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quarta-feira, 27 de abril de 2016

Caranguejo Overdrive



... à semelhança dos crustáceos, enquanto se arrastam para sobreviver, se imobilizam frente ao perigo e “andam para trás” para fugir dos obstáculos

“Nós somos o que comemos” – frase de autoria do filósofo alemão Feurbach, ratificada pelo espetáculo musical “Caranguejo Overdrive”, cujo texto, de autoria de Pedro Kosovski, é baseado no livro do cientista político Josué de Castro – “Homens e Caranguejos”. A narrativa, apesar de não assumir a configuração de um documentário, se sustenta em fatos históricos com rota que transita no tempo quando da Guerra do Paraguai, com ponto de partida definido pela antiga região do mangue da cidade do Rio de Janeiro, conhecida como Rocio, onde Cosme, um catador de caranguejos, fora criado e que, dali, extraía o seu sustento. Convocado para a guerra é exposto aos horrores do combate em solo paraguaio até retornar ao Rio de Janeiro, como ex-combatente, quando constata o aterramento do mangue durante as obras que modificaram a cidade naquela ocasião.  A direção de Marco André Nunes drena a essência dos personagens e a asperge sobre a plateia, que transfere o seu olhar e a sua percepção para uma saga compacta de um catador de caranguejos que se sente exilado em sua própria terra e que, a partir de então, passa a percorrer as ruas da cidade em busca de uma identidade perdida.

Regente de um conjunto de recursos cênicos impactantes e da força presente no desempenho dramatúrgico do elenco composto por “Aquela CIA” – que assume uma angustiante mutação durante o espetáculo – Nunes conquista autonomia na dissertação sobre as mazelas sociais e sobre a luta pela reinserção social no contexto temporal e espacial, após a derrota do Paraguai naquele longo e violento embate, e da formação da chamada Tríplice Aliança, entre o Brasil, a Argentina e o Uruguai. Uma banda presente entre os elementos cenográficos, reverbera sons que misturam ritmos regionais – dentre eles, o maracatu, rock, hip hop, funk rock e música eletrônica – e estremece a casa de espetáculos, resgatando o movimento contracultura surgido no Brasil na década de 90, na capital pernambucana, Recife – o manguebeat, denunciando o abandono sócio econômico do mangue – e montando um quebra-cabeças de um panorama político brasileiro, passando pelas “Diretas Já!”, pelo “Impeachment de Collor de Mello” e aterrissando na conjuntura política da atualidade. Pincelando essa tela quadridimensional, a iluminação impregnada de dramaticidade, de Renato Machado, se faz ímpar, moldando e evoluindo com as cenas, sempre dinâmicas e repleta de simbolismos, adequando-se à música e potencializando, de forma quase que destruidora, a dança dos movimentos dissonantes que se desenvolve por todo o palco.  

A verborragia presente em “Caranguejo Overdrive” enquadra a história de maneira performática diante da perplexidade visível no semblante de cada espectador, mesmo sob forte penumbra enevoada, como se compartilhando do chafurdamento na lama presente em cena – inquietante sensação que a instalação cênica impõe aos que adentram o mundo dos caranguejos, reduzindo-os à semelhança dos crustáceos, enquanto se arrastam para sobreviver, se imobilizam frente ao perigo e “andam para trás” para fugir dos obstáculos.

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