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domingo, 24 de abril de 2016

Cenas de um Casamento


Disseca o processo de separação de maneira dolorosa, com delicadeza incômoda, mas, absurdamente, coerente

O relacionamento à dois – engessado e rotulado pela instituição do casamento, associado à incongruência dos sentimentos instáveis e tempestuosos que afloram durante o processo e tido como aceitável, em se tratando de uma união social, com possível cunho religioso e, muitas vezes, envolvendo interesses financeiros – é fácil e comumente utilizado como fachada para ocultar o que de verdadeiro acontece por detrás de uma felicidade fictícia a ser endossada pela sociedade. Ficam além dos limites do campo de visão alheia – a vaidade, o egoísmo, a violência, a tristeza, o sentimento de abandono, a angústia e a constatação da morte matrimonial.

Sob a direção de Bruce Gomlevsky, o espetáculo “Cenas de um Casamento”, baseado na obra de autoria de Ingmar Bergman, assume uma dimensão extrema ao expor ao público o insustentável peso do mundo do “Até que a morte nos separe”. A tradução assinada por Maria Adelaide Amaral é precisa no enquadramento do real sentimento que aflora em meio aos protagonistas Marianne e Johan, vividos por Juliana Martins e Heitor Martinez, respectivamente, deixando-os à mercê do julgamento dos espectadores que, dependendo da sua base familiar de origem, de seus credos e, acima de tudo, das suas capacidades de discernimento, ficam à vontade para reagirem de forma diversa em seu veredito para com a instituição matrimonial.

Os episódios intitulados: “A Arte de Varrer Para Debaixo do Tapete”; “Cama de Pregos”; “Real e Irreal”; “Paula”; “Vale de Lágrimas”; “Os Analfabetos”; e “No Meio da Noite Numa Casa Escura em Algum Lugar do Mundo” – pulsam proporcionalmente à intensidade do desenho de luz de Elisa Tandera, não menos dramática do que são propostos demonstrar o contraste e a oscilação das emoções e sentimentos que conduzem o relacionamento de Marianne e Johan e os vazios que clamam por uma única manifestação de afeto, sequer. O projeto cenográfico assinado por Pati Faedo é concebido de modo a permitir que o recurso cênico, a despeito dos elementos que remetem à acumulação de lembranças estáticas, sofra sensíveis mutações, juntamente a rota da vida caleidoscópica do casal, a partir de peças de mobiliário desenhadas segundo rígida modulação de formas geométricas que se encaixam e se desencaixam, como se em um interminável processo de construção e desconstrução. O figurino de Ticiana Passos caracteriza os protagonistas de maneira significativa, adornando o casal como pessoas comuns, sensíveis, afetivas e críveis durante todo o processo que o conduz à derrocada matrimonial. A trilha sonora de Alex Fonseca potencializa todo o sentimento que reverbera na sala de espetáculos, acentuando o sentido de emergência em todos os episódios e permitindo o público desfrutar a experiência do verdadeiro “teatrão”, onde o espectador se surpreende a cada revelação arremessada no palco conta a plateia, que responde a tudo isso com a naturalidade de uma audiência a uma telenovela, na santa paz de seu lar.

Presente à apresentação do dia nove de abril de 2016, no Teatro dos Quatro, no Rio de Janeiro, o Circuito Geral resgata a atualidade da visionaridade bergmaniana da condição humana em “Cenas de um Casamento”, que disseca o processo de separação de maneira dolorosa, com delicadeza incômoda, mas, absurdamente, coerente.

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