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sábado, 21 de maio de 2016

Nuvem de Lágrimas – O Musical


Sob a sombra de uma árvore e sob a lua de um céu estrelado

A clareza e a linearidade do espetáculo “Nuvem de Lágrimas” faz a música sertaneja galgar um patamar de destaque no mundo dos musicais. As canções que compõem o playlist do espetáculo são identificadas pelos apreciadores do gênero musical sertanejo, todas selecionadas dentre os incontáveis sucessos já interpretados por Chitãozinho & Xororó , ao longo de a sua brilhante carreira, que tanto representa o sentimento do homem rural brasileiro e que, da mesma forma, encanta uma legião de fãs originários dos centros urbanos.

A essência do romance de Jane Austen – “Orgulho e Preconceito” é genuinamente adaptada e sedimentada no texto assinado por Anna Toledo – em perfeita comunhão com a direção geral de Tania Nardini e Luciano Andrey e a direção musical de Carlos Bauzys – assumindo, dignamente, a linha superficial e previsível que acaba cativando o espectador, que se encanta com a simplicidade e a inocência do espetáculo. As histórias de amor ambientadas em uma cidade fictícia no interior de São Paulo contemplam paixões mal resolvidas, relações fortuitas do passado, preconceito social – conflitos esses embalados por nada menos que trinta belas canções sertanejas, dentre elas – “Fio de Cabelo”,  “Eu Preciso de Você”, “Brincar de ser Feliz”, “Sinônimos”, “Alô”, “Galopeira” e “Evidências”. O cenário de Paulo Correa transporta toda a plateia para a cidadela e a faz participar da história como moradores locais que compartilham das idas e vindas dos protagonistas na cooperativa, no escritório de advocacia, no casarão dos abastados, junto à porteira, sob a sombra de uma árvore e sob a lua de um céu estrelado. O figurino de Fábio Namatame consolida a luta de classe entre os enamorados com suas vestimentas do dia a dia, retratadas pelo natural despojamento de requintes, contrastando com a de seus familiares que ostentam vestes luxuosamente burguesas durante uma festa no casarão. O desenho de luz de Ney Bonfante é preciso enquanto definição espacial interna e externa, temporal entre dia e noite e dos sentimentos, enquanto conquistas pelos direitos de uma comunidade, conflitos familiares, paixões que vêm e que vão, a luta pela sobrevivência e pela conquista dos sonhos – de forma singela e contextual, oferecendo ao musical, humanidade e controle sobre os sentimentos do espectador.

Na apresentação do dia 13 de maio de 2016, no Oi Casa Grande, Rio de Janeiro, a plateia se comporta como show à parte, tamanha a sua espontaneidade ao verbalizar suas reações durante o desenrolar da história e através da sua participação como um suave coro de vozes que preenchiam os vazios da sala de espetáculos, potencializando os momentos em que a emoção aflora e que as lágrimas embotam os olhos. Nessa mesma noite, nem mesmo a substituição da cantora, compositora e multi-instrumentalista paraibana - Lucy Alves, pela alternante oficial, a atriz cantora e musicista mato-grossente – Luciana Pandolfo, quebra o encanto do espetáculo e frustra a plateia pela expectativa de assistir, ao vivo e em cores, a personagem Bete Borba interpretada pela componente oficial do seleto e entrosado elenco – composto por Adriana Del Claro, como Jane Borba (irmã); Letícia Maneira Zapulla, como Lídia Borba (irmã); Rosana Penna, como Juci Borba (mãe); Marcelo Várzea, como Zé Borba (pai); e Gabriel Sater, no papel do galã Darcy, que transita em meio à aristocrata família composta pelo Doutor Jardim, interpretado Blota Filho; por Caroline Jardim, por Erika Altimeyer; e por Carlinhos Jardim, por Sérgio Dalcin.

O fato de ser divulgado como um espetáculo inspirado no clássico “Orgulho e Preconceito”, definitivamente, não representa o real chamariz junto ao público, que tem lotado todas apresentações. Muitos podem, até mesmo, desconhecer Jane Austen, da mesma forma que outros tantos ignoram @José de Lima Sobrinho e Durval de Lima como os nomes de batismo da dupla Chitãozinho & Xororó, mas certamente, conhecem e reconhecem as mensagens transmitidas pelas canções interpretadas pela dupla sertaneja paranaense, consagrada internacionalmente.


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