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quinta-feira, 26 de maio de 2016

Casa de Bonecas


“limitado até”

O psicológico, o ideológico e o sociológico – três predicados cuja confluência é induzida por Daniel Veronese, na sua releitura do clássico de 1879, escrito pelo dramaturgo norueguês Henrik Ibsen – “Casa de Bonecas”.

Sob a direção compartilhada entre Roberto Bomtempo e Symone Strobel, a atual montagem segue uma linha proposta por Veronese, através da qual diz apostar no encontro do ator com o texto, cuja essência pragmática e minimalista identifica personagens envoltos em cenas do convívio conjugal cotidiano, em um primeiro momento, dando sequência a conflitos geradores de discussões que conduzem o drama a um desfecho inconclusivo.

Do encontro da atriz Miriam Freeland com a obra de Ibsen, eclode Nora – saltitante e megalômana mulher da classe média, capaz de lançar mão de recursos não ortodoxos para conquistar suas ambições e defender o seu círculo familiar – outrora talhada como uma personagem que entende a felicidade como se, eminentemente, composta por cifrões e por futilidades sociais. No papel do esposo da protagonista, Bomtempo, se identifica com um Torvaldo que se entrega ao trabalho visando conquistar uma promoção no banco do qual é funcionário e, com isso, vencer as dificuldades para bancar as despesas de sua perdulária esposa e para garantir a prosperidade da família, composta pelo casal e três filhos. A partir desse enfoque, o espetáculo possibilita uma possível identificação junto ao espectador o qual, nos atuais tempos de crise político-econômica, pode até mesmo se considerar consolado através da desgraça alheia capaz de amenizar a sua própria. Em respeito à linha do despojamento dos recursos cênicos nos espetáculos de Veronese, a expertise do luminotécnico, Gonzalo Martínez, se mostra desnecessária, uma vez que a iluminação cênica concebida angustia pela sua difusividade e pela falta de contraste, dando vez a uma simples iluminação funcional uniformemente distribuída em detrimento da qualidade lumínica. Da mesma forma, se faz desnecessário o cenário assinado por Franco Battista e Ariel Vaccaro que, além de seguir a linha daqueles montados em espetáculos colegiais amadores, imprime o tom da decadência, a partir de peças de mobiliário disponibilizadas em lojas de redes de varejo e da precariedade de adereços cenográficos junto a um bar mal posicionado defronte a um nicho inexplicavelmente vazio na parede, dentre outros elementos passíveis de serem notados pelo espectador atento – longe de serem sinais de gosto duvidoso de uma família emergente, mas um retrato fidedigno da falta de recursos financeiros para se compor um ambiente habitado por família da classe configurada pelo texto. Dessa forma, é delineada a fragilidade de uma Nora e um de Torvado, como um casal atual, com muitas dívidas e carregado de segredos – um macho provedor e mulher bela, recatada e “do lar”, com filhos para criar. A ideia da felicidade infinita chega a ser exagerada e impregna o subtexto do espetáculo, mas reafirma o quão inútil se faz acreditar em tal sentimento, quando exacerbado, sem contabilizar a realidade do desengano de pessoa, de família, de lar, de vida e do credo de que o dinheiro não traz felicidade – mas somente, para quem não o tem.

São tantas as interferências, em potencial, desviantes da atenção do espectador atento, durante a apresentação de “Casa de Bonecas” – que ameaça levar ladeira abaixo, todo o esmero empenhado por Veronese, no tão justificado encontro do ator com o texto – quanto são as cenas em que os atores dão as costas para a plateia, possibilitando passar ao espectador, a impressão de que o elenco busca esse encontro em algum lugar oculto nas paredes do cenário, “limitado até”.

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