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segunda-feira, 4 de abril de 2016

Fatal


A descoberta da paixão, do seu refúgio através da sua negação e, por fim, da dor como meio de libertação

O “darkroom”, concebido como foco de disseminação de manifestações poéticas a partir de uma boca de cena inexistente, toma toda a sala de espetáculos do OI Futuro Flamengo, naquela noite de vinte e seis de março de 2016,  dragando a plateia para o seu núcleo como um buraco negro que limita a percepção sensorial da visão e da audição dos espectadores ao breu e às palavras proferidas por fontes, até aquele momento, não identificadas. Contudo, todo o tempo, cuja previsibilidade de término é capaz de provocar momentos de ansiedade junto ao público presente, não passa de uma forma de prologar um espetáculo que retrata o inconsciente sintomático do espectador relativamente à sua vida afetiva e romântica – imagem essa que, para se auto validar, faz do sofrimento palavra de ordem, de tal forma, a capacitar os amantes a tudo e a qualquer coisa, em nome da paixão.

Não é a primeira, sequer a última obra que, a partir da moldagem pelas mãos de Guilherme Leme Garcia, se transmuta em uma obra a ser contemplada em uma galeria no decorrer de uma produção cultural especializada em artes visuais. A inquestionável direção de Garcia lança mão da materialização de mitos e lendas a partir dos textos proferidos para transmitir a descoberta da paixão, do seu refúgio através da sua negação e, por fim, da dor como meio de libertação – artifício que conta com o empenho de Pedro Kosovski, que entrelaça a história de Eros e Psiquê, em “Monstros”; de Marcia Zanelatto, que invoca Tristão e Isolda, em “Peep Show”; e de Jô Bilac, que encerra com Kama e Rati, em “Kama-Sutra Secreto”. O interlúdio artístico da união desses três dramaturgos é sensualmente declamado pelo par formado por Debora Lamm – que abraça cada palavra como se delas a sua alma dependesse, e por Paulo Verlings – como seu consorte, proclamando um casamento artístico seguro, espontâneo, excitante e apaixonante. O desenho de luz de Tomás Ribas se movimenta como se energia fosse, ao iluminar os corpos do casal - totalmente vestidos em negro pelo impecável figurino de Marcelo Olinto - que se acendem onde os fachos de luz atingem suas tezes que, por sua vez, os refletem como se impulsionados em decorrência de um gozo estimulado pelo espectro luminoso incidente e que atinge, de forma certeira, a consciência erótica do espectador. Fomentando o crescente desejo ao longo da emulação mental travada entre o desempenho dos protagonistas e a assimilação do espetáculo por parte dos espectadores, a trilha sonora de Marcello H. se atrela ao conjunto da obra como momentos de paixão repletos de êxtase, em meio a um cenário, concebido por Aurora dos Campos, que alimenta cada um dos recursos cênicos, perspectivados por seus planos dispostos, sutilmente, assimétricos, contemplando cavidades, translucidezes e opacidades capazes de driblar os olhares dos observadores atentos daqueles atos íntimos verbalizados por Lamm e por Verlings – de forma inebriante, contagiante, involuntária e “Fatal”.


Circuito Geral                                                           foto: divulgação

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