasileira de Literatura de Cordel – declama “Luiz Gonzaga: O Nordestino do Século é o Nosso Rei do Baião”, emociona todos com “Asa Branca” e provoca movimentos dançantes na plateia sentada com “Respeita Januário” e “Sebastiana” – essa última, de autoria do alagoano Jackson do Pandeiro. Atendendo a pedidos, Moreira canta “Meninas do Brasil” sob aplausos, dando a deixa para a música de Paulo Leminski – “Valeu”.

“Eu Também Quero Beijar” prepara a finalização do show, que fecha com “Festa no Interior”, consagrando a primeira apresentação da série “Projeto MPB EVA”, cujos seguidores já têm um compromisso para com o próximo show, no dia 14 de maio de 2016, e cuja programação já se encontra à disposição no site da Fundação Eva Klabin.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Zoom


O surreal se posiciona no limiar da viabilidade, no âmbito da ficção

Estreante na cadeira da direção cinematográfica, Pedro Morelli assina o longa metragem “Zoom”, dando-se o direito ao abuso do experimental, projetando na telona uma história em quadrinhos no contexto de um livro que se mistura com o filme – uma verdadeira obra de ficção contada através da metalinguagem.

O roteiro desconstruído e desnorteado, de autoria de Matt Hansen, projeta Mariana Ximenes, Claudia O’Hanna, Allinson Pill,  Jason Priestley, Gael Garcia Bernal e Tyler Labine em uma dimensão onde atores brasileiros e estrangeiros são indiscriminada e naturalmente mesclados. A ótica clichê-brasileira aplicada aos atores exóticos, sequer o surreal consegue destruir, uma vez que o surreal se posiciona no limiar da viabilidade, no âmbito da ficção. Dessa forma, “Zoom” joga o foco no ser e descarta o não ser, de maneira plena e equilibrada, fazendo com que o espectador desenvolva a sua própria história e nela aplique o zoom necessário, sobre cada personagem, os quais, com certeza, nunca serão identificados por quem está fora das dimensões desse storyboard.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Roleta-Russa


A trama catalisadora dos sentimentos suicidas

Entre quatro paredes de um porão, nove filhos da elite e da classe média carioca e uma Magnum 608 definem as regras de um jogo que, sem sombra de dúvida, lhes custam as próprias vidas. O enredo assume a narrativa de uma delegada, direcionada para as mães que tiveram seus filhos subtraídos, após ter encontrado o livro de anotações de um dos jovens, descrevendo cada minuto vivido durante o nefasto passatempo, desde a primeira, até a última baixa no grupo. Uma trilha sonora, assinada por César Baptista, carregada com Santana, The Who, Stigmata, Radiohead, Metálica, Legião Urbana e contemplando a demoníaca versão de um dos maiores sucessos da Rainha dos Baixinhos – acompanha o despudorado desempenho sobre a banalização da morte, dramatizada pelo elenco composto por Dan Rosseto, Diogo Pasquim, Emerson Grotti, Felipe Palhares, Gabriel Chadan, Helio Souto, Lorrana Mousinho, Maria Dornelas e Virginia Castellões. De forma evidente, a trupe assume a dissonância e os movimentos involuntários provocados pela incorporação das notas do Rock Metal, exacerbando a dinâmica de palco, o gestual e o proferimento do texto, abrindo mão e conturbando uma possível harmonia entre composição de palco, equilíbrio temporal e sonoro das falas dos personagens – suicidas e gananciosos pelo desempenho individual, tomados pelo nervosismo e pela disritmia, como se cada um estivesse jogando, como de fato, uma partida na qual jamais tomariam parte novamente.

A arrogância, o preconceito, a estupidez e a superficialidade – particularidades extraídas do livro “Suicidas”, de autoria de Raphael Montes, no qual o espetáculo é baseado – são aprofundadas por César Baptista, também responsável pela direção e adaptação da obra de Montes, em especial, sobre as razões pelas quais os jovens são devorados pelos obscuros portais que se abrem para os demasiados mimos e super-protecionismos  maternos.  O figurino de Rodrigo Reinoso é essencial ao definir as verdades contidas nos panoramas internos de cada suicida em potencial, enquanto que, a cada morte, uma nova história individual desvenda a obscuridade presente em cada personagem. O desenho de luz assinado por Luiz Antonio Farina consegue transmitir o ódio e admiração, de forma desconexa, que guia os olhos do espectador para longe da narrativa conclusiva, deixando isso para a última cena do espetáculo. A cenotecnia de J.Newton Nori compartilha a memória do passado, presente e futuro, para dissolver, aos poucos, a trama catalisadora dos sentimentos suicidas, de forma visceral, gráfica e extremamente violenta – onde o sangue, objetos torturantes e a forca qualifica a minúcia do espetáculo “Roleta-Russa”, diante de uma plateia ansiosa, à espera, a qualquer momento, de uma bala perdida.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Mogli - O Menino Lobo


Um objeto de reflexão sobre os novos tempos

Uma coleção de histórias de autoria do escritor indiano Rudyard Kipling dá origem, em 1894, ao livro intitulado The Jungle Book, que se torna fonte de inspiração para a produção e lançamento, em 1967, do décimo-nono filme de animação pela Walt Disney Animation Studios - Mogli - O Menino Lobo, sob a direção de Wolfgang Reitherman.

Em 2016, uma releitura do clássico é lançada nas telas de cinema, sob a direção de 
Jon Favreau que lança mão da tecnologia “live-action” como recurso de filmagem diante do único ser humano presente no longa – o ator mirim Neel Sethi, que assume o papel do menino lobo, de corpo e alma, como um veterano, em meio a fantásticos, carismáticos e assustadores animais concebidos com base nos originais animados – agora, totalmente digitalizados. A magia da produção fica por conta da Moving PictureCompany que dedicou mais de 800 artistas de computação gráfica, durante mais de um ano, para viabilizar a animação de mais de 70 espécies de animais, pela elaboração de 100 milhões de folhas e pela simulação dos elementos naturais – a água, o fogo e a terra.

O atual roteiro, assinado por Justin Marks, realça o conflito entre a pureza e os perigos presentes na selva de forma tocante e ao mesmo tempo assombrosa. Dessa forma, “Mogli – O Menino Lobo” se enquadra dentre as produções se se configuram em mais do que um simples entretenimento, mas um objeto de reflexão sobre os novos tempos, a família, as amizades, a disciplina, a lealdade e a liberdade, a partir do conflito de um menino, adotado e criado em meio a uma alcateia e por uma pantera. Ainda menino, Mogli enfrenta a contrariedade do tigre Shere Khan, que não o aceita em convívio com os animais, pelo simples fato de considera-lo um predador em potencial, pondo em risco a vida na selva. Paralelamente, o menino lobo é cobiçado pelo Gigantopithecus, o Rei Louie – que comanda uma colônia de macacos selvagens – para que lhe seja revelado o segredo da “flor vermelha” – o fogo. Em meio a todos os perigos existentes na floresta, a vida de Mogli também é ameaçada pela sensual cobra de olhar hipnotizante - Kaa.

A trilha sonora atual merece especial atenção, devido à nova roupagem dada às canções originais de 1967, que exercem o papel de transmitir a essência da história de forma sutil, com um toque de saudosismo , tal e qual foi feito com “The Bare Necessities” – “Somente o Necessário”, na versão dublada para o português, adaptada e cantada pelo rapper 
Projota e “I Wanna Be Like You” – “O Rei do iê-iê-iê”, pela voz de Thiago Abravanel, que a empresta ao personagem Rei Louie. Mas não somente imagens e músicas fazem de “Mogli - O Menino Lobo” uma produção surpreendente, mas também a qualidade da dublagem dos diálogos da versão em português a partir de um time de atores primeira linha aos quais, os dois artistas mencionados anteriormente se integram – Alinne Moraes é a sedutora cobra Kaa; Dan Stulbach, a íntegra pantera Bagheera; Julia lemertz, a doce e protetora loba Rakcha;Marcos Palmeira, o divertido urso Baloo; e Thiago Lacerda, o nefasto tigre Shere Khan – todos merecedores dos créditos, da divulgação e do reconhecimento pelos seus trabalhos, uma vez que, como dubladores, emprestam aos personagens, a sua voz, e como atores, dedicam a sua alma.

Presente na exibição da versão 3D dublada para a imprensa, no Cinepolis Lagoon – Rio de Janeiro, em 13 de abril de 2016, O Circuito Geral percebe a atual produção de “Mogli – O Menino Lobo”, como um trabalho dirigido não somente ao público infantil, mas também aos adultos de um modo geral e, em especial, aqueles que buscam estímulos externos para ilustrar e consolidar os conceitos que fazem das crianças, verdadeiros homens – independente das dimensões, da composição étnica e da localização de suas aldeias.

Link para a coletiva de imprensa e fotos com o elenco de dublagem: 
http://goo.gl/rg34ss

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Estamira - Beira do Mundo


A estruturação do ser, através da não identificação com o próximo

Inspirado no documentário nacional homônimo lançado em 2005, dirigido por Marcos Prado, o espetáculo “Estamira”, sob a direção de Beatriz Sayad e com atuação, dramaturgia e idealização de Dani Barros, encontra-se em uma nova temporada, no Teatro Poeira, em Botafogo, no Rio de Janeiro, até 29 de maio de 2016.

A partir de um patchwork, com fragmentos compostos por reflexões, historicidade e loucura, Dani Barros legitima a teoria da prática do saber ouvir por parte do espectador, proferindo trechos de autoria de Ana Cristina Cesar, de Antonin Artaud, de Manoel de Barros, de Michel Foucault, de Nuno Ramos e da loucura consciente de Estamira Gomes de Souza – personagem da vida real que, na época da produção do documentário de Prado, era moradora e labutava no extinto e, até então, maior aterro sanitário da América Latina, no bairro de Jardim Gramacho, localizado no município de Duque de Caxias, no Estado do Rio de Janeiro, que recebia, até 2012, os resíduos  provenientes dos municípios vizinhos da Baixada Fluminense e também do município do Rio de Janeiro.

A construção da loucura almejada por Dani Barros é pontuada pelo forte desenho de luz de Tomás Ribas, em meio a uma instalação artística concebida por Aurora dos Campos, onde o espectador é inserido, em meio ao luxo da casa de espetáculo e do lixo como produto da dramaturgia – poeticamente ilustrado por sacos plásticos zelosa e estaticamente dispostos no placo; em dados momentos, dançantes como bailarinos que se deslocam pela corrente de ar provocada por equipamentos dispostos estrategicamente, como se lixo também o fossem, retratando não somente o belo visto pelos olhos de Estamira, mas também o que há de podre nos pensamentos de quem não se insere no contexto físico dos aterros sanitários e somente os alimentam. O entrelaçamento mental e sofrido da personagem é materializado por Juliana Nicolay, responsável pelo figurino, patologicamente valorizado pela incompletude da condição humana, definindo, como pauta do espetáculo “Estamira”, a estruturação do ser, através da não identificação com o próximo.  

O status da loucura, definido como socialmente legitimado por Foucault, não é, necessariamente, tido como legítimo em todos os núcleos sociais. “Estamira” se enquadra e se restabelece em cada padrão de normalidade da saúde mental que a convivência social lhe permite alcançar. Contudo, a exclusão como um ato de desmerecimento, absurda e ignobilmente, muitas vezes é percebida como distúrbio hereditário ou mental, que toma o lugar da lucidez e da razão. Mesmo quando o processo dramatúrgico acomete a personagem com uma sensação de mal-estar, e a mesma implora por socorro em meio a uma sala escura repleta de sacos plásticos esvoaçantes e diante de uma plateia estaticamente atenta às suas súplicas, a reação coletiva se mostra assustadora – ainda mais porque os espectadores não se encontram envolvidos no processo dramatúrgico e ali estão como meros personagens de suas vidas cotidianas.
Diante disso, o Circuito Geral toma a liberdade de somar às palavras da protagonista: “A minha depressão é imensa, não tem cura” – que a vergonha de ter presenciado aquela ação dramatúrgica pontual de Dani/Estamira e a respectiva reação do público, não é menos imensa e, muito provavelmente, sequer, curável.


Mais Forte que Bombas


Realismo pungente e perturbador


A imperfeição inacabada dos personagens do longa “Mais Forte que Bombas”, dirigido com determinação por Joachim Trier, mostra as contingências das vidas de uma família sob as circunstâncias de um luto.

A trama se concentra no personagem de uma mãe, que morre, possivelmente, vítima de um acidente ou por conta de suicídio, sendo ela o porto seguro do marido, dos filhos e de todos os demais personagens. O delírio do filme concentra-se no ponto onde a depressão, a alienação e a necessidade de aceitação pelo próximo se transmutam diante da tela respaldados pela excelente fotografia e pelo desempenho de Isabelle Huppert, como a mãe e célebre fotógrafa de guerra; de Jesse Eisenberg, como o filho mais velho que se torna pai; de Devin Druid, como o irmão caçula; e de Gabriel Byrne, como o pai que, devido ao luto, ao nascimento de seu neto, à dúvida, à certeza, à vida, à aceitação, ao dia seguinte e aos dias após os demais, endossa a capacidade implosiva do roteiro fruto da parceria entre Trier e Eskil Vog.


“Mais Forte que Bombas” esboça a vida contemporânea da instituição denominada família, com todas as suas sutilezas e realismo pungente e perturbador, à despeito da doentia delicadeza da narrativa do filme e sua conexão com as vidas dos personagens que, de fato, não vivem - sequer deixam morrer.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

The History – A Tribute Show to ABBA


Bem no estilo anos 1970

Noite de 8 de abril de 2016 – o Teatro Bradesco Rio torna-se palco para uma homenagem ao grupo sueco ABBA, que tanto marcou os embalos da geração dos anos 1970 e 1980. Como se embarcados em uma máquina do tempo, a grande maioria dos fãs do grupo e apreciadores de seus hits, que hoje beiram ou integram a terceira idade, são contemplados com uma inesquecível viagem em meio a lembranças e emoções.

No pano de fundo do palco, brilha o nome do espetáculo: “The History – A Tribute Show to ABBA”, estrelado por Mari Moraes como Agnetha, Patricia Andrade como Anni-Frid, Jheff Saints como Benny e Diego Sena como Björn, que brilhantemente representam os integrantes originais do grupo através do desempenho no palco e da interpretação das músicas que ainda fazem parte da trilha sonora de muitas produções.

Atento a tudo que se passa, o Circuito Geral, presente na plateia, percebe o poder de persuasão dos integrantes do grupo e da respectiva banda que, embora sendo todos brasileiros, não permitem que a mística se quebre e comandam a apresentação e se comunicam com o público no idioma inglês. A meta pretendida é atingida com a imersão total da plateia através das lembranças e da interatividade dos espectadores, cantando e dançando ao som da música – uma lente de aumento sobre a realidade alternativa levada ao palco.

A abertura do espetáculo se faz com a projeção de imagens de shows, de clipes e de documentários sobre o grupo ABBA, preparando a entrada do quarteto e respectiva banda que projetam os primeiros acordes de “Summer Night City, seguida por “Knowing Me, Knowing You” e “Money, Money, Money”, ainda com uma plateia tímida em estado de transe beirando a apatia. Combatendo a inércia presente junto ao público, Agnetha dialoga com os espectadores, indagando se o amor se faz presente – prontamente respondido de forma positiva, em uníssono, abrindo caminho para a execução de “I Do, I Do, I Do, I Do, I Do”. A partir de então, a plateia reage como se tomada por estímulos sensoriais e passa a se comportar como se estivesse, de fato, em um show do quarteto sueco, demonstrando encantamento, alegria e interagindo com os artistas, como em “Ring, Ring” – que a faz levantar que exibir suas mãos para cima, coreografando a apresentação. Uma coletânea de algumas das principais canções como “Our Last Summer” e “Thank You For The Music” acelera o desempenho sobre a vasta produção do grupo ABBA e prepara os protagonistas para a troca de figurino, deixando a banda composta por Davi Fernandes, nos teclados; Glauco Almeida, no baixo; Cleber Soares, na bateria e Christian Coelho, na guitarra em um solo instrumental para manter a chama do público acesa até o retorno do grupo quarteto ao palco.

A beleza presente em “The Winner Takes It All” é potencializada pelo duo entre Benny e Agnetha, que provocam um frenesi coletivo ao descerem do palco, acompanhados por Anni-Frid e Björn, e ao se lançarem em calorosos cumprimentos junto aos espectadores, descontraindo e inflamando ainda mais o espetáculo ao entoarem “The Name of The Game”. A tentativa de despedida com “Waterloo” se faz inconsistente com a plateia de pé, que se manifesta silenciosamente, demostrando recusa em abandonar a sala de espetáculos sem que ouçam a canção mais esperada da noite – “Dancing Queen”, cuja execução transforma todo o espaço em uma enorme discoteca, bem no estilo anos 1970. 


Kinoplex Rio Sul


O Shopping Rio Sul torna-se um point para os cinéfilos 

No dia 8 de abril de 2016, o Circuito Geral comparece ao evento de apresentação, com exclusividade para a imprensa, do novo Kinoplex Rio Sul, em Botafogo, que deixa a sua antiga localização no terceiro piso e se instala no G3, contemplando seis hiper salas de exibição digital, de acordo com os seguintes formatos: duas Salas 3D KinoEvolution – com tela gigante, além de som e imagem de última geração, com capacidade total para 342 pessoas; quatro Salas Platinum, dando seguimento ao conceito VIP da rede, com poltronas reclináveis e serviços diferenciados, sendo duas salas 3D, atendendo um total de 205 pessoas e duas salas 2D que comportam um total de 191 pessoas.

O diferencial pode ser constatado a partir das dimensões dos dois foyers contemplados por generosos e agradáveis ambientes de estar. A iluminação ambiente equilibrada, equipamentos de refrigeração de ar compatíveis com a lotação máxima provável dos cinemas e detalhes especiais do forro de teto garantem as condições ideais para promover o conforto lumínico, térmico e acústico dos usuários. A acessibilidade, por sua vez, está contemplada por elevador e sanitário exclusivo para portadores de necessidades especiais.

A partir desse novo empreendimento, o Shopping Rio Sul torna-se um point para os cinéfilos que, além de condições diferenciadas para assistirem seus filmes prediletos, lhes são agregados conforto e alta tecnologia, como demostrada nas salas KinoEvolution, equipadas telas compatíveis para projeção de imagem 3D full HD, sistema de som 7.1 tri-amplificado e tela de 110m², promovendo total imersão e emoção. 

A bilheteria preferencial e a bomboniere exclusiva dão um charme à mais ao novo conceito de cinema, juntamente com o serviço de entrega de produtos nas salas, a partir de um cardápio diferenciado que contempla pipocas gourmand com azeite saborizado, pães de queijo com molhos especiais, cachorro-quente, cerveja, vinhos e muito mais.

As salas estarão abertas ao público a partir do dia 14 de abril de 2016, com preços variados, conforme condições a seguir:

KinoEvolution 2D

segunda e terças-feira (exceto feriados) R$30,00
quarta-feira R$ 26,00
de quinta-feira a domingo R$ 36,00
  
KinoEvolution 3D

segunda e terças-feira (exceto feriados) R$35,00
quarta-feira R$ 33,00
de quinta-feira a domingo R$ 38,00

Kinoplex Platinum 2D

segunda a quarta-feira (exceto feriados) R$50,00
de quinta-feira a domingo R$ 60,00

Kinoplex Platinum 3D

segunda a quarta-feira (exceto feriados) R$55,00
de quinta-feira a domingo R$ 65,00


sexta-feira, 8 de abril de 2016

Asterix: O Domínio dos Deuses


Transcende o “fin”

Mais uma adaptação das obras literárias do Gaulês Asterix, originalmente lançadas em quadrinhos, é levada para a telona no formato animação – “O Domínio dos Deuses”. Diálogos maduros conjugados à simplicidade da inocência conseguem despertar interesse em toda a família devido à narrativa ficcional contemporânea que remete a uma atualidade perceptível por parte dos adultos, ao mesmo tempo em que é encarada com naturalidade pelo público infantil. Além do carisma conquistado ao longo de sua trajetória junto a tantas gerações, os personagens emanam uma carga extra de encanto devido à sua materialização virtual.

A história tem como enredo mais uma tentativa de domínio dos gauleses por parte de Roma através da construção de um condomínio residencial – projetado pelo arquiteto Anglaigus, por ordem de Júlio Cesar – dentro da floresta que rodeia a aldeia gaulesa onde habitam Asterix, Obelix, Ideafix e sua turma.

“Asterix: O Domínio dos Deuses”, nos brinda com a direção envolvente de Louis Clichy, que direciona a comicidade presente na história na medida certa da compreensão por parte dos adultos e das crianças, além de incutir no público infantil o interesse por assuntos culturais, sociais e econômicos, diante de uma sociedade muito próxima à realidade em que vivemos, desenhada na tela e que transcende o  “fin” na sala de projeção.



quarta-feira, 6 de abril de 2016

A Vida Dela


Valores cambiados pelos recursos pessoais

A partir de uma abordagem psicoterapêutica, com diagnóstico típico de um subsistema direcionado a pais e filhos, o texto disfuncional – “A Vida Dela”, assinado por Priscila Gontijo, relativa indivíduos que compõem círculos sócio-profissionais e um núcleo familiar acometido por uma síndrome de distúrbios de relacionamentos entre três irmãos que se reencontram, quando dois deles retornam à casa paterna e reexperimentam o convívio diário, interrompido desde a infância.

Transportada para o palco, a exacerbação dos sentimentos decorrente da lida mútua com as excentricidades fraternas exige forte rigidez da direção de Delson Antunes que busca apoio emocional no protecionismo, no heroísmo e na santidade visando à auto afirmação dos protagonistas frente às interpretações de foro psicológico, como se fossem bodes expiatórios do próprio elenco, formado por Isabel Gueron, Rodolfo Mesquita e Vandré Silveira. O projeto cenográfico, assinado por José Dias, traduz um espaço que um dia poderia ter sido chamado de lar, esquecido pelo tempo, sem vida, que se descortina através de planejamentos translúcidos e opacos como as impiedosas marcas temporais, projetando perturbações involuntárias sem a menor intenção de disfarce ou de anulação diante das discussões familiares. Enquanto que o figurino comunicacional e conflitante de Luiza Marcier afirma o que difere entre crenças, opiniões e emoções em meio ao trio de irmãos e seu progenitor – que se faz presente por seus passos e pelo som emanado pela sua máquina de escrever – o dramático desenho luminotécnico de Fernanda e Tiago Mantovani defende, com veemência, a negatividade e a insalubridade presentes nos sentimentos, com intolerância de cores e irrelevância da temperatura cômica em seu brilho, que oscila entre a obtusidade visual promovida pela penumbra e a ofuscante intensidade lumínica. Azeitando tais perturbadores recursos cênicos, a percepção de Rodrigo Maranhão, através de sua trilha sonora, desenvolve uma alternância entre música e luz, acirrando a contradição presente entre os Mantovanis, tornando cada cena em uma experiência quase terapêutica.

Ao abordar e explorar o conjunto familiar como um sistema de valores cambiados pelos recursos pessoais, a vida “dela” – leia-se a vida de Izabel, incorporada por Gueron – perde o sentido e quase a importância, quando o espectador se dá conta do preço do improvável que, em sua tag, consta como um valor genérico e possivelmente exorbitante para meros mortais.