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segunda-feira, 18 de abril de 2016

Roleta-Russa


A trama catalisadora dos sentimentos suicidas

Entre quatro paredes de um porão, nove filhos da elite e da classe média carioca e uma Magnum 608 definem as regras de um jogo que, sem sombra de dúvida, lhes custam as próprias vidas. O enredo assume a narrativa de uma delegada, direcionada para as mães que tiveram seus filhos subtraídos, após ter encontrado o livro de anotações de um dos jovens, descrevendo cada minuto vivido durante o nefasto passatempo, desde a primeira, até a última baixa no grupo. Uma trilha sonora, assinada por César Baptista, carregada com Santana, The Who, Stigmata, Radiohead, Metálica, Legião Urbana e contemplando a demoníaca versão de um dos maiores sucessos da Rainha dos Baixinhos – acompanha o despudorado desempenho sobre a banalização da morte, dramatizada pelo elenco composto por Dan Rosseto, Diogo Pasquim, Emerson Grotti, Felipe Palhares, Gabriel Chadan, Helio Souto, Lorrana Mousinho, Maria Dornelas e Virginia Castellões. De forma evidente, a trupe assume a dissonância e os movimentos involuntários provocados pela incorporação das notas do Rock Metal, exacerbando a dinâmica de palco, o gestual e o proferimento do texto, abrindo mão e conturbando uma possível harmonia entre composição de palco, equilíbrio temporal e sonoro das falas dos personagens – suicidas e gananciosos pelo desempenho individual, tomados pelo nervosismo e pela disritmia, como se cada um estivesse jogando, como de fato, uma partida na qual jamais tomariam parte novamente.

A arrogância, o preconceito, a estupidez e a superficialidade – particularidades extraídas do livro “Suicidas”, de autoria de Raphael Montes, no qual o espetáculo é baseado – são aprofundadas por César Baptista, também responsável pela direção e adaptação da obra de Montes, em especial, sobre as razões pelas quais os jovens são devorados pelos obscuros portais que se abrem para os demasiados mimos e super-protecionismos  maternos.  O figurino de Rodrigo Reinoso é essencial ao definir as verdades contidas nos panoramas internos de cada suicida em potencial, enquanto que, a cada morte, uma nova história individual desvenda a obscuridade presente em cada personagem. O desenho de luz assinado por Luiz Antonio Farina consegue transmitir o ódio e admiração, de forma desconexa, que guia os olhos do espectador para longe da narrativa conclusiva, deixando isso para a última cena do espetáculo. A cenotecnia de J.Newton Nori compartilha a memória do passado, presente e futuro, para dissolver, aos poucos, a trama catalisadora dos sentimentos suicidas, de forma visceral, gráfica e extremamente violenta – onde o sangue, objetos torturantes e a forca qualifica a minúcia do espetáculo “Roleta-Russa”, diante de uma plateia ansiosa, à espera, a qualquer momento, de uma bala perdida.

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