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quarta-feira, 13 de abril de 2016

Estamira - Beira do Mundo


A estruturação do ser, através da não identificação com o próximo

Inspirado no documentário nacional homônimo lançado em 2005, dirigido por Marcos Prado, o espetáculo “Estamira”, sob a direção de Beatriz Sayad e com atuação, dramaturgia e idealização de Dani Barros, encontra-se em uma nova temporada, no Teatro Poeira, em Botafogo, no Rio de Janeiro, até 29 de maio de 2016.

A partir de um patchwork, com fragmentos compostos por reflexões, historicidade e loucura, Dani Barros legitima a teoria da prática do saber ouvir por parte do espectador, proferindo trechos de autoria de Ana Cristina Cesar, de Antonin Artaud, de Manoel de Barros, de Michel Foucault, de Nuno Ramos e da loucura consciente de Estamira Gomes de Souza – personagem da vida real que, na época da produção do documentário de Prado, era moradora e labutava no extinto e, até então, maior aterro sanitário da América Latina, no bairro de Jardim Gramacho, localizado no município de Duque de Caxias, no Estado do Rio de Janeiro, que recebia, até 2012, os resíduos  provenientes dos municípios vizinhos da Baixada Fluminense e também do município do Rio de Janeiro.

A construção da loucura almejada por Dani Barros é pontuada pelo forte desenho de luz de Tomás Ribas, em meio a uma instalação artística concebida por Aurora dos Campos, onde o espectador é inserido, em meio ao luxo da casa de espetáculo e do lixo como produto da dramaturgia – poeticamente ilustrado por sacos plásticos zelosa e estaticamente dispostos no placo; em dados momentos, dançantes como bailarinos que se deslocam pela corrente de ar provocada por equipamentos dispostos estrategicamente, como se lixo também o fossem, retratando não somente o belo visto pelos olhos de Estamira, mas também o que há de podre nos pensamentos de quem não se insere no contexto físico dos aterros sanitários e somente os alimentam. O entrelaçamento mental e sofrido da personagem é materializado por Juliana Nicolay, responsável pelo figurino, patologicamente valorizado pela incompletude da condição humana, definindo, como pauta do espetáculo “Estamira”, a estruturação do ser, através da não identificação com o próximo.  

O status da loucura, definido como socialmente legitimado por Foucault, não é, necessariamente, tido como legítimo em todos os núcleos sociais. “Estamira” se enquadra e se restabelece em cada padrão de normalidade da saúde mental que a convivência social lhe permite alcançar. Contudo, a exclusão como um ato de desmerecimento, absurda e ignobilmente, muitas vezes é percebida como distúrbio hereditário ou mental, que toma o lugar da lucidez e da razão. Mesmo quando o processo dramatúrgico acomete a personagem com uma sensação de mal-estar, e a mesma implora por socorro em meio a uma sala escura repleta de sacos plásticos esvoaçantes e diante de uma plateia estaticamente atenta às suas súplicas, a reação coletiva se mostra assustadora – ainda mais porque os espectadores não se encontram envolvidos no processo dramatúrgico e ali estão como meros personagens de suas vidas cotidianas.
Diante disso, o Circuito Geral toma a liberdade de somar às palavras da protagonista: “A minha depressão é imensa, não tem cura” – que a vergonha de ter presenciado aquela ação dramatúrgica pontual de Dani/Estamira e a respectiva reação do público, não é menos imensa e, muito provavelmente, sequer, curável.


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