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quarta-feira, 6 de abril de 2016

A Vida Dela


Valores cambiados pelos recursos pessoais

A partir de uma abordagem psicoterapêutica, com diagnóstico típico de um subsistema direcionado a pais e filhos, o texto disfuncional – “A Vida Dela”, assinado por Priscila Gontijo, relativa indivíduos que compõem círculos sócio-profissionais e um núcleo familiar acometido por uma síndrome de distúrbios de relacionamentos entre três irmãos que se reencontram, quando dois deles retornam à casa paterna e reexperimentam o convívio diário, interrompido desde a infância.

Transportada para o palco, a exacerbação dos sentimentos decorrente da lida mútua com as excentricidades fraternas exige forte rigidez da direção de Delson Antunes que busca apoio emocional no protecionismo, no heroísmo e na santidade visando à auto afirmação dos protagonistas frente às interpretações de foro psicológico, como se fossem bodes expiatórios do próprio elenco, formado por Isabel Gueron, Rodolfo Mesquita e Vandré Silveira. O projeto cenográfico, assinado por José Dias, traduz um espaço que um dia poderia ter sido chamado de lar, esquecido pelo tempo, sem vida, que se descortina através de planejamentos translúcidos e opacos como as impiedosas marcas temporais, projetando perturbações involuntárias sem a menor intenção de disfarce ou de anulação diante das discussões familiares. Enquanto que o figurino comunicacional e conflitante de Luiza Marcier afirma o que difere entre crenças, opiniões e emoções em meio ao trio de irmãos e seu progenitor – que se faz presente por seus passos e pelo som emanado pela sua máquina de escrever – o dramático desenho luminotécnico de Fernanda e Tiago Mantovani defende, com veemência, a negatividade e a insalubridade presentes nos sentimentos, com intolerância de cores e irrelevância da temperatura cômica em seu brilho, que oscila entre a obtusidade visual promovida pela penumbra e a ofuscante intensidade lumínica. Azeitando tais perturbadores recursos cênicos, a percepção de Rodrigo Maranhão, através de sua trilha sonora, desenvolve uma alternância entre música e luz, acirrando a contradição presente entre os Mantovanis, tornando cada cena em uma experiência quase terapêutica.

Ao abordar e explorar o conjunto familiar como um sistema de valores cambiados pelos recursos pessoais, a vida “dela” – leia-se a vida de Izabel, incorporada por Gueron – perde o sentido e quase a importância, quando o espectador se dá conta do preço do improvável que, em sua tag, consta como um valor genérico e possivelmente exorbitante para meros mortais.

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