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quarta-feira, 18 de maio de 2016

Como Me Tornei Estúpido


Be Stupid

A acidez e o sarcasmo, homeopaticamente dosado, presentes no espetáculo “Como Me Tornei Estúpido”, podem ser conferidos na temporada que acontece no Teatro Clara Nunes, até o dia 29 de maio de 2016.

A livre adaptação da obra de Martin Page recebe a assinatura do dramaturgo Pedro Kosovski que, através de humor inteligente e seletivo, confronta dilemas de cunho sociológico entre alienados e críticos de plantões, sem meio termo. A direção leve e sutil de Sérgio Módena estampa, ao longo do espetáculo, os momentos cômicos relevantes que arrancam genuínas risadas da plateia – contrastando com muitas apresentações do gênero comédia que se proliferam por diversas salas de espetáculo que lançam mão, quase que por questão de sobrevivência, de sonoplastia mediana, de claques provenientes de composição de plateia, de recursos apelativos por parte dos atores através de caras e caretas, que beiram ao constrangimento, além da alienação de textos repletos de vocabulário chulo, forçando manifestações dos espectadores, que o fazem de forma automática ou por mera obrigação. A tônica de “Como Me Tornei Estúpido” traz à baila o fato de que a inteligência pode tornar o indivíduo infeliz, solitário e pobre, enquanto a farsa de ser intelectual e engajado social oferece a imortalidade efêmera – tendo em vista a maior facilidade em se dar crédito às informações veiculadas pelos periódicos, redes sociais e programas televisivos do que questionar sobre os motivos pelos quais os fatos são divulgados dessa ou daquela forma. O elenco composto por Alexandre Barros, Gustavo Wabner, Marino Rocha e Rodrigo Fagundes é certeiro quanto à incorporação de seus personagens que assumem a inteligência como a razão do desinteresse pela intelectualidade. A iluminação de Fernando e Tiago Mantovani potencializa a veia dramática do tema através dos contrastes entre claros e escuros e fachos de luz que sangram o fundo infinito negro, como se institucionalizando um julgamento com o veredicto nada favorável ao espectador e aqueles que o cerca. O projeto cenográfico, também assinado por Módena, em parceria com Carlos Augusto Campos, se faz eficiente e engenhoso na multiplicação de ambientes a partir de alguns módulos giratórios e peças de mobiliário que se revezam.

A auto ajuda que serve como guia de como se tornar estúpido, prestada em dez passos, toma para si  a campanha publicitária da grife Diesel que sugere aos seus consumidores em potencial, nada menos do que “Be Stupid”. Como um pau mandado, “Como Me Tornei Estúpido” não só consegue traduzir o real sentido daquele imperativo, como retrata, de maneira original, os estúpidos que transitam na sociedade sem se importar com os porquês, mas preocupados com o que a sociedade pode conjecturar, da mesma forma que os “pensadores” das redes sociais declaram, na primeira pessoa do singular, aquilo que desejam que seus seguidores acreditem – “Eu mereço, eu aconteço, eu sou feliz”.


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