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sexta-feira, 29 de abril de 2016

Slava’s Snowshow


Alegria de um palhaço triste

Os acessos à sala de espetáculo são portais que separam a realidade do sonho. Deixa-se para trás, um mundo onde a rotina escraviza os homens e os afasta entre si, e mergulha-se numa dimensão onde a visão é ofuscada pelo contraste de luzes amarelas e azuis, em meio a uma atmosfera opalescente. Ao mesmo tempo, o sentido da audição é estimulado de forma inebriantemente hipnótica, envolvendo todos que ali adentram e que se permitem entregar para o que ali vieram buscar, em uma sonoridade viajante por meio de um imaginário Expresso Maria Fumaça que recebe, continuamente, mais e mais passageiros, dentre crianças e adultos, a caminho do imprevisível contido no espetáculo Slava's SnowShow - Rio de Janeiro​ no Teatro Bradesco Rio​ até o dia 1° de maio de 2016.

Em meio a uma boca de cena tomada por um cerúleo noturno, a criatividade do russo Slava Polunin​ pincela, a presença de um palhaço – vestindo um folgado traje de cor amarela, complementado por despojados adereços vermelhos protegendo seu pescoço e pés do frio sugerido pela temática do show – cuja face emoldurada por seus desgrenhados cabelos e pontuada por seu nariz escarlate, expressa a tristeza contida em seu semblante, mas pronto a doar o seu dom de fazer graça, para alegrar a vida dos adultos presentes na plateia e, contribuir para que as crianças, também presentes, se tornem adultos melhores. Dando início ao espetáculo, na companhia de sua trupe de exóticos “clowns” de pés grandes, vestindo sobretudos verdes e chapéus russos estilizados, Slava ensaia os primeiros movimentos pantomímicos embalado pela primeira dentre as pérola que compõem uma seleta trilha sonora – “I Was too Good for You, de McKeith Cordell. Em um simbólico resgate da importância da vida, Slava traz para si, através do extremo oposto de uma corda com a qual se demonstra desejoso de por fim à sua história, a lição esperançosa, através do primeiro exemplar verde, dentre os cinco tristes palhaços alegres que a ele se juntam e participam de um dos maiores lúdicos e simbólicos espetáculos de todos os tempos, ao som de “Edges of Illusion”, de autoria de John Surman​.

A pluridimensionalidade de sons – que sugere animais, vento, água, uma diversidade inumerável de ruídos e verbalizações onomatopaicas – é direcionada aos espectadores segundo avançada técnica de realidade sonora, que interage, precisamente, com o desenho de luz, todos ritmados pelo mix de músicas pop, clássicas e eletrônicas, fomentando a tensão dos olhos dos espectadores, sedentos por magia e que emprestam os seus sentidos ao som de “Illusion”, por L. Subramanian & Stéphane Grapelli, de forma tal a dotar de soberania qualquer sonho, por mais simples que seja. O drama e a comédia, o riso e a crueldade sem malícia são despejados, sob forma de bolhas de sabão e chuva de fragmentos, até o momento do previamente comunicado intervalo de vinte minutos, mas não sem antes cobrir toda a plateia com simbólica uma névoa gelada ao som do Bolero, de Maurice Ravel, mixado com Jorge Ben Jor​.

Dando seguimento ao segundo ato do espetáculo, a horda de palhaços verdes interage intensamente junto aos espectadores atônitos, invade a plateia, caminha sobre as cadeiras e abusa do público de forma divertida e perversamente ingênua, ao som do tema de “Peter Gun”, de Henry Mancini​. Momento de descontração infantil – Slava se aproxima do público através da simulação de um diálogo telefônico, por meio de aparelhos estilizados em formato vintage, provavelmente desconhecidos pela maioria das crianças da era tecnológica. Fazem parte do espetáculo, seres mágicos esvoaçantes e andarilhos não identificados, brinquedos que não mais fazem parte do dia a dia do público infantil, cenas que remetem a tristes Natais, aos medos e aos desejos arraigados dentro de todos nós e que somente afloram diante daqueles que nos despertam total confiança. Sons provenientes do apito, da emissão dos vapores e do pleno funcionamento do Expresso Maria Fumaça se juntam à musicalidade de “La Petite Fille De La Mer” de Vangelis​ e presenteia o público com um dos mais ternas e emocionantes cenas, durante as quais, Slava divide a sua capacidade de amar com um elemento inanimado ao qual dá vida, aliviando a sua carência e a falta de alguém com quem compartilhar sua vida – um número melancólico, mas repleto de esperança. Após toda uma demonstração de quanto vale a pena viver cada minuto de nossas vidas, o desfecho do espetáculo não poderia ser menos apoteótico, ao som de “O Forntuna” – um dos vinte e quatro poemas dos Carmina Burana, musicalizados por Carl Orff​ – desbravando a porta da percepção, com uma surpreendente tempestade de “neve”. A partir de então, todas as cordas, ainda presentes nos pescoços dos espectadores mais contidos, são arrancadas dando espaço à alegria de viver, iluminando todo o teatro e definindo todos os presentes como seres que compartilham de um mundo repleto de carências, medos, tristezas, desesperos, mas também, de boa vontade e de amor.

Ainda em meio a aplausos e ovações por parte da plateia, Slava e sua trupe agradecem, tendo como fundo musical “Le Soldat Tufaiev Se Marie”, por Zelwer, mixado com sons do Expresso Maria Fumaça, retomando Illusion, até levar o público à exaustão com o grand finale, ao som da versão de Aldo Conti de “Blue Canary”, de autoria de Vicent C. Fiorino, durante o qual, a plateia é presenteada com gigantescas bolas coloridas, infladas de ar, provocando uma interação entre os espectadores jamais vista – momento em que crianças, jovens, adultos e idosos, participam da mesma brincadeira sem qualquer ranço de auto censura, imersos na magia da travessura que faz do som das risadas um hino, como a exacerbação da vida, semeada pela alegria de um palhaço triste que renova seu compromisso com a vida, a cada apresentação de seu “Snowshow”.


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