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sexta-feira, 13 de maio de 2016

Mulheres no Poder


Transforma o gênero comédia em uma trama política nauseante

Uma senadora filiada ao PT-RR, em seu discurso no Senado, durante a votação do pedido de impeachment da presidente reeleita em outubro de 2014 com 54,5 milhões de votos, profere sobre o baixo índice de mulheres que ocupam as cadeiras da Casa, onde somente onze senadoras, representando 13% do total daqueles parlamentares, discursam naquele dia.  Dando continuidade à sua fala, a senadora lamenta a mobilização visando à possível consequente baixa na representação feminina junto ao governo ao afastar uma presidente mulher que, segundo a parlamentar, fora escolhida pela maioria dos eleitores brasileiros e que tem, como meta de seu governo, a inclusão das minorias.

Mera coincidência, Mulheres no Poder​ estreia no dia em que é proclamado o afastamento da primeira presidente mulher no Brasil, de seu cargo, por um período de até cento e oitenta dias, sob a acusação de ter cometido crime de responsabilidade. O longa brasileiro conta com o roteiro e a direção inquietantes de Gustavo Acioli​, que transforma o gênero comédia em uma trama política nauseante, amoral, perversa, provocadora e atualíssima. Por isso mesmo, a comédia se faz preponderante, mas não essencial. O elenco estelar – composto por Dira Paes​, Stella Miranda, Totia Meireles​, Maria Helena Pader​, Susana Ribeiro​, Chica Xavier​, Graciela Pozzobon, Milena Contrucci Jamel, Elisa Lucinda​, Paulo Tiefenthaler​, Camilo Bevilacqua​, João Velho​ e Roberto Maya​ – desnuda os bastidores da engrenagem do poder em Brasília, desempenhados por personagens corruptos, sem distinção de gênero, que compartilham da máxima proclamada de que “não adianta ter os votos do povo, se não se tem os votos dos partidos” – dessa forma, colocando o povo em seu devido lugar, como coadjuvante e espectador de um espetáculo bizarro. Ao democratizar a corrupção, a partir do espectro definido pelos personagens, o filme tira a aparente exclusividade da falta de ética da figura masculina e a compartilha, descaradamente, com a figura feminina – dessa forma, norteando os privilégios concedidos aos partidos, aos políticos e principalmente, ao funcionalismo, cuja força assumida é muito bem descrita em uma fala que diz “ser mais fácil destituir um presidente do que despedir um funcionário público”.


“Mulheres no Poder” escancara os meandros do poder, da democracia e do povo que ainda acredita em partidos, em salvadores ou em salvadoras da pátria, em legados, em céu e inferno, em esquerda e direita, em coxinhas e mortadelas e no futuro promissor da política brasileira. Como legado, lança, de forma negligente e sutil, uma questão a ser amparada, debatida e definida pelos espectadores eleitores – se seu futuro voto levará ao poder uma “Presidenta” ou um “Presidento”.

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