Counter

terça-feira, 31 de maio de 2016

Lulu - Clube£ux


Abalando a estrutura do edifício, no coração da Lapa

Luiz Maurício – mais conhecido como Lulu, acompanhado de sua banda, comparece, ao apagar das luzes da noite de 28 de maio de 2016, diante de um mar de gente que invade a Fundição Progresso, no centro do Rio de Janeiro, para embarcar em uma viagem, com partida no início dos anos 1980, promovida pelo show “Clube£ux”, que conduz a legião de fãs do artista no embalo de hits e de novidades presentes em seu mais novo álbum, que leva o seu nome de batismo.

A pontualidade de Lulu Santos para com o início do espetáculo faz jus ao seu porte de um despojado, mas sempre elegante e figurado Lorde, abrindo o show com o sucesso “Toda Forma de Amor”, seguido de “Já É” e levantando a multidão com “Aviso aos Navegantes”. Toda a plateia se faz receptiva ao desabrochar do romantismo a partir de “Um Certo Alguém” e de “O Último Romântico”, dando vez à versão de “Baião” de Luiz Gonzaga, como introdução para que “Tudo Azul” cubra a multidão com um acolhedor cerúleo que aquece seus corações, presenteados com “Apenas Mais Uma de Amor”. Sob um delirante e romântico transe, os passageiros da Fundição Progresso são reconectados ao século XXI – através de “Sócio do Amor”, um dos sucessos de seu mais recente álbum – com direito uma saudosa gandaia embalada por “Dancin’ Days”. Na voz do baixista Jorge Ailton, “Clube£ux” retoma o ano de 1986 com “Kiss”, prestando um condigno tributo ao funk do insubstituível “Prince”.

Seguindo a rota de volta à atualidade, a luz emanada pelas telas dos smartphones transforma a trajetória, ao som de “S.D.V”, em um mar resplandecente, culminado em um breve intervalo para a recomposição da banda e de seu comandante, mantendo um patchwork sonoro composto por alguns sucessos de Lulu Santos, mixados pelo DJ Sany Pitbull.

A segunda parte do show explode ao som do “Descobridor dos Sete Mares”, de Tim Maia e, nesse momento, conta com a presença bombástica de Seu Jorge, abalando a estrutura do edifício, no coração da Lapa. Aplacando os ânimos, o playlist define uma trinca coringa ao som da arrebentação, com “Sereia”, “De Repente Califórnia” e “Como Uma Onda”, sugerindo um precoce término do show, inaceitável pela aglomeração de fãs de Lulu Santos que ocupa todos os espaços concebíveis da sala de espetáculos e que, através de clamores e ovações, demonstra a sua ânsia pela continuidade da noite £ux. “Certas Coisas”, “Casa” e a derradeira “Tempos Modernos” fecham mais uma espetacular apresentação de Luis Maurício e do indissolúvel e imprescindível elenco do espetáculo composto por: Milton Guedes – nos sopros e no vocal; Andrea Negreiros – Bella Robotka no vocal; Pedro Augusto – no teclado; e Silvio Charles – no violão e percussão; Sérgio Melo e Pretinho da Serrinha.

domingo, 29 de maio de 2016

Se Eu Fosse Iracema


Perguntas sem respostas, com reflexões sobre o que não tem reflexo.

Estruturado com base em depoimentos e discursos de indígenas brasileiros e mixado com narrativas literárias, cinematográficas e evocações políticas – mais precisamente, relacionadas à Constituição Federal de 1988 – o espetáculo “Se Eu Fosse Iracema” apresenta, em uma das salas do Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto – Rio de Janeiro, uma selvageria poética temperada com metáforas sociais degustada pela plateia através de um único corpo – o da atriz Adassa Martins, que faz o contexto evoluir impulsionada por tantos outros, convidando o espectador adentrar a mata obscura sob a qual a atual sociedade se desenvolve, mas que não avança em suas lógicas argumentativas; que pressupõe noções de caráter religioso como base científica, mas que não inclui o dinheiro em qualquer plano subjetivo metafórico – seja o céu, o inferno ou o limbo.

A dramaturgia que se expressa através do monólogo é assinada por Fernanda Marques, cujo conteúdo denuncia a barbárie histórica praticada nos últimos quinhentos anos contra a civilização silvícola, agravada pelo decorrente desprezo pela causa indígena nos patamares políticos e sociais.  A direção de Fernando Nicolau é imagética e abstratamente escultural, visceral e devastadora – lançando mão da poesia proferida no idioma exótico adotado como oficial na Terra Brasilis, com enxertos no idioma tupi-guarani. Nicolau lança no breu que transforma a pequena sala de espetáculos em um espaço adimensional, perguntas sem respostas, com reflexões sobre o que não tem reflexo e se debate em um debate sem debatedor – um ato ousado, inquietante e incômodo aos olhos de quem se recusa a enxergar o próximo do qual os colonizadores portugueses, outrora se permitiram aproximar e dizimar, paulatinamente, até o limite de sua resistência. A iluminação e cenografia de Licurgo Caseira são recursos cênicos que se fundem, concebidos a partir de critérios que demonstram o zelo  para com a essência da produção –  acentuando a linguagem corporal de Adassa, imprimindo veracidade nos momentos enquanto caça e quando caçador, definindo cavidades lumínicas e quadros iluminados, definido ausência de luz em momentos de ausência de qualquer elemento, concreto ou abstrato, que possa refletir a luz, tornando o corpo de Adassa o cenário sustentável da narrativa, da denúncia e do escárnio que a civilização indígena vem sofrendo em seu habitat natural. O figurino de Luiza Fradin corrobora, a olhos vistos, para o enriquecimento dos recursos cenográfico e lumínico – uma saia longa e translúcida de material emborrachado, como se confeccionada por mágica matéria prima extraída dos elementos naturais disponibilizados pela flora nativa. O desenho de som de João Schimid imprime um caráter ficcional ao espetáculo, ao mesmo tempo que documenta as passagens dramáticas da história silvícola, ocorridas a partir da chegada dos portugueses à terra dos nativos. Adassa Marins, se desdobrando em uma diversidade de personagens, revela a intensa preparação vocal a qual se submete, sob a impecável preparação de Ilesi, em franca composição do espectro do conjunto da obra.

Iracema – “a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira”, que nascera muito além de uma determinada serra que azulava no horizonte – é resgatada de um passado subjuntivo, em uma clara referência à submissão de uma indígena que, ao se apaixonar por um colonizador português, abandona família, povo, religião e Deus. Dizem, também, que o seu nome é um anagrama de América – uma possível homenagem à nova “civilização” que se encrusta em um novo mundo com promessas de uma possível inclusão social – não cumprida, até os dias de hoje.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Jogo do Dinheiro


Contra a apatia daqueles que estão do outro lado da máquina de fazer dinheiro, cientes, mas não crentes, de que estão sendo enganados

Uma leitura de mestre do poder da mídia sobre as tomadas de decisão dos indivíduos criadores de expectativas por parte de seus garotos propagandas; indivíduos esses frustrados quando se dão conta de que não passam de meras estatísticas contabilizadas pelas agências de marketing e de seus poderosos contratantes – não mais do que uma gota da essência do longa-metragem – “Jogo do Dinheiro”.

Lee Gates – mais uma das instigantes interpretações de George Clooney – é a celebridade que pode ser tomado como “O Mago do Dinheiro de Wall Street”, em cujo programa televisivo de alta audiência, fornece dicas financeiras aos seus crédulos espectadores. Patty Fenn – a linda e sagaz produtora do programa de Lee, personificada por Julia Roberts. Kyle Budwell – primorosamente dramatizado por Jack O'Connell, é o desiludido espectador lesado financeiramente, em decorrência das dicas financeiras de Lee.

Após a invasão do set do programa por Kyle, durante a transmissão ao vivo do mesmo, Lee e sua equipe se tornam reféns do ameaçador espectador armado. Sagaz, Patty assume a condução da situação e dá-se início a uma operação, juntamente com a polícia, visando preservar a integridade das vítimas em potencial e desvendar as incógnitas que envolvem aquela ocorrência.

Por detrás da reprodução de todo um circo financeiro e das cenas dramáticas e eletrizantes de “Jogo do Dinheiro”, a claustrofóbica direção de Jodie Foster enquadra o suspense e as decisões consideradas lógicas em um conflito estranhamente atraente, no tempo exato de um programa televisivo. A composição de Jim Kouf, Alan DiFiore e Jamien Linden valoriza a produção, com qualidade surpreendente, a partir de um roteiro simples, elaborado a seis mãos.

A artificialidade das notícias, a falta de compromisso por parte das personalidades artísticas, as ambições das grandes instituições e a avidez política em pôr as mãos no dinheiro dos contribuintes fazem do “Jogo do Dinheiro”, uma denúncia escancarada contra os meios de comunicação, que só visam à audiência, e contra a apatia daqueles que estão do outro lado da máquina de fazer dinheiro, cientes, mas não crentes, de que estão sendo enganados.



quinta-feira, 26 de maio de 2016

Casa de Bonecas


“limitado até”

O psicológico, o ideológico e o sociológico – três predicados cuja confluência é induzida por Daniel Veronese, na sua releitura do clássico de 1879, escrito pelo dramaturgo norueguês Henrik Ibsen – “Casa de Bonecas”.

Sob a direção compartilhada entre Roberto Bomtempo e Symone Strobel, a atual montagem segue uma linha proposta por Veronese, através da qual diz apostar no encontro do ator com o texto, cuja essência pragmática e minimalista identifica personagens envoltos em cenas do convívio conjugal cotidiano, em um primeiro momento, dando sequência a conflitos geradores de discussões que conduzem o drama a um desfecho inconclusivo.

Do encontro da atriz Miriam Freeland com a obra de Ibsen, eclode Nora – saltitante e megalômana mulher da classe média, capaz de lançar mão de recursos não ortodoxos para conquistar suas ambições e defender o seu círculo familiar – outrora talhada como uma personagem que entende a felicidade como se, eminentemente, composta por cifrões e por futilidades sociais. No papel do esposo da protagonista, Bomtempo, se identifica com um Torvaldo que se entrega ao trabalho visando conquistar uma promoção no banco do qual é funcionário e, com isso, vencer as dificuldades para bancar as despesas de sua perdulária esposa e para garantir a prosperidade da família, composta pelo casal e três filhos. A partir desse enfoque, o espetáculo possibilita uma possível identificação junto ao espectador o qual, nos atuais tempos de crise político-econômica, pode até mesmo se considerar consolado através da desgraça alheia capaz de amenizar a sua própria. Em respeito à linha do despojamento dos recursos cênicos nos espetáculos de Veronese, a expertise do luminotécnico, Gonzalo Martínez, se mostra desnecessária, uma vez que a iluminação cênica concebida angustia pela sua difusividade e pela falta de contraste, dando vez a uma simples iluminação funcional uniformemente distribuída em detrimento da qualidade lumínica. Da mesma forma, se faz desnecessário o cenário assinado por Franco Battista e Ariel Vaccaro que, além de seguir a linha daqueles montados em espetáculos colegiais amadores, imprime o tom da decadência, a partir de peças de mobiliário disponibilizadas em lojas de redes de varejo e da precariedade de adereços cenográficos junto a um bar mal posicionado defronte a um nicho inexplicavelmente vazio na parede, dentre outros elementos passíveis de serem notados pelo espectador atento – longe de serem sinais de gosto duvidoso de uma família emergente, mas um retrato fidedigno da falta de recursos financeiros para se compor um ambiente habitado por família da classe configurada pelo texto. Dessa forma, é delineada a fragilidade de uma Nora e um de Torvado, como um casal atual, com muitas dívidas e carregado de segredos – um macho provedor e mulher bela, recatada e “do lar”, com filhos para criar. A ideia da felicidade infinita chega a ser exagerada e impregna o subtexto do espetáculo, mas reafirma o quão inútil se faz acreditar em tal sentimento, quando exacerbado, sem contabilizar a realidade do desengano de pessoa, de família, de lar, de vida e do credo de que o dinheiro não traz felicidade – mas somente, para quem não o tem.

São tantas as interferências, em potencial, desviantes da atenção do espectador atento, durante a apresentação de “Casa de Bonecas” – que ameaça levar ladeira abaixo, todo o esmero empenhado por Veronese, no tão justificado encontro do ator com o texto – quanto são as cenas em que os atores dão as costas para a plateia, possibilitando passar ao espectador, a impressão de que o elenco busca esse encontro em algum lugar oculto nas paredes do cenário, “limitado até”.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

O Como e o Porquê


Um ciclo menstrual beirando a uma derradeira TPM de emoções e descobertas

Homens, mulheres, amor, conflitos, genes e destino – em foco no espetáculo “O Como e o Porquê”. O texto, de autoria de Sarah Treem, retrata o delicado relacionamento entre a acadêmica Doutora Zelda Mildred Kahn – interpretada a partir de uma profunda imersão na personagem, por Suzana Faini – e a pesquisadora Rachel Hardeman, filha de Zelda que, ainda recém nascida, foi dada em adoção – defendida com garra por Alice Steinbruck.

O que de comum entre as desconhecidas figuras, em um primeiro encontro – o profundo mútuo interesse científico sobre os mistérios presentes no sistema reprodutor feminino e a descamação das paredes internas do útero quando da ausência da fecundação. Consequentemente, questões sobre menstruação e menopausa tornam-se o cerne do diálogo entre a bióloga consagrada e reconhecida no meio acadêmico e a pesquisadora em potencial, em busca de sua origem, tamanha é a sua admiração pela jornada profissional de sua progenitora.

O empenho da direção de Paulo de Moraes junto ao elenco e ao todo do espetáculo é transparente ao público, em especial,  a concepção do projeto cenográfico, de sua autoria, onde lança mão da linguagem simbólica através da disposição de oito cadeiras, em estilos distintos, sob fachos de luz zenitais recortados que, literalmente, enquadram as peças de mobiliário junto ao palco – uma possível alusão às etapas vencidas ao longo da vida acadêmica de Zelda; uma pequena cômoda de duas portas na cor vermelha acentuada por um banho de luz escarlate, ilustrando a temática do diálogo travado ao longo do espetáculo; pilhas de livros sobre o assoalho, sobre as peças de mobiliário e no chão, sob um antigo aparelho de telefone de disco em baquelite preto – revelando o saber e a dedicação à academia atrelados a todos os cantos da habitação, como um labirinto de sentimentos e ressentimentos que estão prestes a ter suas horas contadas. Três luminárias de chão complementam os adereços cenográficos como elementos que representam a luz do saber, consolidando o recurso da iluminação cênica, cuja assinatura de Manéco Quinderé o faz inconfundível aos olhos do espectador – definindo a dramaticidade presente no espetáculo como um ciclo menstrual beirando a uma derradeira TPM de emoções e descobertas. A trilha sonora de Bianca Gismonti mantém a calorosa temperatura do espetáculo, mesmo diante da frieza que distancia as personagens, permitindo a plateia adentrar as suas mentes e interpretar cada um de seus desejos em meio a todo aquele colóquio. Ratificando a distância entre as duas gerações, o figurino de Desirée Bastos desenha mãe e filha, conectadas pela relação consanguínea e pelo sangue que as aproxima através de suas veias acadêmicas .

A tradução de Alice Steinbruck contextualiza, a fundo, os sentimentos femininos, mantendo o equilíbrio entre a temática central da discussão em cena e a temática subliminar do espetáculo – o que, de fato, é o que importa no âmbito daquela estreita relação, apartada pelo milagre da maternidade nunca dantes desejada.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Angry Bird – O Filme


As chances para que a partida seja reiniciada em uma próxima sequência é considerável

O fio de história contida no jogo dos pássaros que buscam vingar-se dos porcos ladrões de ovos é assimilado e conduzido divertidamente pelos fãs do game e por aqueles cujo contato se faz pela primeira vez.

A animação caprichada e de cores vibrantes transforma os personagens em figuras adoráveis que cativam o espectador infantil, jovem e adulto, de forma tal a lhes permitir perceber uma moral ao final da história.

A direção de Fergal Reilly e Clay Kaytis – tão didática quanto um tutorial de funções estratégicas de jogo infantil – conta com o roteiro de Jon Vitti que, de forma estratégica, combina a ingenuidade contida na figura dos personagens, com sacadas capazes de satisfazer e despertar a atenção do público adulto presente na sala de projeção, muitas vezes no papel de meros acompanhantes de proles viciadas no passarinho rejeitado – Red e em seus amigos – Chuck e Bomba, e nos porcos em pele de cordeiro.

As chances para que a partida seja reiniciada em uma próxima sequência é considerável. Espera-se, apenas, que os rastros deixados em “Angry Bird – O Filme” sirva de referência para um lançamento que não negligencie no equilíbrio de seus arremessos e que retome o caminho trilhado pela atual produção como parâmetro de uma franquia contemplando futuras boas histórias.


sábado, 21 de maio de 2016

Nuvem de Lágrimas – O Musical


Sob a sombra de uma árvore e sob a lua de um céu estrelado

A clareza e a linearidade do espetáculo “Nuvem de Lágrimas” faz a música sertaneja galgar um patamar de destaque no mundo dos musicais. As canções que compõem o playlist do espetáculo são identificadas pelos apreciadores do gênero musical sertanejo, todas selecionadas dentre os incontáveis sucessos já interpretados por Chitãozinho & Xororó , ao longo de a sua brilhante carreira, que tanto representa o sentimento do homem rural brasileiro e que, da mesma forma, encanta uma legião de fãs originários dos centros urbanos.

A essência do romance de Jane Austen – “Orgulho e Preconceito” é genuinamente adaptada e sedimentada no texto assinado por Anna Toledo – em perfeita comunhão com a direção geral de Tania Nardini e Luciano Andrey e a direção musical de Carlos Bauzys – assumindo, dignamente, a linha superficial e previsível que acaba cativando o espectador, que se encanta com a simplicidade e a inocência do espetáculo. As histórias de amor ambientadas em uma cidade fictícia no interior de São Paulo contemplam paixões mal resolvidas, relações fortuitas do passado, preconceito social – conflitos esses embalados por nada menos que trinta belas canções sertanejas, dentre elas – “Fio de Cabelo”,  “Eu Preciso de Você”, “Brincar de ser Feliz”, “Sinônimos”, “Alô”, “Galopeira” e “Evidências”. O cenário de Paulo Correa transporta toda a plateia para a cidadela e a faz participar da história como moradores locais que compartilham das idas e vindas dos protagonistas na cooperativa, no escritório de advocacia, no casarão dos abastados, junto à porteira, sob a sombra de uma árvore e sob a lua de um céu estrelado. O figurino de Fábio Namatame consolida a luta de classe entre os enamorados com suas vestimentas do dia a dia, retratadas pelo natural despojamento de requintes, contrastando com a de seus familiares que ostentam vestes luxuosamente burguesas durante uma festa no casarão. O desenho de luz de Ney Bonfante é preciso enquanto definição espacial interna e externa, temporal entre dia e noite e dos sentimentos, enquanto conquistas pelos direitos de uma comunidade, conflitos familiares, paixões que vêm e que vão, a luta pela sobrevivência e pela conquista dos sonhos – de forma singela e contextual, oferecendo ao musical, humanidade e controle sobre os sentimentos do espectador.

Na apresentação do dia 13 de maio de 2016, no Oi Casa Grande, Rio de Janeiro, a plateia se comporta como show à parte, tamanha a sua espontaneidade ao verbalizar suas reações durante o desenrolar da história e através da sua participação como um suave coro de vozes que preenchiam os vazios da sala de espetáculos, potencializando os momentos em que a emoção aflora e que as lágrimas embotam os olhos. Nessa mesma noite, nem mesmo a substituição da cantora, compositora e multi-instrumentalista paraibana - Lucy Alves, pela alternante oficial, a atriz cantora e musicista mato-grossente – Luciana Pandolfo, quebra o encanto do espetáculo e frustra a plateia pela expectativa de assistir, ao vivo e em cores, a personagem Bete Borba interpretada pela componente oficial do seleto e entrosado elenco – composto por Adriana Del Claro, como Jane Borba (irmã); Letícia Maneira Zapulla, como Lídia Borba (irmã); Rosana Penna, como Juci Borba (mãe); Marcelo Várzea, como Zé Borba (pai); e Gabriel Sater, no papel do galã Darcy, que transita em meio à aristocrata família composta pelo Doutor Jardim, interpretado Blota Filho; por Caroline Jardim, por Erika Altimeyer; e por Carlinhos Jardim, por Sérgio Dalcin.

O fato de ser divulgado como um espetáculo inspirado no clássico “Orgulho e Preconceito”, definitivamente, não representa o real chamariz junto ao público, que tem lotado todas apresentações. Muitos podem, até mesmo, desconhecer Jane Austen, da mesma forma que outros tantos ignoram @José de Lima Sobrinho e Durval de Lima como os nomes de batismo da dupla Chitãozinho & Xororó, mas certamente, conhecem e reconhecem as mensagens transmitidas pelas canções interpretadas pela dupla sertaneja paranaense, consagrada internacionalmente.


quinta-feira, 19 de maio de 2016

X-Men: Apocalipse


Círculo vicioso como normalidade lógica da vida

Após “X-Men – Dias de Um Futuro Esquecido”, cujo espectro temporal é definido por um roteiro, com ponto de partida no ano de 2023 com destino a 1973, o atual “X-Men: Apocalipse”, da mesma forma que o anterior, sob a direção de Bryan Singer, teletransporta os seguidores dos mutantes concebidos por Stan Lee e Jack Kirby, a partir de um prólogo ambientado nos primórdios da civilização, há milhares de anos, diretamente para 1983 – acompanhando a travessia de um portal, pelo mutante original En Sabah Nur, sugerindo as origens de alguns outros mutantes já consagrados. Apesar da presença de momentos “light” – capazes de tanto esboçar sorrisos daqueles que se deixam levar pelo cunho filosófico presente nesse terceiro filme da franquia “First Class”, quanto provocar risadas de cunho crítico depreciativo nos cinéfilos cuja leitura do longa pode ocorrer de forma mais hermética – o roteiro assinado por Simon Kinberg e Dan Harris repete a competência ao transformar a densa dramatização em uma aventura que contempla amor à sabedoria e que se mostra sensível aos problemas fundamentais, a partir da figura de um “deus vilão”, vingativo e cruel, que acredita no recomeço através da destruição.

A obstinação do mutante En Sabah Nur em exterminar os seres, por ele tidos como inferiores, promove cenas extremamente empolgantes e dignas da versão da película em 3D que, em parceria com a trilha sonora de John Ottman, consolida a impactante experiência dos cento e quarenta e três minutos dedicados ao processo de credibilidade que não se concentra nos mutantes, mas na fraqueza dos seres humanos enquanto habitantes dominantes do mundo. A partir dessa visão, é possível identificar uma estreita correlação entre os homens e os sistemas vigentes – hora excessivamente protecionistas, hora dominado por leis e religiosidade extremadas, repletos de preconceitos e ambições, comandando um exército de incrédulos – carentes por um eterno recomeço, a partir de uma estaca zero e crentes em um círculo vicioso como normalidade lógica da vida.

Por meio de um olhar atento, pode ser constatado que o universo do filme “X-Men: Apocalipse” não busca ser reconhecido somente pela qualidade técnico cinematográfica empenhada, mas também pela visão de mundo diante das verdades incontestáveis de cada um dos espectadores os quais, não raramente, assumem comportamentos egocêntricos, de forma voluntária, elevando-se ao patamar de Cavaleiros do Apocalipse disfarçados de Deuses Todos Poderosos.


quarta-feira, 18 de maio de 2016

Como Me Tornei Estúpido


Be Stupid

A acidez e o sarcasmo, homeopaticamente dosado, presentes no espetáculo “Como Me Tornei Estúpido”, podem ser conferidos na temporada que acontece no Teatro Clara Nunes, até o dia 29 de maio de 2016.

A livre adaptação da obra de Martin Page recebe a assinatura do dramaturgo Pedro Kosovski que, através de humor inteligente e seletivo, confronta dilemas de cunho sociológico entre alienados e críticos de plantões, sem meio termo. A direção leve e sutil de Sérgio Módena estampa, ao longo do espetáculo, os momentos cômicos relevantes que arrancam genuínas risadas da plateia – contrastando com muitas apresentações do gênero comédia que se proliferam por diversas salas de espetáculo que lançam mão, quase que por questão de sobrevivência, de sonoplastia mediana, de claques provenientes de composição de plateia, de recursos apelativos por parte dos atores através de caras e caretas, que beiram ao constrangimento, além da alienação de textos repletos de vocabulário chulo, forçando manifestações dos espectadores, que o fazem de forma automática ou por mera obrigação. A tônica de “Como Me Tornei Estúpido” traz à baila o fato de que a inteligência pode tornar o indivíduo infeliz, solitário e pobre, enquanto a farsa de ser intelectual e engajado social oferece a imortalidade efêmera – tendo em vista a maior facilidade em se dar crédito às informações veiculadas pelos periódicos, redes sociais e programas televisivos do que questionar sobre os motivos pelos quais os fatos são divulgados dessa ou daquela forma. O elenco composto por Alexandre Barros, Gustavo Wabner, Marino Rocha e Rodrigo Fagundes é certeiro quanto à incorporação de seus personagens que assumem a inteligência como a razão do desinteresse pela intelectualidade. A iluminação de Fernando e Tiago Mantovani potencializa a veia dramática do tema através dos contrastes entre claros e escuros e fachos de luz que sangram o fundo infinito negro, como se institucionalizando um julgamento com o veredicto nada favorável ao espectador e aqueles que o cerca. O projeto cenográfico, também assinado por Módena, em parceria com Carlos Augusto Campos, se faz eficiente e engenhoso na multiplicação de ambientes a partir de alguns módulos giratórios e peças de mobiliário que se revezam.

A auto ajuda que serve como guia de como se tornar estúpido, prestada em dez passos, toma para si  a campanha publicitária da grife Diesel que sugere aos seus consumidores em potencial, nada menos do que “Be Stupid”. Como um pau mandado, “Como Me Tornei Estúpido” não só consegue traduzir o real sentido daquele imperativo, como retrata, de maneira original, os estúpidos que transitam na sociedade sem se importar com os porquês, mas preocupados com o que a sociedade pode conjecturar, da mesma forma que os “pensadores” das redes sociais declaram, na primeira pessoa do singular, aquilo que desejam que seus seguidores acreditem – “Eu mereço, eu aconteço, eu sou feliz”.


sexta-feira, 13 de maio de 2016

Mulheres no Poder


Transforma o gênero comédia em uma trama política nauseante

Uma senadora filiada ao PT-RR, em seu discurso no Senado, durante a votação do pedido de impeachment da presidente reeleita em outubro de 2014 com 54,5 milhões de votos, profere sobre o baixo índice de mulheres que ocupam as cadeiras da Casa, onde somente onze senadoras, representando 13% do total daqueles parlamentares, discursam naquele dia.  Dando continuidade à sua fala, a senadora lamenta a mobilização visando à possível consequente baixa na representação feminina junto ao governo ao afastar uma presidente mulher que, segundo a parlamentar, fora escolhida pela maioria dos eleitores brasileiros e que tem, como meta de seu governo, a inclusão das minorias.

Mera coincidência, Mulheres no Poder​ estreia no dia em que é proclamado o afastamento da primeira presidente mulher no Brasil, de seu cargo, por um período de até cento e oitenta dias, sob a acusação de ter cometido crime de responsabilidade. O longa brasileiro conta com o roteiro e a direção inquietantes de Gustavo Acioli​, que transforma o gênero comédia em uma trama política nauseante, amoral, perversa, provocadora e atualíssima. Por isso mesmo, a comédia se faz preponderante, mas não essencial. O elenco estelar – composto por Dira Paes​, Stella Miranda, Totia Meireles​, Maria Helena Pader​, Susana Ribeiro​, Chica Xavier​, Graciela Pozzobon, Milena Contrucci Jamel, Elisa Lucinda​, Paulo Tiefenthaler​, Camilo Bevilacqua​, João Velho​ e Roberto Maya​ – desnuda os bastidores da engrenagem do poder em Brasília, desempenhados por personagens corruptos, sem distinção de gênero, que compartilham da máxima proclamada de que “não adianta ter os votos do povo, se não se tem os votos dos partidos” – dessa forma, colocando o povo em seu devido lugar, como coadjuvante e espectador de um espetáculo bizarro. Ao democratizar a corrupção, a partir do espectro definido pelos personagens, o filme tira a aparente exclusividade da falta de ética da figura masculina e a compartilha, descaradamente, com a figura feminina – dessa forma, norteando os privilégios concedidos aos partidos, aos políticos e principalmente, ao funcionalismo, cuja força assumida é muito bem descrita em uma fala que diz “ser mais fácil destituir um presidente do que despedir um funcionário público”.


“Mulheres no Poder” escancara os meandros do poder, da democracia e do povo que ainda acredita em partidos, em salvadores ou em salvadoras da pátria, em legados, em céu e inferno, em esquerda e direita, em coxinhas e mortadelas e no futuro promissor da política brasileira. Como legado, lança, de forma negligente e sutil, uma questão a ser amparada, debatida e definida pelos espectadores eleitores – se seu futuro voto levará ao poder uma “Presidenta” ou um “Presidento”.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Minha Mulher se Chama Maurício


Todos os ingredientes de uma pseudo-comédia


Sob o título de “Minha Mulher se Chama Maurício”, o texto do dramaturgo francês Raffy Shart é traduzido de maneira a capturar todos os ingredientes de uma pseudo-comédia que decepciona pelo roteiro pobre e sem a menor credibilidade junto aos seus personagens, apelativamente previsíveis e sem a menor química entre si.

O cenário de Marcos Flaksman – recurso técnico que se destaca em meio à produção – retrata um apartamento da classe média na Zona Sul do Rio de Janeiro, com vista para o Cristo Redentor, onde peças de mobiliário e objetos de decoração definem o perfil de quem o habita – um casal emergente e de gosto duvidoso. O projeto de iluminação cênica de Felipe Franco, embora em busca do vigor ao qual se propõe se perde diante da carência de naturalidade com que a direção lida com os personagens, transformando-os em caricaturas grotescas em busca do riso a qualquer preço. Em função disso, o público recebe um produto repleto de clichês composto por: uma esposa em estilo perua fútil; um marido machista que a trai; uma amante histérica casada com um policial; e um membro de uma associação sem fins lucrativos, que acaba sendo introduzido naquele quadrilátero amoroso e travestido a partir de figurino e adornos, longe de caracterizá-lo como mulher, mas um infeliz arremedo de um crossdresser.

A confusão prolifera sobre as identidades, os estados civis, as infidelidades e cenas absurdas, fazendo com que o desejo por uma aceleração do tempo leve ao final da apresentação de forma menos dolorosa do que a proposta de fazer de Maurício mulher de quem quer que seja.


segunda-feira, 9 de maio de 2016

Martyrs


Sadismo pseudo reflexivo sem noção

A tese que defende o fato da liberdade estar presente na dor é abordada pelo diretor Pascal Laugier, de forma hipnótica, a ponto de não deixar qualquer um indiferente ao excesso de violência e terror calcado na decadência moral do fanatismo da pureza humana extrema. “Martyrs” – filme francês lançado em 2008 – com essência transgressora, reacionária, inteligente e absolutamente reativa, vai muito além da classificação como filme de terror devido à estranha realidade ficcional proposta no roteiro, com cenas escaladas de forma perversa – como uma família reunida para o almoço em uma casa no campo, durante um dia ensolarado; alguém bate à porta; o pai atende e se depara com uma jovem armada com uma espingarda; sem dizer uma palavra, a jovem leva todos da família ao óbito – simplesmente, o segundo ato do filme de Laugier.

O roteiro do remake de 2016 assinado por Mark L. Smith e produzido sob direção de Kevin e Michael Goetz desfigura e arruína a mística do original francês lançando mão da violência de maneira leviana e evidenciando o sadismo pseudo reflexivo sem noção - contrariando Laugier que, por sua vez, desenha as atrocidades cometidas por seus protagonistas como algo instintivo, selvagem e cercada de simbolismo. 


sábado, 7 de maio de 2016

Infantaria


Em direção à saída de emergência

Inspirado nas situações do cotidiano e nas suas opiniões sobre assuntos atuais, Rafael Infante apresenta o stand up “Infantaria”, com texto de sua autoria, seguindo a linha de muitos espetáculos do gênero que se espalham em busca de risos fáceis, contemplando piadas e improvisos sobre políticos, cantores e personagens, muitas vezes, apresentando francos sinais de desgaste. Desnecessariamente, Infante lança mão, de tempos em tempos, de uma esquisita onomatopeia para sinalizar que algo está prestes a acontecer e indica o momento em que os espectadores devem se manifestar – e a maioria deles o faz, como se adestrada por uma claque, respondendo com risadas não genuínas e automáticas, se fazendo presente na plateia, independente da eficiência do texto como algo risível.

A direção de Tatiana Novais parece se apegar ao improviso, transformando a apresentação de Infante em episódio contemplando parca dramaturgia e teatralidade mediana que, juntamente com os números musicais ao longo da apresentação, só justificam a luminotecnia cênica como recurso através do qual são guiados em direção à saída de emergência.

Todavia, Rafael Infante tem, em seu favor, o carisma, a simpatia e a referência de sua imagem fora dos palcos que fazem de “Infantaria” um projeto a ser buscado por espectadores menos exigentes, que comparecem ao teatro como forma de assistir celebridades ao vivo e a cores, sem levar consigo, ao final da apresentação, algo que valha a pena reproduzir.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Rua Cloverfield, 10


Incógnitas a serem desvendadas

O curioso estilo de franquia sugerido, dando continuidade a “Rua Cloverfield, 10”, não define a atual produção como uma linhagem do filme lançado em 2008, “Cloverfield – Monstro”, de J.J. Abrahm – história de seis jovens que se refugiam de um ataque promovido por um monstro, na cidade de Nova Iorque. Em “Rua Cloverfield, 10”, uma jovem sofre um acidente de carro, acorda em um abrigo nuclear com dois homens que acreditam na ocorrência de um ataque ao mundo e que o cativeiro lhes garante a segurança necessária para a sua sobrevivência – apesar de que, nem mesmo o dono do abrigo, faz ideia do que, de fato, está ocorrendo.

A direção de Dan Trachtenberg, muito bem regida, lança todo o elenco em um desafiante jogo de interpretação: Mary Elizabeth Winstead – como Michelle, a suposta sobrevivente do ataque, se impõe desde a primeira cena quando, sem qualquer texto, apenas com suas expressões fisionômicas, traça um breve resumo de sua vida até aquele momento; John Goodman – com o seu dúbio Howard Stambler, que acredita fielmente na destruição do mundo; e John Gallagher Jr. – no papel de Emmett, que age com contrastante serenidade e equilíbrio frente à tensão que toma conta do bunker.

A gradativa construção de “Rua Cloverfield, 10” garante, a cada cena, uma resposta ao espectador, apesar de que, ao final da película, novas perguntas permanecem sem respostas – da mesma forma quando em “Cloverfield – Monstro”, ataque, agente e motivos permanecem, até hoje, como incógnitas a serem desvendadas.


quinta-feira, 5 de maio de 2016

Myrna Sou Eu


Uma força incisiva e totalmente descrente do comportamento romântico

Myrna – pseudônimo sob o qual Nelson Rodrigues, por dois anos, a partir de 1949, passa a responder leitores, em sua maioria, do sexo feminino, que lhe enviam cartas contemplando consultas sentimentais, publicadas no Jornal Diário da Noite. A virtualidade, já presente naquela época, faz com que o imaginário dos leitores conjecture sobre a real imagem da personagem de Nelson Rodrigues.

No palco do Teatro Poeira, no Rio de Janeiro, o ator paulista Nilton Bicudo encarna a mulher de essência machista, como apresentadora do programa de rádio intitulado “Consultório Sentimental”, consciente da sua responsabilidade junto aos seus ouvintes, emocional e sentimentalmente desestruturados. A primorosa adaptação do texto de Nelson Rodrigues, assinada por Elias Andreato – também responsável pelo roteiro, pelo projeto cenográfico e pela direção do espetáculo – é repleta de humor trágico, corrosivo e crítico, injetando em “Myrna Sou Eu”, uma força incisiva e totalmente descrente do comportamento romântico dos seres humanos – em especial, os do sexo masculino. O figurino de Fabio Namatame modela Bicudo com a feminilidade e a graça enraizada na alma do ator que, a partir de seus gestos precisos e eminentemente femininos, encontra, em suas vestes, a segurança necessária para encarnar a personagem. A trilha sonora de Jonatan Harold transporta os espectadores/ouvintes aos anos 1950, resgatando inesquecíveis vinhetas e propagandas que, em conjunto com o cenário - contemplando um pano de fundo a partir de um monumental patchwork de anúncios publicitários clássicos daquela mesma época, fazem com que a experiência radiofônica remeta todos os espectadores a um estúdio onde o programa é transmitido em ondas AM–FM. Complementando a feminilidade exterior de Myrna, o visagismo de Allex Antonio e Emi Sato retoca a sua beleza, longe de qualquer caricatura, anula a masculinidade de Bicudo e abre o espaço necessário para que somente a sua essência se faça presente.

O conjunto da obra se faz perfeito para o absoluto sucesso dos setenta minutos de “Myrna Sou Eu”, durante os quais, o amor, a solidão, a hipocrisia e a insegurança dos sentimentos se tornam objetos de reflexão, abordados com qualidade impar e sem a necessidade de heterônimo. 


terça-feira, 3 de maio de 2016

Volúpia da Cegueira


“Incomoda, né?”

A abertura da sala de espetáculos do Teatro Maria Clara Machado, na zona sul do Rio de Janeiro, acolhe os espectadores e, simbolicamente, descortina a boca de cena sugerida pelo palco limitado por reluzentes faixas podotáteis. Acomodados em seus lugares e já adaptados à parca iluminação periférica e aos fachos de luz escarlate – que banham os elementos integrantes da composição cênica, além dos quatro atores que já se encontram em franco movimento performático, como se conduzidos por pedômetros virtuais – os espectadores compartilham de um momento de ansiedade e perturbação, promovido pela subtração temporária do sentido da visão. Sem o menor aviso prévio, mas silenciosamente, o breu se faz presente e toma conta das dimensões da sala de espetáculos, por tempo, aparentemente, indefinido – uma experiência comungada com os atores Aléssio Abdon, Felipe Rodrigues, Max Oliveira e Moira Braga; sendo dois, dentre o quatro, cegos. e os dois outros videntes, não necessariamente, naquela ordem. Ao fundo: o silêncio cortante sobre o que não pode ser visto, apalpado, identificado e, muito menos, avaliado; os pensamentos inquietantes que tomam a as mentes dos espectadores – cada um a seu modo; um estímulo auditivo lança a pergunta provocante – “Incomoda, né?”; o silêncio da plateia assume a sua condição como resposta, acompanhado pela cegueira consensual – promovida pelo recurso dos tapa-olhos distribuídos a cada um dos espectadores ainda no foyer, pelo simples cerramento dos olhos ou, pela contemplação da cegueira presente no interior de cada um, mesmo que não sejam fisiologicamente privados do sentido da visão.

A partir desse prólogo, o inusitado novo texto de Daniel Porto se materializa através do zelo de Alexandre Lino, que se entrega a mais uma produção teatral – dessa vez, assumindo as rédeas da direção do espetáculo "Volúpia da Cegueira". Nesse contexto, o recurso cênico auditivo, contemplado pela direção musical de Alexandre Elias, é dotado de qualidade sonora e dramaticidade compatível com os questionamentos daqueles que não veem através de seus próprios olhos e com os conflitos daqueles que, mesmo tendo seu sistema ocular em pleno funcionamento, não enxergam – por não terem sido orientados para tal ou, simplesmente, porque se recusam ver – mas somente seus problemas, aparentemente insolúveis no âmbito da conveniência de suas cegueiras. O desenho de luz de Renato Machado se sobrepõe aos atores e elementos cenográficos concebidos pelo projeto de Karlla de Luca, como se fosse uma segunda pele em benefício daqueles que se rendem ao estímulo visual, em contraste com aqueles que fazem valer seu direito à opção pela “cegueira lúdica” em prol do imaginário. Assumindo a concepção do figurino juntamente com a autoria do cenário, De Luca lança mão do simbolismo presente nas cores, nas expressões artísticas gráficas e no despojamento dos materiais têxteis, de forma subliminar, para aqueles capazes de observar a sensualidade presente nas vestes e a ausência de malícia da nudez em contraste com aqueles que se permitem reconhecer pelo toque dos dedos, com os que dependem da leitura táctil ou do imaginário para experimentar a sensualidade mesmo naqueles que se encontram vestidos ou, simplesmente, compreender os diversos significados do estar despido. Paula Feitosa se empenha na direção de movimento, essencial enquanto orientação, deslocamento pelo palco e expressões corporais e coreográficas e na interatividade entre os personagens, intuindo para alcançar os seus destinos – da mãe que testemunha o despertar da sexualidade do filho cego que entra na adolescência; do esposo que perde o sentido da visão e que, em função disso, se diz subtraído de sua virilidade; dos rapazes amigos, homossexuais e cegos, que se aventuram em avaliar fisicamente os jovens entregadores que batem à sua porta; da performance musical durante a qual, uma voz - que se faz ainda mais presente para aqueles que se abstraem visualmente da fonte emissora - entoa “Apenas Mais Uma de Amor”, de Lulu Santos

A direção de Lino é sensível, amigável, comovente e respeita o livre arbítrio dos espectadores quanto ao ato de vendar seus próprios olhos, mas acaba enquadrando toda a plateia como composta por indivíduos acometidos por deficiências visuais, de qualquer sorte, garantindo, aos que compõem o elenco, que jamais estarão a sós no palco enquanto encenam “Volúpia da Cegueira”.

domingo, 1 de maio de 2016

#Só Pra Rir


Um show de humor que cumpre o seu compromisso para com o que anuncia

Um show de humor que cumpre o seu compromisso para com o que anuncia – “#Só Pra Rir” é um espetáculo que se empenha em um mix de stand up comedy, esquetes, jogos de improvisos e cenas bizarras. O dinamismo se dá pela flexibilidade do jogo de cintura, desprovida de qualquer ranço de desleixo da direção de Israel Linhares – que também interage no palco com a trupe de humoristas que compõe o elenco do espetáculo.
Contrastando a despojada proposta de Linhares, fato lamentável é constatado, pelo Circuito Geral, na apresentação do dia vinte e quatro de março de 2016, quando o comediante Hugo Veríssimo, se sentindo prejudicado com o mau funcionamento de seu microfone, se sente forçado se retirar do palco sem poder apresentar um desfecho à altura do seu número, muito bem recebido pela plateia até o momento da falha técnica. Quebrando o constrangimento daquele instante, entra em cena Rômulo Belloti, com sua hilariante Branca de Neve – princesa ciente de que nem tudo na vida é “pão com Nutella”, declara que mesmo sendo vítima de uma madrasta que “bate tambor”, é salva por um príncipe, graças ao seu axé irresistível junto aos homens. A bizarrice dá a vez a Júnior Chicó, vulgo Josenildo, cercado de sérios problemas decorrentes dos nomes excêntricos de seus irmãos.
A série de improvisos é comandada por Linhares, que interage com Belloti, Aron Pinheiro e Bia Guedes, durante a qual, palavras sugeridas pelos espectadores devem ser usadas para o desenvolvimento de uma história, coerente e engraçada. A partir de “Vila Mimosa”, “Barra Music” e “Cemitério”, o Circuito Geral constata a capacidade de repentino do quarteto, responsável por momentos de genuínas gargalhadas por parte da plateia. Na sequência, Pinheiro é muito bem recebido ao interagir com o público, identificando nomes próprios “estranhos” dentre os presente, vendendo o seu peixe ao se declarar morador de São Gonçalo – município vitimado pelas enchentes em decorrência das chuvas naquela ocasião - e se declarando exímio empacotador de saquinhos de doces de São Cosme e São Damião. Finalmente, Guedes lacra a noite incorporando a sua doméstica Jacineide que, ao ser questionada pelos patrões ao ser flagrada dormindo durante o horário de trabalho, ingênua e prontamente retruca que eles haviam procurado uma empregada que dormisse no emprego.
Comprovada a capacidade de formar plateia apreciadora de humor leve e descompromissado com receitas engessadas, “#Só Pra Rir” tem como proposta mudanças constantes a cada temporada e a introdução de humoristas convidados a qualquer momento, injetando dinamismo ao espetáculo.