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quinta-feira, 5 de maio de 2016

Myrna Sou Eu


Uma força incisiva e totalmente descrente do comportamento romântico

Myrna – pseudônimo sob o qual Nelson Rodrigues, por dois anos, a partir de 1949, passa a responder leitores, em sua maioria, do sexo feminino, que lhe enviam cartas contemplando consultas sentimentais, publicadas no Jornal Diário da Noite. A virtualidade, já presente naquela época, faz com que o imaginário dos leitores conjecture sobre a real imagem da personagem de Nelson Rodrigues.

No palco do Teatro Poeira, no Rio de Janeiro, o ator paulista Nilton Bicudo encarna a mulher de essência machista, como apresentadora do programa de rádio intitulado “Consultório Sentimental”, consciente da sua responsabilidade junto aos seus ouvintes, emocional e sentimentalmente desestruturados. A primorosa adaptação do texto de Nelson Rodrigues, assinada por Elias Andreato – também responsável pelo roteiro, pelo projeto cenográfico e pela direção do espetáculo – é repleta de humor trágico, corrosivo e crítico, injetando em “Myrna Sou Eu”, uma força incisiva e totalmente descrente do comportamento romântico dos seres humanos – em especial, os do sexo masculino. O figurino de Fabio Namatame modela Bicudo com a feminilidade e a graça enraizada na alma do ator que, a partir de seus gestos precisos e eminentemente femininos, encontra, em suas vestes, a segurança necessária para encarnar a personagem. A trilha sonora de Jonatan Harold transporta os espectadores/ouvintes aos anos 1950, resgatando inesquecíveis vinhetas e propagandas que, em conjunto com o cenário - contemplando um pano de fundo a partir de um monumental patchwork de anúncios publicitários clássicos daquela mesma época, fazem com que a experiência radiofônica remeta todos os espectadores a um estúdio onde o programa é transmitido em ondas AM–FM. Complementando a feminilidade exterior de Myrna, o visagismo de Allex Antonio e Emi Sato retoca a sua beleza, longe de qualquer caricatura, anula a masculinidade de Bicudo e abre o espaço necessário para que somente a sua essência se faça presente.

O conjunto da obra se faz perfeito para o absoluto sucesso dos setenta minutos de “Myrna Sou Eu”, durante os quais, o amor, a solidão, a hipocrisia e a insegurança dos sentimentos se tornam objetos de reflexão, abordados com qualidade impar e sem a necessidade de heterônimo. 


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